11 janeiro 2020

A Midwinter Night's Dream


Isabel estava desconfiada, mas mesmo assim arriscou e foi ao ginásio que havia perto de casa. Era só continuar na rua da sua casa até ao cruzamento com stop, virar à direita pelo tosco passeio em direcção à rua de prédios construídos nos anos 80, com gradeamentos de ferro outrora colorido nas sacadas, e, depois de passar a velha retrosaria da velhota com o cabelo que parecia meio roxo, à esquerda para a praceta sem saída. Cinco minutos a pé. “Instrutores simpáticos e atenciosos, bem frequentado, prevalência de mulheres assim para o entradote, boa diversidade de equipamentos, espaço amplo e higienizado”. Deu o benefício da dúvida. As suas costas precisavam mesmo que alguma coisa se fizesse.



Nos balneários, que de facto estavam cuidados, nada a apontar. Cacifos estimados e os duches sem evidentes sinais de calcário. Pouca gente, não é mau, não se passa tanta vergonha, uma aparente quarentona e uma miúda muito esguia apenas, um instrutor não demasiadamente musculado a andar de um lado para o outro cá fora, uma música ambiente optimista mas com um volume moderado, Isabel fazia cautelosamente o reconhecimento do espaço. Foi pelo corredor bem iluminado até ao fim, podia virar à esquerda para uma sala de alongamentos onde se percebia pela porta de vidro que havia uma instrutora a arrumar umas bolas e cordas, ou para a direita, para uma sala de máquinas de exercício, donde provinha uma luz natural e um som techno mexido que abafava a música ambiente. Foi para a direita, só para espreitar, porque também lhe pareceu que não estava lá ninguém. Àquelas horas, seria o mais natural. Entrou e, de facto, parecia deserto aquele salão de máquinas variadas, com pesos e sem pesos, que fazem bips ou só guincham nas juntas pela falta de óleo, sem uma atmosfera carregada de suor ainda. Porém, numa passadeira afastada, um jovem que passeava com um ritmo baixo sobre o tapete detectou as feromonas deixadas no ar por Isabel à sua entrada. Olhou-a com aquelas sobrancelhas cortadas e os lábios descaídos. Possuía um boné de pala rígida e sobredimensionado para a cabeça, com o cabelo cortado rente onde se discerniam uns tímidos desenhos a desvanecer, mas que ainda assim Isabel conseguiu perceber à distância. Uma t-shirt branca muita larga, caindo numas calças pretas desleixadas sobre uns ténis duma marca qualquer e uma argola no canto do lábio. Mas a bijuteria não se ficava por aqui; ao pescoço, um fio de prata brilhante com uma espécie de sol flamejante na ponta e, proeminentes nas orelhas, refulgindo na claridade, dois generosos vidros a imitar diamantes. O jovem olhou Isabel com um pétreo olhar fixo, mãos sobre os apoios, mantendo a passada lânguida da sua caminhada. Isabel não quereria saber disto, mas assim que ela voltou o olhar do jovem e se escondeu atrás duma fileira de máquinas de fortalecimento abdominal, o jovem sacaria do seu telemóvel e teclaria, com um sorriso malandro que por momentos revelou o seu dente lateral dourado, uns emojis e uma letras esparsas que, em discurso corrente, significaria qualquer coisa como “Mano, a dama ja eh uma beka kota, ya?, mas mano, eu ia la, ya? Mem nakela, ya? Mano, vou fikar ah porta no fim e vou fazer um kanhao para representar o ppl do bairro, ya, e kuando a kota paxar eu, tipo, ya?, vou mandar uns props e pregunto s ela ta nakela e... ya, a ver o k ela diz. Mano, a dama tava a olhar bues, mem assim n boa, ya?, kek axas?” – e esta foi a melhor tradução possível.



