24 junho 2020

Na Boca Dela


Quando for chefe dela, vou olhar-lhe de cima para a sua tibieza latejante e ao tocar-lhe ao de leve na cara, apenas com a parte de trás de dois dedos, dir-lhe-ei "do not disappoint me...". Como o Herr Flick com a Helga. "You may suck me now". Mas com a postura dum Alan Rickman e os diálogos dum Jeremy Irons. "Mind your teeth. Don't make me lose my temper". Digo eu com as mãos nos quadris, fleumático mas ameaçador. Mesmo à patrão. Até teria suspensórios e cabelo brilhante puxado para trás. Vários troféus de torneios de golfe espalhados atrás na extensa secretária pesada, escura e luxuosa. Uma foto da equipa toda sorridente lá pelo meio comigo no centro. O sorriso mais cativante de todos. E as melhores marcas de roupa também. O diploma do MBA exibido com orgulho na parede. Os desenhos dos filhos com letras toscas onde se lê “amo-te pai” perdidos no meio de memos de sociedades de advogados. Uma moldura com a foto de uma família feliz num plano de destaque. Um candeeiro daqueles que traz extrema felicidade nos Sims. Não há lareira, mas é como se houvesse; na penumbra do soalho alcatifado, ela estaria de joelhos e uma sombra alaranjada dissimularia as suas feições, agravando as minhas.



Eu vestiria uma camisa aparentemente branca, mas já com nódoas permanentes de sémen no fundo, que lhe conferiria uma matiz amarelada. Isto porque elas mamavam muito e nem sempre engoliam tudo, como deviam. Também há amiúde um jacto que desenha uma órbita imprevisível e os pingos finais que depois escorrem e colam-se ali entre o umbigo e a pila, como se fosse uma brilhantina para aquelas pilosidades que deixa uma espécie de resíduo salino. É desagradável. E nessa altura eu esbofeteio-as e digo-lhes "you're unworthy of tasting my flesh", mas concedo-lhes sempre uma nova oportunidade e elas acho que até gostam de ficar com as bochechas rosadas com a marca dos meus dedos. Às vezes elas aguentam a esporra na parte inferior do maxilar, inundando a língua e o espaço entre os dentes e o lábio de baton de uma meita em castelo, com algumas bolinhas, qual jacuzzi de esperma na boca delas. Engoliam tudo aquilo, prestimosas. E sorriam, com a secreção a descer até à carpete. Pareciam bonequinhos de cera esfomeados, famintas por uma guloseima. Still, shirts are better plain white. Yellow means disengagement. Carelessness. You don’t want to be careless, do you? Do you, jizz sucker?



Depois ela iria para a casa, sonhar com escravos sexuais plasmados de cabedal negro ao aquecer a sopa no microondas. O caminho todo no seu Hyundai sintonizada na M80, acompanhada pelo oscilar dum ambientador com enjoativo aroma a baunilha pendurado no retrovisor e ela a fantasiar com as veias pulsantes dum belo falo pré-ejaculação na ponta do seu nariz por entre a azáfama do trânsito vespertino. Passaria aquela dos Blondie que risca sempre no final e entra em loop na parte do sintetizador e do “la-la-la, lalalalala-lalala-lala” e ela deslizaria a língua pelos lábios, naquele tique já tão corriqueiro de sentir a pasta tépida nos cantos da sua boca gulosa. Chicotes e algemas que estalariam na sua mente com o tlim da sopa pronta. Pepinos que teriam uma consistência tão tentadora e que provocariam calores se os tocasse, fechasse os olhos e imaginasse naughty things. Iria para o puff deslizar os dedos pelo tik-tok na tentativa de se distrair, porém imagens de caralhos tesos e impregnados dum fedor testosterónico assaltar-lhe-iam a consciência, imprimindo selvagens desejos de tudo querer consumir, toda aquela torrente de esporra viscosa, semente de vida e objecto pastoso de prazer, ícone da masculinidade em cheio nas suas pestanas, de leve no seu nariz, em pinceladas esporádicas no seu cabelo. Ah, era bom sorver o sumo do orgasmo, o quente derramado nela, marfim derretido duma tromba pujante, a recompensa pela sua submissão voluptuosa. E porque dizem que faz bem à pele. Ninguém sabe ao certo. Diz-se que sim. 



Há iogurtes naturais que sabem pior. Isto é o que diz a Elsa. Diz que no Aldi há para lá uns dos mais baratos que levou só para experimentar que tinham extracto de líchia ou lá o que era que ainda sabiam pior que a meita do Roberto. O Roberto era o marido da Elsa. Para a Elsa, é um dado adquirido para todo o mundo que “Roberto” é o “meu marido”. Mas ela diz que beber esporra não é bem a cena dela. Que até já engoliu "mas mais por engano, o Roberto entusiasmou-se um bocado e prontos, foi mais coiso". Que o pior até são os pintelhos, quando se enfiam entre os dentes e depois é preciso dar um beijinho nos filhos. E os avós notam. O Sr. Figueiredo bem pensava lá com os seus botões "macacos me mordam se aquilo não é um pintelho mesmo ali a sair dos dentes da minha filha. A porca esteve a mamar na gaita daquele estúpido do Roberto outra vez. Caralhos ma fodam, a quem é que ela saiu?". É que o Sr. Figueiredo daria o cu e cinco tostões para se vir na boca duma gaja qualquer. Desde jovem, de quando batia umas punhetas no meio do milheiral a pensar nas maminhas empinadas da Vitória, que ansiava por vir-se mesmo em cheio para as trombas delas. Foda-se, à homem! Com a Lígia, sua mulher, não. Não há aquele ambiente. Já não é possível dissociar a dentadura dentro do copo na mesa da cabeceira desta relação. Em linguagem rural diz-se que a Lígia “seca o pessegueiro”; as novas gentes estão mais acostumadas ao termo “turn off”. Bom, bom, era papar a amiga da filha, que é caladinha mas jeitosita, umas boas mangueiradas de meita naquelas ventas só lhe fariam era bem! Para ver se espevita, a moça! E depois porque deveria ser óptimo sentir aquela serva tão quieta a levar com o jacto de esperma em cheio na covinha entre o nariz e o lábio e estes, grossos, a serem chapados com generosas pingas aquecidas. Sem uma palavra a não ser a respiração arfante e as pestanas dela a tentarem abrir por entre os estragos do orgasmo.



Mas a Elsa não é de se confiar. É enrabada regularmente, todavia diz que só levou no cu "uma vez" e foi porque o Roberto "se enganou". "Tinha bebido nessa noite e tinha falado com uns amigos e mai não sei quê, mas nem chegou a entrar a sério". "Ele tentou, mas não estava a conseguir... coitado". Mas depois é comprar geles e vaselina em barda do Intermarché, lá daquela marca deles, para quê? Ela leva no cu e leva bem. Tem vergonha de admitir porque “o cu não foi feito para essas coisas”, vá-se lá perceber porquê. E também porque gosta de deixar no ar que é ela quem manda e ninguém lhe vai ao cu. Há esse lado reputacional. Mas até se põe de lado quando se senta lá às vezes no café. Às 5as. Que é quando o Roberto sai mais cedo lá da gráfica para ir buscar os miúdos aos avós. Ela espera-o em casa antes de ele ir buscar os miúdos e pumba!, incha que é Pacheco! Mas tudo bem. Gostos não se discutem. A nossa personagem gosta mais de ser atulhada de esporra. A primeira vez foi literalmente fechar os olhos e sonhar com chantilly. Depois começa a apreciar-se a cena. A perceber-se as pequenas contracções que indiciam a proximidade da ejaculação. Os olhos fechados e os músculos tesos. O homem inoperante nas suas lascívias e ela ali, a beber daquilo, de joelhos, nua, no chão, sem outra regalia que não usufruir daquele néctar. E depois limpar com toalhitas húmidas da Ausónia. A Elsa também diz que as usa, mas para limpar o cu. E ainda quer fazer-nos crer que não lhe rebentam a bilha.