Pensava Isabel haver-se colocado a salvo de vislumbres indiscretos quando, detrás dumas dessas máquinas, surgiu um velhote que desafiava a boa etiqueta dos ginásios. Não só pelo seu aspecto desregrado, mas porque a própria indumentária estava longe da imagem que conservamos dum “ginásio a sério”: calças de bombazine maltrapilhas, sapatos muito desgastados, pretos mas esbranquiçados pelo pó e pelo uso, um casaco de xadrez com o pêlo notoriamente manchado, tapando parcialmente um pullover azul pejado de borbotos sobre uma camisa amarelada com os colarinhos apertados, sabe-se lá se o tom original ou se o resultado de anos de lavagem descuidada. Ao pescoço, o passe do Lisboa Viva, sustentado por uma fita vermelha e envolvido por uma capa de plástico. Cassiano Neves. Passe reformado, +65. Na mão de Cassiano, um saco opaco de plástico branco do Mini-Mercado Almeidas que parecia pouco carregado. Cassiano pareceu tão surpreendido quanto Isabel, pois abriu a boca com baba ressequida nos cantos e revelou os seus dois os três dentes ainda mais amarelos que a camisa. Isabel não se apercebera inicialmente, mas num instante reparou em algo a sair pela braguilha das calças de Cassiano: a sua pila – um falo murcho, encarquilhado, triste, sem esperança, saudoso das vetustas conquistas e dos tempos em que se punha de pé, pujante e com veias férreas, escarlate de tão excitado, em ocasiões até mais de que uma vez por dia. Agora era uma sombra de pila. O retrato duma juventude ida. O sinónimo do Outono da vida. Uma virilidade pelo cano abaixo. Um motor com vontade mas sem a força dos cavalos mortos pelo tempo. Isabel arregalou os olhos e boquiaberta não emitiu um som. Cassiano percebeu que provocara uma comoção. Sem grandes pruridos e antes que Isabel pudesse cometer alguma acção, aproveitando o choque, salientou com a sua velha mão esquerda de pele trigueira e unhas compridas e sujas o facto do seu sexo estar ali ao léu e, com uma voz dorida, tentou saber sinceramente e de forma o mais cortês possível: “A menina seria capaz de dar uma alegria a este velhote?”.



Cassiano nem sequer reparara que a reacção de Isabel não foi propriamente a de quem recebe uma surpresa agradável, ela quase instantaneamente conteve um vómito e tapou a boca com a mão à laia de quem diz “que horror!”; sempre ao contrário do que se vê nos filmes do género, onde a surpresa é sempre agradável, todos os temores iniciais desaparecem e ela se envolve com dedicação. Aí sim, os anseios dos velhotes desesperados são cumpridos e as meninas revelam-se sempre melhor que a encomenda, solícitas como deve ser. Mas Cassiano já não via bem. Cenas relacionadas com a diabetes, cataratas e anos de andar a trabalhar junto de ferro fundido, sem óculos e com as limalhas incandescentes a saltar por todo o lado. Além disso, não coloca o colírio receitado pelo tipo da farmácia, o filho do Zé Pires com a Armanda da Moita, um bom rapaz. Não consegue acertar nos olhos e depois aquilo escorre-lhe para o lavatório, para o chão e até para a boca, é uma balbúrdia. E ele não consegue evitar provar aquilo, sabe mal, parece mesmo o bagaço da tasca do Quim Tonho, ali como quem vai do campo do Luso para o antigo Manuel de Mello e vira à esquerda até meio da rua, uma pomada demoníaca que era o principal, senão único, combustível de Agenor, um preto desdentado que vivia numa casa a cair junto da estação quando calhava, porque eram mais as vezes em que se quedava no chão duma rua qualquer. Não, mais valia o vinho servido no copinho de três. Era a Celeste, a assistente social, que lhe ia pôr as gotas todas as Quartas-Feiras. Mas Cassiano não gostava dela, era bruta, assim a atirar para o gorda, já ia no terceiro filho e ainda não devia ter quarenta anos. As mamas dela eram muito espalmadas, autênticos moldes de badalos, e andava sempre com um totó que fazia sobressair as raízes escuras do seu cabelo louro. Ia lá sempre a despachar e ficava possessa quando Cassiano mijava para o chão. “Então mas você não consegue fazer pontaria? Ai meu Deus...”. Nem quinze minutos estava lá, dizia que tinha mais coisas para fazer. “Deve ser ires fumar para a esplanada, a ver se aparecem aqueles gandulos para lhes cravares uns trocos em troca dum broche, não é? Foi a ser puta que chegaste aonde chegaste, não foi? Estas gajas de hoje são todas umas putéfias...”, pensa Cassiano, mas a visualizar-se a si mesmo a dizer-lhe isto de dedo em riste, uma forte expressão de reprovação no rosto e ela quase a chorar de vergonha, com o peso da repreensão moral de Cassiano a enterrar-se profundamente no seu coração de putéfia. Vamos lá, Celeste, admite: és mesmo uma rameira. Mas não, Cassiano não consegue ser assertivo. Já não pode. Já pensar nestes termos não é mau de todo, dada a idade e o desgaste. Já muitas coisas se varreram da memória. Já não há músicas algumas que se recorde. A não ser a música do “Avante!”, que era trauteada lá nos fornos e um pouco por todo o lado. Às vezes, a passear junto à baía, detém o olhar fixo no horizonte e pensa “those were the days...”, não exactamente assim, porque Cassiano nunca se acometeu de sentimentos poéticos nem sabe a referência velada ao Archie Bunker, mas com esse mesmo suspiro de saudade implícito.



Foram bons tempos, apesar de tudo. A gente assobiava a melodia do “Avante!” às escondidas na Siderurgia, distribuía panfletos clandestinos pela Lisnave, carregava nos maços e marretas das oficinas da CP a força do proletariado unido. A fraternidade operária estava bem e recomendava-se. Resistia aos fumos dos químicos, à ferrugem das vigas dos armazéns, ao verdete das máquinas, às intoxicações provocadas pelas águas salobras, a malta aguentava. E tudo com uma fatia de pão e uma sardinha ressequida por dia. O povo sustentava-se entre si, nos casebres quase defenestrados onde famílias numerosas coabitavam com as ratazanas e outros bichos rastejantes, todos alinhados numa ruazinha que começou sem esgotos e com muita lama, miúdos todos sujos a comer do chão, gente que ficava especada a olhar para uma câmara fotográfica como se aquilo fosse uma modernice esquisita, com olhares sumidos e sulcos que eram autênticos carris para o suor naquelas caras. O futuro estava ali, contudo, nessa força inquebrantável mas humilde, assim rezava o que dizia o Bento, o Chico Varão, o Dias, o Alentejano e outros do partido, era preciso era os camaradas permanecerem unidos que um dia “o sol brilhará para todos nós”. Ah, como era bonita essa letra. Por isso Cassiano ainda a sabia de cor. Tudo gente que dava o litro e muito solidária. Havia que transformar o cansaço em alegria através do espírito de grupo. Ao fim duns decilitros de vinho carrascão, as coisas alegravam-se ainda mais. O Bento não sabe, mas o Cassiano, numa noite em que o Bento foi lá para a reunião secreta do comité e ele ficara a beber uns copos lá na rua, viu a mulher dele a passar e a acenar-lhe toda simpática. Pelo menos, foi o que pareceu a Cassiano. Era a Judite, tinha um cu que era uma maravilha. Já mantinham uma relação namoriscada há algum tempo, ela sempre lhe presenteava um sorriso quando ia servir a sopa lá na fábrica e Cassiano não era muito daquelas coisas políticas, gostava duma boa foda assim de vez em quando, como mero desinformado que era. E a Judite também, que isto de ter o marido a pensar mais na liberdade e no fim da opressão burguesa também lhe secava os fluidos. Tapou-lhe a boca para não se ouvir nada e ela levantou o vestido meio em farrapos, revelando uma vulva com níveis estéticos muito saudáveis para uma mulher proletária. E foi avante, camarada, avante. Mesmo assim, Juca, o filho deles, ainda acordou, aquelas paredes pareciam papel, “Mãe, está aí?” e o Cassiano saltou pela janela fora, assustou um gato, o cão ladrou, ai c’um caraças!, o Cassiano vai ser apanhado literalmente com as calças na mão. Em pânico, escapou-se para a escuridão, ainda derrubou um caixote e ficou à espera. Ao fim duns segundos, saiu do seu enconderijo, pensando estar tudo controlado, mas na penumbra deu de caras com a irmã mais nova da Judite, a Ilda. “És tu, Cassiano? Olha para esse estado!”. E ele veio com algumas desculpas, notava-se o cheiro a álcool e Ilda condescendeu e até achou graça. Passado não muito tempo, Cassiano comeu a Ilda também. A Ilda depois casou-se com o Alentejano, que por sua vez andava a comer a irmã do Bento até esta apanhar uma coisa esquisita que lhe deixou toda amarela e bexigosa. Nessa altura, o Alentejano borrifou-se nela e arrastou a asa para a Ilda. E faziam um bom casal, embora lhes calhasse o azar de terem tido dois filhos atrasados mentais. Cassiano também gostava da sua Elisabete, a esposa legítima, fora-lhe recomendada pelo Dias, primo de Elisabete, ambos vindos de Vendas Novas, e que também era seu vizinho e casado com a Aidinha, prima de Judite e Ilda, que tinha um braço mais curto que o outro e que por isso estava dispensada de trabalhos mais pesados e era a ama principal da Verderena. Tudo bem que Cassiano dava as suas facadinhas no matrimónio, mas Elisabete trabalhava bem, cozinhava melhor e não perguntava muito. Tal e qual como o Dias tinha prometido. Era tudo gente muito próxima, está bom de ver.