“Look at me”. Haveria um copo de whisky pousado no canto da minha mesa. Eu só funciono bem com scotch on the rocks. As a boss should. E só penso em inglês. Com sotaque britânico, que é mais perverso. As a boss would. Coisas que fazem a diferença. É o principal elemento distintivo entre um Hans Grüber e um Zé Pequeno, por exemplo. Todo um universo de classe de distância. E ela tardar-se-ia a contemplar-me agachada mas olhar-me-ia com aquela pintura esborratada no seus olhos de abandono e eu apertar-lhe-ia o queixo com firmeza, esborrachando os seus lábios. “Do swiftly what I tell you!”. A olhar-lhe fixamente nos olhos e boca perfeitamente na horizontal. Ela iria sentir a frieza do meu anel na sua cara e a frieza da minha alma nas suas extremidades nervosas. Engoliria em seco, a medo. E depois haveria um breve impasse que eu iria desfazer. “Remove your clothes”. E ela iria recompor-se, endireitar-se e, meio titubeante, iria começar a desapertar o botão cimeiro da sua camisa. “Shoes first”. Eu seria um chefe muito mais implacável do que a minha imagem suporia. Nos vídeos da empresa apareceria afável, but that’s only part of the game. Ela não. Ela não sabe fingir. Nem orgasmos. Que tentaria fingir se soubesse o que são. E falharia. Não seria sucedida e ficaria conformada com a boca caída e os olhos meio oblíquos chamando por uma lagrimazita. A Elsa diz que sabe o que são orgasmos. Que as pessoas ficam “coiso”, “tipo sei lá”. Era esclarecedor para ela. Uma explicação familiar. Era mais uma para o monte das coisas que são inexplicáveis. Better leave it unsolved. E a Elsa diz que uma vez tremeu “para aí cinco minutos sem parar, não sei o que me aconteceu, parecia um boneco da Duracell”. Mas tremer assim é bom? “Não é aquele tremer de frio, é mais coiso, sei lá, tens como que uma cena dentro de ti que te atravessa. Mas não é mau. Não é nada mau”. E o Roberto? “O Roberto o quê?” Como é que ele estava? Estava assim todo excitado e teso e com vontade de... “Ah, isso aconteceu-me comigo sozinha, o Roberto nesse dia tinha ido à pesca ou lá o que foi. Não há ninguém que faça tão bem por mim como eu mesma.”



Se há coisa que a Elsa sabe é desenrascar-se. Se não há cão, caça-se com gato. É o tipo de gaja que sabe onde estão as melhores promoções e compra tudo em packs “porque compensa”. Que pede o bagaço da casa ao dono, sussurrando-lhe cúmplice ao balcão por aquela “pinga aí que o chefe sabe”. Que compra coisas fora da validade só pelo desconto pois “os gajos metem sempre uma grande margem nas datas e não há perigo nenhum; já comi uma mostarda fora do prazo há três anos e estava boa”. Que nunca toma medidas contraceptivas nos dias imediatos ao fim da menstruação porque “sei como funciono e nunca me dei mal”. But I couldn’t care less. Right now, you’re naked. And you’re kneeling before me. You know what to do. E fixaria o meu sexo empinado uma vez e a ela outra, com um brilho escuro reflectindo-me nos olhos. E sim, ela saberia o que fazer. Fazia-o bem e como gostava daquilo. Como saberiam as professoras da catequese a lambona que aquela menina tão pacata e temente se iria tornar. Bom ambiente familiar. Sem farturas nem vícios. Poucos namorados. Timidez e recato. Ainda decora o quarto com bonecas. Lê os livros do top do supermercado. Tem Instagram e algumas fotos de viagens ao estrangeiro. Agora tem emprego nesta firma. Tem uma vida estável e cumpre tudo, desde as taxas turísticas às doações aos escuteiros. Não diz uma asneira pior que “chiça!”. E mama caralhos como o caralho. Paradoxal. Ou talvez não. Such are the ways of Mother Nature. Ela afagar-me-ia o saco e retocaria as unhas com um verniz magenta mas nunca me arranharia, ai dela. Ainda assim, eu reagiria: “gently”. E ela engoliria todo o meu pau duma vez só até eu fazer dlim-dlim na úvula dela. Ela iria colocar a minha pose sóbria em risco.



Eu não teria este comportamento com ela em jeito de exploração duma parte supostamente mais fraca. Não, até porque tenho alguns preceitos morais e sou saudável de espírito. Preferiria encarar isto como um aproveitar de sinergias e um acréscimo mútuo de valor às nossas vidas, enquadrando a questão numa linguagem empresarial mais comum para as pessoas que me lêem aí em casa junto da sua família me compreenderem bem. A win-win situation, em síntese. Que isto são só dois dias e um deles passa-se em casa para prevenir a pandemia. E ela mama bem e andava à toa. E eu procuro quem mame bem e por acaso ela até veio para aqui trabalhar. E ela só me pede para “beber o leitinho todo” que tanto gosta. E a mim não me custa nada. Custa é ter de roubar comida para dar aos filhos, os filhos que são nosso farol de esperança neste mundo de gente má. Isso sim, é degradante. Um mau exemplo para as gerações futuras. Isto não, são humanos a ser humanos e a fazerem coisas humanas, daquelas boas. É natural and all that stuff. E somos todos adultos e compreendemos bem que há algum grau de encenação no nosso sexo, mas se for necessário até usamos uma safe word entre nós. Então não há problema. It’s consensual between two adults. It’s all we need. Ela perceberia que a minha cabeça estaria mais rubra, quase acesa, e que haveria uma dilatação dos vasos sanguíneos; tiraria a minha pila da sua boca salivosa, esfregaria-a bem diante da sua tromba, schlek-schlek, num movimento ritmado de punho, abriria o hangar que era a sua boca, esticaria a sua língua como um tapete e aguardaria ansiosa pelo derrame de sémen, a morna monção branca como uma pasta santa sobre si.



“Aaaaah, me corro!”, soltaria eu em espanhol; sim, porque quando tenho orgasmos expresso-me em espanhol. Cosas de mi juventud. “Oh sí... sííííííííííí! Puta madre! Joder!” E ela a besuntar-se com a minha langonha, lânguida, satisfeita, meita tão quentinha a jogar dominó nas suas papilas e a calcorrear todo o seu esófago qual magma até lá baixo ao estômago. Esporrar-lhe-ia no focinho como um elefante azul numa lavagem de automóveis. Até de champô lhe serviria. E ela ficaria pelo chão enquanto eu recuperaria a minha compostura, chupando os seus dedos, lambendo-me a ponta da pila, quase que diria à espera de mais. Mas como pode haver mais? Achas que isto é uma nascente? “Get up and get going” é tudo o que terei para lhe dizer. E ela não levará a mal. A Elsa diz que ela deveria levar as coisas mais a mal. Que não é para dizer sempre “tudo bem” a tudo. Que a pessoa às vezes deve revoltar-se e soltar o que lhe vai na alma. Que uma vez uma mulher passou-lhe à frente na fila e levou os últimos bilhetes para o concerto do Alejandro Sanz e ela nem ai nem ui e depois nicles, o bom do Alejandro nem vê-lo. “Deves reagir mais, melher. Ai que atraso de vida!...”. Mas também não se perdeu muito, que o Alejandro é uma bela porcaria e ela só iria mesmo para a Elsa não ir sozinha. E ela não leva as coisas a mal, é verdade. Isto uma pessoa tem é que estar em paz. Ser boa para os outros, sem ressentimentos nem inimigos. É a base de tudo. Depois alguma coisa há-de se arranjar. Eu ainda a deterei quando ela se abeirar da porta para sair, segurando-lhe no braço e chegando-me perto dela para ela sentir o meu aroma masculino. “You’re a whore. And you know it”. Depois pegaria no casaco que ela se iria esquecer, atirá-lo-ia para o meio do corredor frio e fecharia a porta com algum estrondo. Ela ficaria no escuro, imóvel por momentos. Então iria para casa e entreter-se-ia a ver séries e a comer pipocas daquelas que se compram nos hipermercados e que se se deixam aquecer durante muito tempo no microondas ficam todas queimadas e grudadas ao invólucro. Eu, na poltrona do escritório, relaxado, acabaria o meu whisky e lançaria um olhar confiante sobre a silhueta dos prédios da cidade na noite exterior debruada a luzes e néons, com um violoncelo lúgubre como som de fundo e a câmara em fade out.