Esta alegria teve o seu zénite no 25 de Abril, ena pá, aquilo é que foi festa. Quando lhe perguntam onde estava no 25 de Abril, Cassiano diz que estava na fábrica até virem o Bento e os outros aos pulos, agitados, a dizer que naquele dia não se trabalhava mais. “O fassista do Caetano está preso”! Mas isso era apenas parte da história. A seguir a ter saído prematuramente da fábrica, Cassiano foi dar a última foda na Judite. É claro que ele não sabia que era a última nem percebeu o augúrio que daí adviria. Toda a gente esteve eufórica durante umas semanas, muito ocupada em plenários, comissões e manifestações, pintavam-se murais e faixas, uns citavam a China, outros a URSS, aqueloutros a RDA e o Chico Varão derretia-se todo pelo heróico povo da Albânia. O pior foi depois, quando o ordenado deixou de pingar. O patrão tinha fugido para o Brasil com a Maria de Lourdes, uma loura nortenha que andava sempre atrás do chefe com papéis e malas. Era ela que tratava de tudo, na prática. Foi mais a fuga dela que pesou, já não havia ninguém para passar os cheques e era ela que tinha as chaves do cofre. Nem cem escudos encontraram nas gavetas do escritório em pantanas. A malta ao princípio ainda formou uns piquetes onde se jogava maravilhosamente à sueca, mas depois começou a gerar-se alguma inquietação e até zanga. Desataram a aparecer uns pretos e uns retornados à procura de trabalho e a solidariedade começou a esfumar-se. Veio esta gente de fora e a malta de cá continua com fome, não pode ser. Do ambiente fraternal entre os camaradas, passou-se a desconfiar do burguês escondido em cada um. O acelerador da mudança estava a fundo. O Bento passou a usar gravata e mudou-se para Lisboa. O Chico Varão foi preso. O Dias desapareceu por uns tempos, depois soube-se que foi para a França onde estavam uns tios. E o Cassiano parado na fábrica agora fria e despojada até que um dia deixou simplesmente de aparecer. E ninguém se importou.