11 janeiro 2020

A Midwinter Night's Dream


Isabel estava desconfiada, mas mesmo assim arriscou e foi ao ginásio que havia perto de casa. Era só continuar na rua da sua casa até ao cruzamento com stop, virar à direita pelo tosco passeio em direcção à rua de prédios construídos nos anos 80, com gradeamentos de ferro outrora colorido nas sacadas, e, depois de passar a velha retrosaria da velhota com o cabelo que parecia meio roxo, à esquerda para a praceta sem saída. Cinco minutos a pé. “Instrutores simpáticos e atenciosos, bem frequentado, prevalência de mulheres assim para o entradote, boa diversidade de equipamentos, espaço amplo e higienizado”. Deu o benefício da dúvida. As suas costas precisavam mesmo que alguma coisa se fizesse.



Nos balneários, que de facto estavam cuidados, nada a apontar. Cacifos estimados e os duches sem evidentes sinais de calcário. Pouca gente, não é mau, não se passa tanta vergonha, uma aparente quarentona e uma miúda muito esguia apenas, um instrutor não demasiadamente musculado a andar de um lado para o outro cá fora, uma música ambiente optimista mas com um volume moderado, Isabel fazia cautelosamente o reconhecimento do espaço. Foi pelo corredor bem iluminado até ao fim, podia virar à esquerda para uma sala de alongamentos onde se percebia pela porta de vidro que havia uma instrutora a arrumar umas bolas e cordas, ou para a direita, para uma sala de máquinas de exercício, donde provinha uma luz natural e um som techno mexido que abafava a música ambiente. Foi para a direita, só para espreitar, porque também lhe pareceu que não estava lá ninguém. Àquelas horas, seria o mais natural. Entrou e, de facto, parecia deserto aquele salão de máquinas variadas, com pesos e sem pesos, que fazem bips ou só guincham nas juntas pela falta de óleo, sem uma atmosfera carregada de suor ainda. Porém, numa passadeira afastada, um jovem que passeava com um ritmo baixo sobre o tapete detectou as feromonas deixadas no ar por Isabel à sua entrada. Olhou-a com aquelas sobrancelhas cortadas e os lábios descaídos. Possuía um boné de pala rígida e sobredimensionado para a cabeça, com o cabelo cortado rente onde se discerniam uns tímidos desenhos a desvanecer, mas que ainda assim Isabel conseguiu perceber à distância. Uma t-shirt branca muita larga, caindo numas calças pretas desleixadas sobre uns ténis duma marca qualquer e uma argola no canto do lábio. Mas a bijuteria não se ficava por aqui; ao pescoço, um fio de prata brilhante com uma espécie de sol flamejante na ponta e, proeminentes nas orelhas, refulgindo na claridade, dois generosos vidros a imitar diamantes. O jovem olhou Isabel com um pétreo olhar fixo, mãos sobre os apoios, mantendo a passada lânguida da sua caminhada. Isabel não quereria saber disto, mas assim que ela voltou o olhar do jovem e se escondeu atrás duma fileira de máquinas de fortalecimento abdominal, o jovem sacaria do seu telemóvel e teclaria, com um sorriso malandro que por momentos revelou o seu dente lateral dourado, uns emojis e uma letras esparsas que, em discurso corrente, significaria qualquer coisa como “Mano, a dama ja eh uma beka kota, ya?, mas mano, eu ia la, ya? Mem nakela, ya? Mano, vou fikar ah porta no fim e vou fazer um kanhao para representar o ppl do bairro, ya, e kuando a kota paxar eu, tipo, ya?, vou mandar uns props e pregunto s ela ta nakela e... ya, a ver o k ela diz. Mano, a dama tava a olhar bues, mem assim n boa, ya?, kek axas?” – e esta foi a melhor tradução possível.



Pensava Isabel haver-se colocado a salvo de vislumbres indiscretos quando, detrás dumas dessas máquinas, surgiu um velhote que desafiava a boa etiqueta dos ginásios. Não só pelo seu aspecto desregrado, mas porque a própria indumentária estava longe da imagem que conservamos dum “ginásio a sério”: calças de bombazine maltrapilhas, sapatos muito desgastados, pretos mas esbranquiçados pelo pó e pelo uso, um casaco de xadrez com o pêlo notoriamente manchado, tapando parcialmente um pullover azul pejado de borbotos sobre uma camisa amarelada com os colarinhos apertados, sabe-se lá se o tom original ou se o resultado de anos de lavagem descuidada. Ao pescoço, o passe do Lisboa Viva, sustentado por uma fita vermelha e envolvido por uma capa de plástico. Cassiano Neves. Passe reformado, +65. Na mão de Cassiano, um saco opaco de plástico branco do Mini-Mercado Almeidas que parecia pouco carregado. Cassiano pareceu tão surpreendido quanto Isabel, pois abriu a boca com baba ressequida nos cantos e revelou os seus dois os três dentes ainda mais amarelos que a camisa. Isabel não se apercebera inicialmente, mas num instante reparou em algo a sair pela braguilha das calças de Cassiano: a sua pila – um falo murcho, encarquilhado, triste, sem esperança, saudoso das vetustas conquistas e dos tempos em que se punha de pé, pujante e com veias férreas, escarlate de tão excitado, em ocasiões até mais de que uma vez por dia. Agora era uma sombra de pila. O retrato duma juventude ida. O sinónimo do Outono da vida. Uma virilidade pelo cano abaixo. Um motor com vontade mas sem a força dos cavalos mortos pelo tempo. Isabel arregalou os olhos e boquiaberta não emitiu um som. Cassiano percebeu que provocara uma comoção. Sem grandes pruridos e antes que Isabel pudesse cometer alguma acção, aproveitando o choque, salientou com a sua velha mão esquerda de pele trigueira e unhas compridas e sujas o facto do seu sexo estar ali ao léu e, com uma voz dorida, tentou saber sinceramente e de forma o mais cortês possível: “A menina seria capaz de dar uma alegria a este velhote?”.



Cassiano nem sequer reparara que a reacção de Isabel não foi propriamente a de quem recebe uma surpresa agradável, ela quase instantaneamente conteve um vómito e tapou a boca com a mão à laia de quem diz “que horror!”; sempre ao contrário do que se vê nos filmes do género, onde a surpresa é sempre agradável, todos os temores iniciais desaparecem e ela se envolve com dedicação. Aí sim, os anseios dos velhotes desesperados são cumpridos e as meninas revelam-se sempre melhor que a encomenda, solícitas como deve ser. Mas Cassiano já não via bem. Cenas relacionadas com a diabetes, cataratas e anos de andar a trabalhar junto de ferro fundido, sem óculos e com as limalhas incandescentes a saltar por todo o lado. Além disso, não coloca o colírio receitado pelo tipo da farmácia, o filho do Zé Pires com a Armanda da Moita, um bom rapaz. Não consegue acertar nos olhos e depois aquilo escorre-lhe para o lavatório, para o chão e até para a boca, é uma balbúrdia. E ele não consegue evitar provar aquilo, sabe mal, parece mesmo o bagaço da tasca do Quim Tonho, ali como quem vai do campo do Luso para o antigo Manuel de Mello e vira à esquerda até meio da rua, uma pomada demoníaca que era o principal, senão único, combustível de Agenor, um preto desdentado que vivia numa casa a cair junto da estação quando calhava, porque eram mais as vezes em que se quedava no chão duma rua qualquer. Não, mais valia o vinho servido no copinho de três. Era a Celeste, a assistente social, que lhe ia pôr as gotas todas as Quartas-Feiras. Mas Cassiano não gostava dela, era bruta, assim a atirar para o gorda, já ia no terceiro filho e ainda não devia ter quarenta anos. As mamas dela eram muito espalmadas, autênticos moldes de badalos, e andava sempre com um totó que fazia sobressair as raízes escuras do seu cabelo louro. Ia lá sempre a despachar e ficava possessa quando Cassiano mijava para o chão. “Então mas você não consegue fazer pontaria? Ai meu Deus...”. Nem quinze minutos estava lá, dizia que tinha mais coisas para fazer. “Deve ser ires fumar para a esplanada, a ver se aparecem aqueles gandulos para lhes cravares uns trocos em troca dum broche, não é? Foi a ser puta que chegaste aonde chegaste, não foi? Estas gajas de hoje são todas umas putéfias...”, pensa Cassiano, mas a visualizar-se a si mesmo a dizer-lhe isto de dedo em riste, uma forte expressão de reprovação no rosto e ela quase a chorar de vergonha, com o peso da repreensão moral de Cassiano a enterrar-se profundamente no seu coração de putéfia. Vamos lá, Celeste, admite: és mesmo uma rameira. Mas não, Cassiano não consegue ser assertivo. Já não pode. Já pensar nestes termos não é mau de todo, dada a idade e o desgaste. Já muitas coisas se varreram da memória. Já não há músicas algumas que se recorde. A não ser a música do “Avante!”, que era trauteada lá nos fornos e um pouco por todo o lado. Às vezes, a passear junto à baía, detém o olhar fixo no horizonte e pensa “those were the days...”, não exactamente assim, porque Cassiano nunca se acometeu de sentimentos poéticos nem sabe a referência velada ao Archie Bunker, mas com esse mesmo suspiro de saudade implícito.



Foram bons tempos, apesar de tudo. A gente assobiava a melodia do “Avante!” às escondidas na Siderurgia, distribuía panfletos clandestinos pela Lisnave, carregava nos maços e marretas das oficinas da CP a força do proletariado unido. A fraternidade operária estava bem e recomendava-se. Resistia aos fumos dos químicos, à ferrugem das vigas dos armazéns, ao verdete das máquinas, às intoxicações provocadas pelas águas salobras, a malta aguentava. E tudo com uma fatia de pão e uma sardinha ressequida por dia. O povo sustentava-se entre si, nos casebres quase defenestrados onde famílias numerosas coabitavam com as ratazanas e outros bichos rastejantes, todos alinhados numa ruazinha que começou sem esgotos e com muita lama, miúdos todos sujos a comer do chão, gente que ficava especada a olhar para uma câmara fotográfica como se aquilo fosse uma modernice esquisita, com olhares sumidos e sulcos que eram autênticos carris para o suor naquelas caras. O futuro estava ali, contudo, nessa força inquebrantável mas humilde, assim rezava o que dizia o Bento, o Chico Varão, o Dias, o Alentejano e outros do partido, era preciso era os camaradas permanecerem unidos que um dia “o sol brilhará para todos nós”. Ah, como era bonita essa letra. Por isso Cassiano ainda a sabia de cor. Tudo gente que dava o litro e muito solidária. Havia que transformar o cansaço em alegria através do espírito de grupo. Ao fim duns decilitros de vinho carrascão, as coisas alegravam-se ainda mais. O Bento não sabe, mas o Cassiano, numa noite em que o Bento foi lá para a reunião secreta do comité e ele ficara a beber uns copos lá na rua, viu a mulher dele a passar e a acenar-lhe toda simpática. Pelo menos, foi o que pareceu a Cassiano. Era a Judite, tinha um cu que era uma maravilha. Já mantinham uma relação namoriscada há algum tempo, ela sempre lhe presenteava um sorriso quando ia servir a sopa lá na fábrica e Cassiano não era muito daquelas coisas políticas, gostava duma boa foda assim de vez em quando, como mero desinformado que era. E a Judite também, que isto de ter o marido a pensar mais na liberdade e no fim da opressão burguesa também lhe secava os fluidos. Tapou-lhe a boca para não se ouvir nada e ela levantou o vestido meio em farrapos, revelando uma vulva com níveis estéticos muito saudáveis para uma mulher proletária. E foi avante, camarada, avante. Mesmo assim, Juca, o filho deles, ainda acordou, aquelas paredes pareciam papel, “Mãe, está aí?” e o Cassiano saltou pela janela fora, assustou um gato, o cão ladrou, ai c’um caraças!, o Cassiano vai ser apanhado literalmente com as calças na mão. Em pânico, escapou-se para a escuridão, ainda derrubou um caixote e ficou à espera. Ao fim duns segundos, saiu do seu enconderijo, pensando estar tudo controlado, mas na penumbra deu de caras com a irmã mais nova da Judite, a Ilda. “És tu, Cassiano? Olha para esse estado!”. E ele veio com algumas desculpas, notava-se o cheiro a álcool e Ilda condescendeu e até achou graça. Passado não muito tempo, Cassiano comeu a Ilda também. A Ilda depois casou-se com o Alentejano, que por sua vez andava a comer a irmã do Bento até esta apanhar uma coisa esquisita que lhe deixou toda amarela e bexigosa. Nessa altura, o Alentejano borrifou-se nela e arrastou a asa para a Ilda. E faziam um bom casal, embora lhes calhasse o azar de terem tido dois filhos atrasados mentais. Cassiano também gostava da sua Elisabete, a esposa legítima, fora-lhe recomendada pelo Dias, primo de Elisabete, ambos vindos de Vendas Novas, e que também era seu vizinho e casado com a Aidinha, prima de Judite e Ilda, que tinha um braço mais curto que o outro e que por isso estava dispensada de trabalhos mais pesados e era a ama principal da Verderena. Tudo bem que Cassiano dava as suas facadinhas no matrimónio, mas Elisabete trabalhava bem, cozinhava melhor e não perguntava muito. Tal e qual como o Dias tinha prometido. Era tudo gente muito próxima, está bom de ver.



Esta alegria teve o seu zénite no 25 de Abril, ena pá, aquilo é que foi festa. Quando lhe perguntam onde estava no 25 de Abril, Cassiano diz que estava na fábrica até virem o Bento e os outros aos pulos, agitados, a dizer que naquele dia não se trabalhava mais. “O fassista do Caetano está preso”! Mas isso era apenas parte da história. A seguir a ter saído prematuramente da fábrica, Cassiano foi dar a última foda na Judite. É claro que ele não sabia que era a última nem percebeu o augúrio que daí adviria. Toda a gente esteve eufórica durante umas semanas, muito ocupada em plenários, comissões e manifestações, pintavam-se murais e faixas, uns citavam a China, outros a URSS, aqueloutros a RDA e o Chico Varão derretia-se todo pelo heróico povo da Albânia. O pior foi depois, quando o ordenado deixou de pingar. O patrão tinha fugido para o Brasil com a Maria de Lourdes, uma loura nortenha que andava sempre atrás do chefe com papéis e malas. Era ela que tratava de tudo, na prática. Foi mais a fuga dela que pesou, já não havia ninguém para passar os cheques e era ela que tinha as chaves do cofre. Nem cem escudos encontraram nas gavetas do escritório em pantanas. A malta ao princípio ainda formou uns piquetes onde se jogava maravilhosamente à sueca, mas depois começou a gerar-se alguma inquietação e até zanga. Desataram a aparecer uns pretos e uns retornados à procura de trabalho e a solidariedade começou a esfumar-se. Veio esta gente de fora e a malta de cá continua com fome, não pode ser. Do ambiente fraternal entre os camaradas, passou-se a desconfiar do burguês escondido em cada um. O acelerador da mudança estava a fundo. O Bento passou a usar gravata e mudou-se para Lisboa. O Chico Varão foi preso. O Dias desapareceu por uns tempos, depois soube-se que foi para a França onde estavam uns tios. E o Cassiano parado na fábrica agora fria e despojada até que um dia deixou simplesmente de aparecer. E ninguém se importou.



Acabou por se juntar a Elisabete na padaria que esta tinha em Sto. António da Charneca. Podia ter sido pior. Ganhavam razoavelmente, embora isso lhes custasse o sossego de todas as noites e um certo aconchego conjugal. Ainda assim, davam-se bem. Fodiam pelo menos uma vez por semana, pelo menos até ele fazer 40 anos. Depois disso, já não sabe. Foi a hipertensão, vesícula, o reumatixo, as cruzes, as varizes, tudo de enfiada em ambos, com a falta de tesão de permeio nele. De vez em quando, o cu da Judite atravessava-lhe a mente quando fechava os olhos, depois abria-os e dava de caras com uma Elisabete esforçada e coberta de farinha, mãos na massa e um bigode a brotar nas faces luzidias e rosadas, que lhe alertava “Tens de tirar os papo-secos do forno!”. A especialidade da casa eram as bolas de manteiga, que abasteciam as principais pastelarias do Barreiro até a Moderna começar a ter produção própria. Mas também se safavam com a padaria convencional e forneciam umas quantas carrinhas de transporte que iam até Azeitão ou a Pegões, se fosse preciso. Não tinham filhos. Elisabete tinha um problema nos ovários, já desde os vinte e tal anos, tomava comprimidos para as dores. Cassiano também não se importou com a falta de descendência, sobrava mais para o vinho, embora os medicamentos consumissem muito do orçamento. Depois houve um dia em que Elisabete cuspiu sangue inadvertidamente sobre a massa do brioche e os clientes reclamaram muito da “massa com cor de cereja mas que sabia a ferro”. Foram outra vez à farmácia do filho do Zé Pires com a Armanda da Moita e este deu-lhe uns comprimidos e duas cápsulas para tomar a seguir às refeições. Isto numa Sexta-Feira. Passou-se o fim-de-semana e na Segunda-Feira, quando o Cassiano foi pegar ao serviço, Elisabete estava esticada no chão da padaria sobre um tabuleiro de pão acabado de cozer com o cão a lamber-lhe a cara e o rabo a abanar. Cassiano ainda duvidou, mas quando o cão parou de abanar a cauda e o fixou com aqueles globos negros, soltando um tímido ganido, Cassiano percebeu claramente a mensagem que o cão lhe transmitira. Os cães não enganam a gente.