Acabou por se juntar a Elisabete na padaria que esta tinha em Sto. António da Charneca. Podia ter sido pior. Ganhavam razoavelmente, embora isso lhes custasse o sossego de todas as noites e um certo aconchego conjugal. Ainda assim, davam-se bem. Fodiam pelo menos uma vez por semana, pelo menos até ele fazer 40 anos. Depois disso, já não sabe. Foi a hipertensão, vesícula, o reumatixo, as cruzes, as varizes, tudo de enfiada em ambos, com a falta de tesão de permeio nele. De vez em quando, o cu da Judite atravessava-lhe a mente quando fechava os olhos, depois abria-os e dava de caras com uma Elisabete esforçada e coberta de farinha, mãos na massa e um bigode a brotar nas faces luzidias e rosadas, que lhe alertava “Tens de tirar os papo-secos do forno!”. A especialidade da casa eram as bolas de manteiga, que abasteciam as principais pastelarias do Barreiro até a Moderna começar a ter produção própria. Mas também se safavam com a padaria convencional e forneciam umas quantas carrinhas de transporte que iam até Azeitão ou a Pegões, se fosse preciso. Não tinham filhos. Elisabete tinha um problema nos ovários, já desde os vinte e tal anos, tomava comprimidos para as dores. Cassiano também não se importou com a falta de descendência, sobrava mais para o vinho, embora os medicamentos consumissem muito do orçamento. Depois houve um dia em que Elisabete cuspiu sangue inadvertidamente sobre a massa do brioche e os clientes reclamaram muito da “massa com cor de cereja mas que sabia a ferro”. Foram outra vez à farmácia do filho do Zé Pires com a Armanda da Moita e este deu-lhe uns comprimidos e duas cápsulas para tomar a seguir às refeições. Isto numa Sexta-Feira. Passou-se o fim-de-semana e na Segunda-Feira, quando o Cassiano foi pegar ao serviço, Elisabete estava esticada no chão da padaria sobre um tabuleiro de pão acabado de cozer com o cão a lamber-lhe a cara e o rabo a abanar. Cassiano ainda duvidou, mas quando o cão parou de abanar a cauda e o fixou com aqueles globos negros, soltando um tímido ganido, Cassiano percebeu claramente a mensagem que o cão lhe transmitira. Os cães não enganam a gente.



Como Cassiano não percebia basicamente nada de padaria, o negócio foi trespassado. Ainda convidaram Cassiano para ajudante mas ele declinou. Já não era um local que lhe proporcionasse boas memórias. Deambulando pelos cafés da extensa Avenida Bocage e suas transversais, foi procurando derreter essa  memória impregnada de dor e solidão em ralis de copos e garrafas, embaciando cada vez mais o olhar e envelhecendo muitos anos numa matéria de meses, convivendo com Agenor e outros sub-humanos decrépitos entre o lixo acumulado fora dos caixotes em dias que se tornavam noites e depois dias outra vez. Conservara o cão, que, sempre sensato, parecia olhá-lo com pena quando Cassiano ficava sobre a cama um dia inteiro, todo mijado, as moscas na sua boca aberta, um crucifixo torto sobre a cómoda empoeirada, onde uma velha fotografia a preto-e-branco duma Elisabete jovem e sorridente repousava. Um verdadeiro compincha para qualquer vagabundo que se preze, este cão, que era o único que ainda o acompanhava. Um dia, o Chico Varão, já mais refeito na vida, encontrou o Cassiano a tropeçar numas pedra soltas da calçada e deu-lhe um abraço. Disse que andava na Câmara e que se calhar precisavam duns almeidas, assim uns gajos que varressem, trabalhassem com pás e essas coisas. Aquilo era emprego para a vida. E assim foi. Quer dizer, o Chico Varão reformou-se logo aos 45 e moveu as suas influências para que o pessoal amigo também fosse. Ainda assim, o Cassiano teve de esperar até aos 51 anos. Foram alguns anos sempre no sujo, à chuva e ao sol. As gentes foram mudando, começaram a ser mais ensimesmadas e já ninguém dizia bom dia a ninguém. Os miúdos foram crescendo mal-educados. Varria muitas seringas do chão, deu de caras com dois putos roxos com um garrote no braço e a babarem-se nas traseiras duma arrecadação junto do bairro dos ciganos, tentaram roubar-lhe algumas vezes e até levou porrada duns putos bêbados à noite. Mas também encontrou muito material ainda em condições abandonado nos caixotes, até bons brinquedos para cão, carteiras com algum dinheiro e outros pertences com valor. Portanto, tudo se compensava. E era uma reforma razoável, dava para os comprimidos e para o essencial. Isto é, o álcool e a ração para o cão. Que isto de restos sempre disseram que não são uma alimentação correcta.