Como Cassiano não percebia basicamente nada de padaria, o negócio foi trespassado. Ainda convidaram Cassiano para ajudante mas ele declinou. Já não era um local que lhe proporcionasse boas memórias. Deambulando pelos cafés da extensa Avenida Bocage e suas transversais, foi procurando derreter essa  memória impregnada de dor e solidão em ralis de copos e garrafas, embaciando cada vez mais o olhar e envelhecendo muitos anos numa matéria de meses, convivendo com Agenor e outros sub-humanos decrépitos entre o lixo acumulado fora dos caixotes em dias que se tornavam noites e depois dias outra vez. Conservara o cão, que, sempre sensato, parecia olhá-lo com pena quando Cassiano ficava sobre a cama um dia inteiro, todo mijado, as moscas na sua boca aberta, um crucifixo torto sobre a cómoda empoeirada, onde uma velha fotografia a preto-e-branco duma Elisabete jovem e sorridente repousava. Um verdadeiro compincha para qualquer vagabundo que se preze, este cão, que era o único que ainda o acompanhava. Um dia, o Chico Varão, já mais refeito na vida, encontrou o Cassiano a tropeçar numas pedra soltas da calçada e deu-lhe um abraço. Disse que andava na Câmara e que se calhar precisavam duns almeidas, assim uns gajos que varressem, trabalhassem com pás e essas coisas. Aquilo era emprego para a vida. E assim foi. Quer dizer, o Chico Varão reformou-se logo aos 45 e moveu as suas influências para que o pessoal amigo também fosse. Ainda assim, o Cassiano teve de esperar até aos 51 anos. Foram alguns anos sempre no sujo, à chuva e ao sol. As gentes foram mudando, começaram a ser mais ensimesmadas e já ninguém dizia bom dia a ninguém. Os miúdos foram crescendo mal-educados. Varria muitas seringas do chão, deu de caras com dois putos roxos com um garrote no braço e a babarem-se nas traseiras duma arrecadação junto do bairro dos ciganos, tentaram roubar-lhe algumas vezes e até levou porrada duns putos bêbados à noite. Mas também encontrou muito material ainda em condições abandonado nos caixotes, até bons brinquedos para cão, carteiras com algum dinheiro e outros pertences com valor. Portanto, tudo se compensava. E era uma reforma razoável, dava para os comprimidos e para o essencial. Isto é, o álcool e a ração para o cão. Que isto de restos sempre disseram que não são uma alimentação correcta.




Mas isto de reforma não é um mar de rosas, não se pense assim. É uma sucessão de minutos e horas que tardam a passar e que se acumulam ao ritmo irritante do tic-tac do velhíssimo relógio da sala. Não há um objectivo em mente. A mente confunde-se. Os copos somam-se vazios sobre o balcão. A cabeça pesa. Nada parece fazer sentido, desde as vozes na televisão aos carros que passam na rua. As pessoas são apenas montes de carne e ossos, anónimas. Onde se escondeu a alegria? A esperança no amanhã? A sociedade de que o Bento falava todo entusiasmado? O Bento está aí, nas páginas dos jornais que Cassiano já não consegue ler. Nem é pelo problema dos olhos, e o filho do Zé Pires com a Armanda da Moita bem lhe disse para andar sempre com os óculos, é mesmo por não ter paciência nem capacidade de perceber o que se anda a passar. Oh Judite, Judite, o teu cu é tudo o que me lembro e aquela noite em conheci a tua irmã, Judite, foi quando me senti mesmo vivo. Quando o coração acelerou, quando tinha um propósito e uma excitação que agora, Judite, não encontro em lado algum, pensou Cassiano com as mãos na cabeça sobre um banco na praceta em frente ao ginásio. Onde gente jovem e asseada vem exibir o seu glamoroso físico, juventude vaidosa e petulante, pobres desvairados que ainda não perceberam que, tal como a praceta, a vida não tem saída. Nem ele percebia como se poderia retirar prazer a correr por gosto, a esforçar-se por carregar pesados fardos de ferro com empenho, a testar voluntariamente os limites do cansaço. E dizem que ainda pagam, nem sequer têm um patrão a chicotear-lhes com um frígido olhar autoritário. Onde viemos parar, afinal? Cassiano sentiu-se enganado. Traído pelo destino. Que mal fizera ele?, questionava mudo, tentando compreender minimamente o porquê das coisas. Mas não por muito tempo. A cabeça doía-lhe, os olhos ardiam, os ossos fraquejavam. Das duas uma, ou faltava álcool ou faltava a dose de comprimidos. Era tudo muito confuso, muitas coisas para prestar atenção. Carros a apitar e telemóveis a vibrar por todo o lado. E Cassiano, trôpego, entrou dentro do ginásio sem perceber porquê, como nunca compreendeu bem as coisas durante a vida. A clarividência nunca fora o seu forte, já percebemos isso: até tinha os comprimidos e um litro de cerveja no saco que levava na mão direita e não dera conta disso.



***



Isabel não voltou mais ao ginásio, claro. É que nem pensar. Saiu dali a correr, encontrou o instrutor, a instrutora veio logo a seguir e ambos ficaram a tratar do Cassiano, que andava ali de pila à mostra por entre as máquinas. Empurraram-no cá para fora, o instrutor meio a contra-gosto e com algum nojo recolheu o sexo de Cassiano para dentro das calças e ameaçou chamar a polícia caso a situação se voltasse a repetir. “Ah, isso é que não! Vamos chamar a polícia de qualquer forma! Velho tarado, ainda se atira a uma criança e depois como é? Vamos é reportar a situação!”, insurgiu-se a instrutora, quase com os lábios a tremer. “Achas mesmo?”, duvidou o instrutor: “O velho ‘tá bêbado, não é dessas coisas...”. “Não, não, não! É que é já!”, replicou ela, sacando do telemóvel. “Eu... eu não quero problemas...”, balbuciou Cassiano, tonto, cambaleando para fora dali, mão esticada em sinal de paz. “Ai, que merda, ‘tou sem bateria! Ó Gonçalo, liga tu para a polícia!”. Mas Cassiano já lá ia aos poucos no fim da praceta, aos encontrões nos carros estacionados e Gonçalo, preguiçoso, respondeu “Oh Carla, deixa lá estar, vamos mas é arrumar o equipamento que daqui a pouco a gente começa a chegar. Mais vale nem falar disto que é para não dar má reputação ao ginásio... Já viste o que é se começarem a dizer que andam tarados à solta por aqui? Não era bom, pois não?”. Carla conformou-se. Gonçalo tinha sempre uma forma calma de fazer valer os seus pontos de vista. Ao contrário do seu namorado, um franganote destravado que facilmente elevava o tom de voz quando se juntava com os parceiros de tuning ali na mata de Coina, embora essa rudeza até fosse sensual. E era realmente melhor irem tratar das coisas. Mas ainda guardava alguma raiva interior dentro de si. Gonçalo gostava daquele nervo, daquelas explosões femininas. A sua namorada era uma princesinha com notória falta de sal e muitas horas a ver vídeos de animais e de como arranjar pestanas na net. Só gostava de foder por cima dele e no mesmo lugar na cama e nunca às Terças e Quintas-Feiras, que eram os dias do yoga. E nos dias do yoga a tranquilidade deve ser total e primordial, até sobre o sexo. “Olha lá”, disse Carla, maliciosamente, “foi engraçado ver-te a mexer na gaita do velho...”. E Gonçalo, “Eh pá, isso não sai daqui! Só o fiz porque... porque foi a situação que foi, só isso! Eu só mexo na minha!”, e sorriu. Ambos reentraram no ginásio muito cúmplices e divertidos. Por isso, não admirou que quando a sala começou a ficar composta, os utentes tivessem ficado desagradados com um certo desleixo organizativo, que até aí nunca se havia manifestado: é que Gonçalo e Carla foram dar uma rapidinha à arrecadação e até se esqueceram dos deveres.