Mas isto de reforma não é um mar de rosas, não se pense assim. É uma sucessão de minutos e horas que tardam a passar e que se acumulam ao ritmo irritante do tic-tac do velhíssimo relógio da sala. Não há um objectivo em mente. A mente confunde-se. Os copos somam-se vazios sobre o balcão. A cabeça pesa. Nada parece fazer sentido, desde as vozes na televisão aos carros que passam na rua. As pessoas são apenas montes de carne e ossos, anónimas. Onde se escondeu a alegria? A esperança no amanhã? A sociedade de que o Bento falava todo entusiasmado? O Bento está aí, nas páginas dos jornais que Cassiano já não consegue ler. Nem é pelo problema dos olhos, e o filho do Zé Pires com a Armanda da Moita bem lhe disse para andar sempre com os óculos, é mesmo por não ter paciência nem capacidade de perceber o que se anda a passar. Oh Judite, Judite, o teu cu é tudo o que me lembro e aquela noite em conheci a tua irmã, Judite, foi quando me senti mesmo vivo. Quando o coração acelerou, quando tinha um propósito e uma excitação que agora, Judite, não encontro em lado algum, pensou Cassiano com as mãos na cabeça sobre um banco na praceta em frente ao ginásio. Onde gente jovem e asseada vem exibir o seu glamoroso físico, juventude vaidosa e petulante, pobres desvairados que ainda não perceberam que, tal como a praceta, a vida não tem saída. Nem ele percebia como se poderia retirar prazer a correr por gosto, a esforçar-se por carregar pesados fardos de ferro com empenho, a testar voluntariamente os limites do cansaço. E dizem que ainda pagam, nem sequer têm um patrão a chicotear-lhes com um frígido olhar autoritário. Onde viemos parar, afinal? Cassiano sentiu-se enganado. Traído pelo destino. Que mal fizera ele?, questionava mudo, tentando compreender minimamente o porquê das coisas. Mas não por muito tempo. A cabeça doía-lhe, os olhos ardiam, os ossos fraquejavam. Das duas uma, ou faltava álcool ou faltava a dose de comprimidos. Era tudo muito confuso, muitas coisas para prestar atenção. Carros a apitar e telemóveis a vibrar por todo o lado. E Cassiano, trôpego, entrou dentro do ginásio sem perceber porquê, como nunca compreendeu bem as coisas durante a vida. A clarividência nunca fora o seu forte, já percebemos isso: até tinha os comprimidos e um litro de cerveja no saco que levava na mão direita e não dera conta disso.