Portanto, se Isabel queria resolver o seu problema teria de arranjar outra solução. Os outros ginásios eram longe e mais caros, porém. Ficava mais barato arranjar daquelas bolas gigantes e experimentar em casa. Na sala dava, bastava desviar um pouco os móveis. E ainda dava para ficar junto à televisão, para distrair durante o exercício diário a que se iria comprometer a cumprir. Mas não era fácil. Não só a ginástica entediava-lhe, por muito benéfica que fosse, como a própria televisão só passava coisas deploráveis. Especialmente à tarde. Por incrível que parecesse, os programas vespertinos das televisões generalistas nem eram dos piores. É que ainda ia lá um convidado maluco que metia toda a gente a rir ou um artista musical qualquer, que por muito rudimentar que fosse o seu som, sempre era música que ajudava a passar o tempo. Ainda assim, havia sempre uma parte substancial dedicada às desgraças, desastres por todo o lado, a tragédia banalizada. Sempre em cima do acontecimento, por todo o lado, a televisão transmitia a miséria para gente comodamente instalada nos seus sofás assépticos. Agora ali tão perto da Isabel: uma tentativa de assalto a uma casa térrea perto do parque industrial da Quimiparque redundara na detenção de um jovem delinquente, com a fuga de outros dois, segundo testemunhas oculares. Isabel parou de esticar os braços e olhou por instantes para o televisor: estava um cão com ar abandonado e de aspecto muito inteligente a fitar a câmara junto à porta da casa, já com uma faixa da polícia para vedar a entrada de estranhos. E o jovem tinha um boné sobredimensionado, uns brilhantes muito espampanantes nas orelhas e qualquer coisa pendurada no pescoço, deu para perceber mesmo com a câmara aos quadrados sobre a cara dele enquanto era encaminhado pelos agentes para o carro. O jornalista ia referir qualquer coisa sobre o residente da habitação, um aparente septuagenário que vivia sozinho, isto é, descontando o cão, de acordo com os vizinhos. Mas Isabel suspirou e fez zapping nesse instante, procurando alguma música que só encontrou ao cabo de alguma busca num canal africano. E retomou o extenuante e obrigatório exercício, que até aí não se traduzira em melhorias evidentes para as suas costas, com a companhia de duas pretas a abanar os seus cus gigantescos e um preto com notórios problemas nas articulações e na dicção.

21 novembro 2019

Cipreste


Eu morri num dia de chuva. O meu funeral foi numa tarde chuvosa.



Havia quem dissesse “já fazia falta uma chuvinha assim” e havia quem, imbuído dum espírito literário, assinalasse o poético da situação. A pergunta que mais se repetia era “como ele morreu?”. Bem, eu morri a viver. Já tinha vivido muitos tempos mortos, mas isto não foi bem a mesma coisa. Desta vez eu morri mesmo. Posso morrer de várias formas. Como lançar o dado e calhar na casa do Inferno: “ena pá, morri!”, exclamei. E a gente à minha volta, “pois foi!”, olhando meio perplexa para mim. Afinal, morrera e ainda há instantes estava ali a disputar a Glória com eles. Eles, lá no fundo, ficaram muito aliviados por não terem sido eles a quem o azar bateu à porta. Nem sequer houve muita consternação. Isto não passa de um jogo, não é? Entre uma palmadinha nas minhas costas a pender para o rigor mortis, desvalorizaram a situação, “ah, a gente volta a jogar outra vez, deixa estar isso…”. “Não”, expliquei-lhes, “desta vez eu morri mesmo. Tive um azar do caraças. Isto acabou de vez”. E eles lá se aperceberam da gravidade. Houve expressões faciais algo consternadas por momentos, envoltas num silêncio encavacado. Mas depois alguém chegou finalmente à Glória e logo as atenções que estavam concentradas no meu infortúnio de súbito divergiram para nunca mais convergirem. Se a vida foi efémera, a minha recordação será ainda mais. Daqui a pouco tempo, sobrepor-se-á pó fresco sobre o meu pó e todos formaremos um monte de pó indistinguível que albergará insectos e vermes, será urinado por crianças e idosos e dissipado pelo vento, tratado como entulho e apagado duma memória com muito poucos bytes disponíveis para albergar minudências como eu.



Os bytes são preciosos, são a água que permite e alimenta a nossa existência nestes tempos em que passamos os dias com a cabeça na cloud. O que é muito diferente de andar com a cabeça nas nuvens mas por vezes parece igual. Neste sentido, também posso ter morrido duma forma modernaça. Jogando um daqueles jogos de consolas. Online, com putos e nerds não tão jovens de todo o mundo, numa rede de soldados desconhecidos sem direito a estátua. A morte veio pelo ecrã. Anunciada com um garrafal “GAME OVER” em tons vermelhos e desta vez sem direito a continuação. As vidas infinitas eram um mito. Devia ter sabido disto, não era um subscritor e fiz um download ilegal. Portanto, foi um castigo merecido pela minha veia de pirata e pela minha imperícia em manusear a arma num teatro de guerra urbana em 3D. Dizem que foi o “user39240675” a matar-me à traição, o “polarbear_345” jura que foi a “urbanWWWitch” que me surpreendeu, o “Yevgeni8SSok” escreveu no chat que “he blown his grenade”, mas a maioria nem notou. Pensavam que eu estaria lá na noite seguinte, mas eu faleci sobre o tapete da sala e não voltei a ligar-me à rede. Passaram à frente. O “no_nick_6969696969” foi alinhado para a equipa e revelou-se melhor que eu. O meu perfil, porém, eternizou-se na rede. De quando em vez, umas mensagens pingam na minha área, oferecendo serviços, apresentando novidades ou convidando-me de volta para a minha vida guerreira. Revelei-lhes, “I’m dead, folks”, mas as reacções foram díspares. Houve quem soltasse um “lol”, certamente um fã de humor negro; houve quem digitasse “wtf?” e depois muitos despejaram bonequinhos amarelos com faces diversificadas, alguns mexiam-se mas outros não, eram estáticos como eu ficara. O meu cunho ficou para sempre marcado na rede. Mesmo morto, valho bytes. Valho algum cêntimo de bitcoin para alguém ou alguma coisa. Mesmo que ninguém queira saber da minha cara, dos meus desejos ou dos meus medos, sabem que ainda ocupo o mesmo espaço dos vivos. Um espaçozinho virtual, vá, proporcionalmente mais exíguo que a campa onde fisicamente o meu corpo agora apodrece.



Ou simplesmente morri porque assim teve de ser. Por causa de alguma anomalia física, um acidente infeliz ou porque assim quis. Na verdade, morremos todos os dias um bocadinho. Eu simplesmente adiantei etapas ou apenas deixei o prazo expirar até algum órgão vital falhar. Agora parecem-me exagerados os muitos momentos em que desejei que este dia viesse, consumido pelas angústias e desilusões dos muitos dias em que chafurdei no meu próprio desespero. Se calhar não valia a pena a preocupação. Provavelmente, não aproveitei o que devia. Havia sempre tempo a mais e agora já não há tempo para mais. Não foi por falta de aviso, mas havia sempre aquela esperança parva no amanhã. Um amanhã radioso que tardava a aparecer. Agora não há mais dados para girar ou créditos suplementares. Nem sequer há a hipótese de me arrepender do desperdício, de me libertar dos pequenos ódios que me depauperaram as energias, de cumprir com velhas promessas ou de realizar os inevitáveis sonhos adiados. Já não se pode adiar mais. É fisicamente impossível e não me passa nada pela cabeça, nem sequer um leve zumbido indicando que a transmissão acabou. Entre mim e uma pedra tosca não há grandes diferenças. Daqui a pouco, a decomposição trará um forte odor. Eu tenho de ser despachado e enclausurado num lugar longe da vista para sempre. E longe da vista é longe do coração. Vou desvanecer das memórias de toda a gente.



Perguntam-me, “e como é a morte?”. É como entrar num sono eterno. Nem damos conta. Sabem aquelas coisas dos anjos ? É treta. Quando fechas os olhos vês uma luz forte que te encandeia de tal forma que tudo fica escuro. Só isso. É tudo vazio. É a definição do vazio. E eu que tanto queria revisitar os meus adorados animais de estimação no além, de novo joviais a pularem com alegria de nuvem em nuvem perante a bonomia de Gabriel e Deus, de sentir a frescura terna do seu olhar, que queria abraçar os meus pais de novo, roído de saudades e com eles reviver a nostalgia dos bons velhos tempos, de me levarem ao colo e de me protegerem enquanto crescia, acolher os meus amigos que ficaram mais uns tempos na vida terrena e depois rir-me à gargalhada num espírito de união e camaradagem que só com eles atingi, mas aqui não há vida. Não há nada. Não há ninguém. Venderam-me uma ideia errada. Não sei para onde eles foram. Quando eles foram, foram para outro lado qualquer. O além é um buraco negro, um vácuo perfeito. Não há céu nem inferno, tampouco purgatório ou paraíso, nada. Nem prémios para os bons ou castigos para os maus. É tudo assim-assim, de forma severa. Livre de quaisquer amarras e ao mesmo tempo preso num lugar inóspito, de tão desolado. Sem doenças mas também sem paixões. Não sentes nada, não vês nada, cessas de ser. Tão só isto. Não há nada de formidável nem miraculoso.



Eu sei, é uma desilusão. As pessoas esperavam mais. Os árabes esperavam virgens, coitados. Os cristãos esperavam a redenção, pobrezitos. Os hindus esperariam o quê?, uma ovelha mágica de 8 patas e quatro braços? E os budistas, um mar de incenso e silêncio? Bem, estes se calhar não irão estranhar muito as coisas. Enquanto o meu caixão descia para uma cova enlameada, uma ligeira brisa apagou as trémulas velas e dobrou as flores murchas e as de plástico, mas os ciprestes permaneceram estáticos na sua frondosidade elegante. Fotos envelhecidas observavam das campas contíguas e bolorentas o seu novo companheiro. O coveiro foi tão profissional quanto podia ser, indiferente a tudo. Umas últimas lágrimas caíram das faces dos poucos presentes e um raminho de crisântemos foi atirado para cima de mim, com uma dedicatória para “descansar em paz”. Como se pudesse ser doutra forma. “Ainda tão novo...”. De facto, sou um cadáver enxuto. Os organismos sob a terra irão deliciar-se comigo, até com o fato que me vestiram. Era uma pena cremarem um defunto assim tão belo. E também era mais caro. Admito que tenham usado um fato velho para entrar decentemente nesta etapa, senão seria um gasto totalmente inútil. Seria literalmente dinheiro atirado para um poço sem fundo. A gente não diz que a morte chega tarde. Passamos a vida atrasados para tudo e depois a morte chega sempre mais cedo. E este horário não pode ser ignorado.



Qual o sentido disto tudo, afinal? Viver serve para quê, afinal?  Não sei, ninguém sabe, ninguém pode saber e de qualquer forma isto já não é para mim. Estas perguntas são aborrecidas e as respostas nunca convencem. A minha viagem termina aqui. Obrigado por tudo e desculpem qualquer coisinha. Se vos fiz alguma coisa mal foi por pensar que de alguma forma isso seria bom para a minha vida. Acontece a todos. Mas já não dou mais para o peditório das chatices. Fica para vocês que estão aí à chuva e que esperam que o sol venha em breve. A dúvida é agora um exclusivo vosso.

26 junho 2018

Christy Turlington


Se te perguntarem porque ficaste com o olho assim, diz que foi a cair das escadas. É o que se costuma dizer. Ninguém vai levantar mais questões. É muito natural, uma mulher a cair nas escadas. É por causa dos sacos e das malas, atrapalham e desequilibram. Já todos sabemos o que isso é e na azáfama metropolitana os riscos adensam-se. E depois as mulheres ainda têm o handicap dos saltos. Basta um pequeno toque por um miúdo mais arisco e pumba, lá vai a mulher pelas escadas abaixo. Mais um lamentável acidente, coisas que acontecem. As compras todas espalhadas. Os talões todos a esvoaçar. As chaves com os cartõezinhos de descontos a resvalarem para a sarjeta. As velhotas que ficam paradas de boca aberta e o resto da gente que te ajuda a levantar, mais a cigana que ia a passar e que te levou as calças pretas da Guess e o estojo de beleza. Desta vez para consumo próprio. O telemóvel super-slim que só não partiu o ecrã agora porque já estava partido. Noutra queda parecida. Agora vai surgir apenas mais uma mancha esbranquiçada num dos cantos e a tampa traseira já não fechará bem. Mas ainda funciona. Menos mal.

É como viver num T1 na zona chique. Podia ser melhor. Podias não ter de estender roupa no teu próprio quarto. Nem ter a bicicleta em cima do armário da louça, ali a tapar a televisão, que por sua vez ainda toca no sofá. E o raio do cão stressa com laivos de claustrofobia, rasga os cortinados, destrói os tapetes, desarruma tudo o que encontra. Pensa que depois um focinho alegre e uma cauda oscilante com que te recebe é tudo o necessário para uma festinha, um pratinho de Friskies e uma voltinha ao quarteirão. Mas vai ter o castigo de te ter posto a casa de pantanas e de te deixado uma poça de mijo junto ao frigorífico. Não há voltinhas hoje. Fica para aí a destruir o resto, a largar o pêlo para cima da cesta de fruta ao lado do chaveiro, a roer o comando da televisão, a destratar qualquer calçado que apanhes. A Bimby está segura, ali aconchegada sob o edredão por cima da máquina de lavar roupa. A essa o cão não deita o dente, está demasiado gordo para saltar tão alto. Mas podia ser pior. Ainda podias estar nos arrabaldes e perderes mais de uma hora para chegares ao trabalho em estradas cheias de buracos e tampinhas de esgoto e sabes lá que mais, enquadrada na romaria duma multidão indistinta, cinzenta e abúlica. Aqui não; há arruamentos ajardinados, gente fluorescente a fazer running pela manhã e jovens urbanos inseparáveis dos seus gadgets. A luz aqui brilha com outra intensidade e o vento pede licença antes de soprar nos cabelos. E ainda vês muita gente interessante nas imediações. Como aquela que entrava na telenovela e que fazia de má. Vai sempre ao mesmo café pela manhã e pede um descafeinado e uma torrada de pão integral com geleia em vez de manteiga. Quem diria, é uma jóia de pessoa. O Sr. Joaquim já nem precisa de ouvir nada, vê a senhora, sorri e passados uns momentos vai servi-la diligentemente. Ou seria a gaja do telejornal da tarde? Não sei, são todas iguais e saem todas na mesma revista. Até o ex-marido é o mesmo.