***



Isabel não voltou mais ao ginásio, claro. É que nem pensar. Saiu dali a correr, encontrou o instrutor, a instrutora veio logo a seguir e ambos ficaram a tratar do Cassiano, que andava ali de pila à mostra por entre as máquinas. Empurraram-no cá para fora, o instrutor meio a contra-gosto e com algum nojo recolheu o sexo de Cassiano para dentro das calças e ameaçou chamar a polícia caso a situação se voltasse a repetir. “Ah, isso é que não! Vamos chamar a polícia de qualquer forma! Velho tarado, ainda se atira a uma criança e depois como é? Vamos é reportar a situação!”, insurgiu-se a instrutora, quase com os lábios a tremer. “Achas mesmo?”, duvidou o instrutor: “O velho ‘tá bêbado, não é dessas coisas...”. “Não, não, não! É que é já!”, replicou ela, sacando do telemóvel. “Eu... eu não quero problemas...”, balbuciou Cassiano, tonto, cambaleando para fora dali, mão esticada em sinal de paz. “Ai, que merda, ‘tou sem bateria! Ó Gonçalo, liga tu para a polícia!”. Mas Cassiano já lá ia aos poucos no fim da praceta, aos encontrões nos carros estacionados e Gonçalo, preguiçoso, respondeu “Oh Carla, deixa lá estar, vamos mas é arrumar o equipamento que daqui a pouco a gente começa a chegar. Mais vale nem falar disto que é para não dar má reputação ao ginásio... Já viste o que é se começarem a dizer que andam tarados à solta por aqui? Não era bom, pois não?”. Carla conformou-se. Gonçalo tinha sempre uma forma calma de fazer valer os seus pontos de vista. Ao contrário do seu namorado, um franganote destravado que facilmente elevava o tom de voz quando se juntava com os parceiros de tuning ali na mata de Coina, embora essa rudeza até fosse sensual. E era realmente melhor irem tratar das coisas. Mas ainda guardava alguma raiva interior dentro de si. Gonçalo gostava daquele nervo, daquelas explosões femininas. A sua namorada era uma princesinha com notória falta de sal e muitas horas a ver vídeos de animais e de como arranjar pestanas na net. Só gostava de foder por cima dele e no mesmo lugar na cama e nunca às Terças e Quintas-Feiras, que eram os dias do yoga. E nos dias do yoga a tranquilidade deve ser total e primordial, até sobre o sexo. “Olha lá”, disse Carla, maliciosamente, “foi engraçado ver-te a mexer na gaita do velho...”. E Gonçalo, “Eh pá, isso não sai daqui! Só o fiz porque... porque foi a situação que foi, só isso! Eu só mexo na minha!”, e sorriu. Ambos reentraram no ginásio muito cúmplices e divertidos. Por isso, não admirou que quando a sala começou a ficar composta, os utentes tivessem ficado desagradados com um certo desleixo organizativo, que até aí nunca se havia manifestado: é que Gonçalo e Carla foram dar uma rapidinha à arrecadação e até se esqueceram dos deveres.



Portanto, se Isabel queria resolver o seu problema teria de arranjar outra solução. Os outros ginásios eram longe e mais caros, porém. Ficava mais barato arranjar daquelas bolas gigantes e experimentar em casa. Na sala dava, bastava desviar um pouco os móveis. E ainda dava para ficar junto à televisão, para distrair durante o exercício diário a que se iria comprometer a cumprir. Mas não era fácil. Não só a ginástica entediava-lhe, por muito benéfica que fosse, como a própria televisão só passava coisas deploráveis. Especialmente à tarde. Por incrível que parecesse, os programas vespertinos das televisões generalistas nem eram dos piores. É que ainda ia lá um convidado maluco que metia toda a gente a rir ou um artista musical qualquer, que por muito rudimentar que fosse o seu som, sempre era música que ajudava a passar o tempo. Ainda assim, havia sempre uma parte substancial dedicada às desgraças, desastres por todo o lado, a tragédia banalizada. Sempre em cima do acontecimento, por todo o lado, a televisão transmitia a miséria para gente comodamente instalada nos seus sofás assépticos. Agora ali tão perto da Isabel: uma tentativa de assalto a uma casa térrea perto do parque industrial da Quimiparque redundara na detenção de um jovem delinquente, com a fuga de outros dois, segundo testemunhas oculares. Isabel parou de esticar os braços e olhou por instantes para o televisor: estava um cão com ar abandonado e de aspecto muito inteligente a fitar a câmara junto à porta da casa, já com uma faixa da polícia para vedar a entrada de estranhos. E o jovem tinha um boné sobredimensionado, uns brilhantes muito espampanantes nas orelhas e qualquer coisa pendurada no pescoço, deu para perceber mesmo com a câmara aos quadrados sobre a cara dele enquanto era encaminhado pelos agentes para o carro. O jornalista ia referir qualquer coisa sobre o residente da habitação, um aparente septuagenário que vivia sozinho, isto é, descontando o cão, de acordo com os vizinhos. Mas Isabel suspirou e fez zapping nesse instante, procurando alguma música que só encontrou ao cabo de alguma busca num canal africano. E retomou o extenuante e obrigatório exercício, que até aí não se traduzira em melhorias evidentes para as suas costas, com a companhia de duas pretas a abanar os seus cus gigantescos e um preto com notórios problemas nas articulações e na dicção.