Não queres regressar a esses tempos sombrios que procuras libertar da tua memória. Quando tinhas os dentes todos tortos, amarelados por causa dos Chesterfield que fumavas e que te conferiam um aspecto toxicómano, ainda para mais com as companhias que andavas. Era a Lena, uma preta gorda e vesga que andava de suspensórios, e a Solange, uma loura falsa com as orelhas cravejadas de metal e um rabo que pedia meças aos amortecedores dos comboios, sempre rodeadas dos manos lá do bairro e dos seus Peugeots 306 de vidros fumados, qual deles com o cap mais estiloso. Eram a Naomi Campbell e a Linda Evangelista de Marvila. E tu a Christy Turlington, com essa cremalheira toda saída e um nariz esguio sobre lábios que pareciam inchados, corpo de extraterrestre com um olhar avermelhado, porém sereno. Ou apenas ganzado. Quando te rias à gargalhada, os teus dentes sobressaíam como vidro sob sol estival e parecia que se queriam atirar ao rio desde aquelas ruelas empedradas e empoeiradas que desciam a pique nas traseiras dos armazéns abandonados. A tua mãe já sabia que estavas a chegar a casa quando percebia o reflexo da tua dentição desde a janela, ainda vinhas tu a chegar ao Poço do Bispo pelo mesmo trajecto do 28. A tua mãe sempre te esperava à janela, sempre de bibe florido, sempre com o desalento enterrado nos sulcos da sua cara desgastada, sempre suspirando a sua esperança com a cabeça apoiada nas mãos, sempre com o vetusto estendal com as mesmas camisas negras e toalhas de renda branca a balouçarem sob o parapeito, sempre com o cabelo grisalho apanhado num totó e um bigode cada vez mais indisfarçável. A velha nunca teve outra cara, outra postura. A velha nasceu velha. “Ai Cristina, olha para esse estado…”, queixava-se ela, com os olhos muito engelhados a humedecerem-se, mal mexendo as suas pernas pejadas de monstruosas varizes e com meias de descanso, em velhos chinelos oferecidos pelo Júlio Isidro no seu programa do Natal de 1987; depois, sentava-se num banquinho mocho muito tosco e amargurava-se sozinha, muito dobrada sobre a mesa, enquanto tu ias fumar a ganza que o Leandro te enrolara para o teu quarto. Era uma divisão simples, estreita mas com um pé direito enorme, com o estuque praticamente todo destituído das paredes e uma janela de madeira de vidros meio baços que dava para a rua principal, para outro prédio semelhante, desbotado e sujo. Ficavas a ver o fumo a acumular-se junto ao tecto, por onde se escapava por uma fenda. E depois punhas a Rádio Cidade a tocar no velho rádio-despertador com um fio de plástico a servir de antena, que atavas na bolinha da cabeceira da tua guinchante cama de ferro. Metias a brasileirada no volume máximo só para não teres de aturar o pranto da velha.

Se calhar as coisas poderiam ter sido diferentes se o teu pai tivesse sido uma figura presente. Nem sabes ao certo o nome dele. Começava por “A”. Tanto podia ser Abel como Abrenúncio. A tua mãe nunca falou muito dele. Dele conservaste uma velha boneca que ele supostamente te ofereceu e que jazia numa velha cadeira lá no canto dum quarto abandonado, subjugada ao pó e ao mofo. Nunca gostaste muito de bonecas mas também nunca quiseste livrar-te definitivamente dela. Talvez por ser o único brinquedo que resistiu à tua infância, mesmo que tal só tenha sucedido porque não gostavas de brincar com ela. Estranha nostalgia. Havia uma velha foto dele de cores muito fugidias em cima do aparador, por cima dum naperon muito rendilhado, dum branco muito fosco, quase amarelo. Dava-lhe um aspecto tétrico, mesmo considerando o sorriso pacato dele e o comb-over na cabeça típico dum homem não muito dotado pela Natureza e em clara negação de meia-idade. Parecia respeitável, embora sinistro, como um fantasma anónimo em forma de bibelot. Um dia, por desleixo, tirou-se o naperon e a moldura veio atrás, estilhaçando-se no chão. O sorriso dele ficou cheio de pequenos vidros em cima e a tua mãe decidiu nesse momento retirar aquela fotografia de circulação. Nunca mais o viste nem sabes onde a tua mãe guardou a foto. Se é que a guardou. Ela disse-te que ele já morreu há tempos. Já to dizia há anos. Quase que parece que ele faleceu imediatamente a seguir a fecundar a tua mãe. Imaginas ele a acabar de se vir e a tombar morto sobre ela, que a custo o mandou junto com os restos de comida para os gatos pela porta fora. Não há nada de muito relevante a contar dele. Não sabes o que fazia. Não sabes o que não fazia. Somente que ele bebia muito. O teu irmão herdou esses hábitos. Esses e outros. Quando te vi pela primeira vez, estavas a chorar quando a polícia foi à tua casa levar o teu irmão algemado. A tua mãe reagiu com a corriqueira tristeza de quem já vira a mesma situação várias vezes. E foi aqui que me prendeste a atenção. Tinhas um choro muito bonito. Eras muito bonita quando sofrias. Quando as lágrimas desciam as maçãs salientes do teu rosto como um glaciar salgado de melancolia e ficavas ali, indefesa, impotente, frágil como os teus próprios braços.

Não foi propriamente difícil convencer-te. Diria até que os putos de hoje em dia estão bem avisados e que já não entrariam no meu carro com tanta facilidade. Mas o meu carro era um BM. Logo vi que não irias resistir. Levei-te pelo IC19 fora, ficaste encantada com uma via rápida de 3 faixas, as placas reflectoras para Massamá e Rio de Mouro, esses nomes tão exóticos que desconhecias, a quantidade de prédios a fazerem cócegas uns aos outros, maravilha, pensaste tu, que paredes tão direitinhas, que urbanismo tão fervoroso, tanto betão robusto que contrastava com a fraca alvenaria da tua casa, admirável mundo novo aqui tão perto. Via-se a tua felicidade a léguas e não era só pelo reflexo das tuas enormes favolas saídas, era mesmo algo genuíno que exalava de ti. Mas tu nunca foste muito boa a lidar com a felicidade. Tens de recebê-la em doses moderadas. Doutra forma ficas parva, deslumbrada, com uma expressão imbecil, tornas-te francamente exasperante. Até confrangedora. O teu gargalhar parece o barulho de gralhas roucas. Quando esticas os cantos da tua enorme boca, crias uma vaga de rugas na tua tromba que te torna dez anos mais velha. Pareces patética quando os teus ossos se abanam durante os teus espasmos de alegria. Cadavérica e torpe. Percebi logo isso e como tal fiquei com o resto do pacote das queijadas compradas em Sintra, só para que não atingisses uma espécie de onanismo gustativo e me fizesses passar vergonhas. Só me apetecia que chafurdasses no saco da merda dos cavalos estacionados junto ao palácio para ver se perdias aquele ar de gente feliz. Gente declaradamente feliz é deveras irritante e tu ainda mais que os outros.

Agora pareces alguém. O teu ar de freak até é uma vantagem nos dias que correm. Dantes serias uma esquisitóide, uma pseudo-agarrada marginal, uma Maria-rapaz destinada a servir-nos refeições de fast-food para a posteridade, com o óleo a escorrer das pontas dos cabelos e das pontas das unhas postiças para cima dos tabuleiros encardidos e o olhar perdido na mecânica da rotina, contando os tostões todos os meses para comprar um tablet novo lá para a Black Friday, nem que para isso começasses a fumar tabaco de enrolar como forma de travar custos. Mas agora estás bonita, aprumada, uma mulher moderna, elegante, levemente andrógina, quase que pensam que és do mundo das passerelles quando desfilas pela rua com a tua roupa que tresanda a sofisticação. Pudera, com todas as horas passadas em salões de estética, com todos os catálogos que folheias freneticamente e com todos os cremes milionários que esfregas nessas fuças é bem bom que os resultados se notem. Até tens um creme que parece sémen e que espalhas avidamente pela cara. Não pode ser sémen, julgo que a L’Oréal prima pelos seus padrões de qualidade e aquilo até cheira a aloe vera, ou a stevia, ou a qualquer planta da moda. Mas raios me partam se aquilo não parece mesmo esporra. E ainda por cima contigo tão compenetrada, de olhos cerrados, com uma expressão de gosto, a barrares aquela meita na tua tromba. Quase que me lembra quando to espeto nessa bocarra, te puxo os cabelos e te faço sentir a nulidade que sempre foste, ali mesmo no chão frio do WC e com o cão a assistir. Detesto que me arranhes com esses dentes salientes. Mas mesmo após tanta chapada ainda não conseguiste apanhar o jeito. Essas dentolas dão-me mesmo vontade de tas meter para dentro com um soco certeiro, especialmente quando chego chateado do trabalho e tu nem a porcaria duma pizza foste capaz de pensar para o jantar. Mereces todos os correctivos que te aplico. Porque lá no fundo até acho que não passas sem eles, sem a mão pesada da disciplina a controlar os teus devaneios, e definitivamente que as nódoas, arranhões e essa cara triste te atribuem o ar nobre que nunca possuíste por ti mesma. Servem para te fazer lembrar de quem és e da tua inexpressão, das tuas medonhas limitações e do teu papel de servir bem quem te tirou da rua, sua rafeira. És uma cadela e é bom que sejas uma cadela agradecida. Que isto de passar o dia a pensar no spa em que se vai no fim-de-semana é bonito, mas a tua mãe ainda está à tua espera na velha janela de sempre e está mais perto do que a ilusão do conforto te sugere. Pensa bem nisto, pensa pelo menos desta vez. Ou ainda acabas com um braço ligado num destes dias.