21 novembro 2019

Cipreste


Eu morri num dia de chuva. O meu funeral foi numa tarde chuvosa.



Havia quem dissesse “já fazia falta uma chuvinha assim” e havia quem, imbuído dum espírito literário, assinalasse o poético da situação. A pergunta que mais se repetia era “como ele morreu?”. Bem, eu morri a viver. Já tinha vivido muitos tempos mortos, mas isto não foi bem a mesma coisa. Desta vez eu morri mesmo. Posso morrer de várias formas. Como lançar o dado e calhar na casa do Inferno: “ena pá, morri!”, exclamei. E a gente à minha volta, “pois foi!”, olhando meio perplexa para mim. Afinal, morrera e ainda há instantes estava ali a disputar a Glória com eles. Eles, lá no fundo, ficaram muito aliviados por não terem sido eles a quem o azar bateu à porta. Nem sequer houve muita consternação. Isto não passa de um jogo, não é? Entre uma palmadinha nas minhas costas a pender para o rigor mortis, desvalorizaram a situação, “ah, a gente volta a jogar outra vez, deixa estar isso…”. “Não”, expliquei-lhes, “desta vez eu morri mesmo. Tive um azar do caraças. Isto acabou de vez”. E eles lá se aperceberam da gravidade. Houve expressões faciais algo consternadas por momentos, envoltas num silêncio encavacado. Mas depois alguém chegou finalmente à Glória e logo as atenções que estavam concentradas no meu infortúnio de súbito divergiram para nunca mais convergirem. Se a vida foi efémera, a minha recordação será ainda mais. Daqui a pouco tempo, sobrepor-se-á pó fresco sobre o meu pó e todos formaremos um monte de pó indistinguível que albergará insectos e vermes, será urinado por crianças e idosos e dissipado pelo vento, tratado como entulho e apagado duma memória com muito poucos bytes disponíveis para albergar minudências como eu.



Os bytes são preciosos, são a água que permite e alimenta a nossa existência nestes tempos em que passamos os dias com a cabeça na cloud. O que é muito diferente de andar com a cabeça nas nuvens mas por vezes parece igual. Neste sentido, também posso ter morrido duma forma modernaça. Jogando um daqueles jogos de consolas. Online, com putos e nerds não tão jovens de todo o mundo, numa rede de soldados desconhecidos sem direito a estátua. A morte veio pelo ecrã. Anunciada com um garrafal “GAME OVER” em tons vermelhos e desta vez sem direito a continuação. As vidas infinitas eram um mito. Devia ter sabido disto, não era um subscritor e fiz um download ilegal. Portanto, foi um castigo merecido pela minha veia de pirata e pela minha imperícia em manusear a arma num teatro de guerra urbana em 3D. Dizem que foi o “user39240675” a matar-me à traição, o “polarbear_345” jura que foi a “urbanWWWitch” que me surpreendeu, o “Yevgeni8SSok” escreveu no chat que “he blown his grenade”, mas a maioria nem notou. Pensavam que eu estaria lá na noite seguinte, mas eu faleci sobre o tapete da sala e não voltei a ligar-me à rede. Passaram à frente. O “no_nick_6969696969” foi alinhado para a equipa e revelou-se melhor que eu. O meu perfil, porém, eternizou-se na rede. De quando em vez, umas mensagens pingam na minha área, oferecendo serviços, apresentando novidades ou convidando-me de volta para a minha vida guerreira. Revelei-lhes, “I’m dead, folks”, mas as reacções foram díspares. Houve quem soltasse um “lol”, certamente um fã de humor negro; houve quem digitasse “wtf?” e depois muitos despejaram bonequinhos amarelos com faces diversificadas, alguns mexiam-se mas outros não, eram estáticos como eu ficara. O meu cunho ficou para sempre marcado na rede. Mesmo morto, valho bytes. Valho algum cêntimo de bitcoin para alguém ou alguma coisa. Mesmo que ninguém queira saber da minha cara, dos meus desejos ou dos meus medos, sabem que ainda ocupo o mesmo espaço dos vivos. Um espaçozinho virtual, vá, proporcionalmente mais exíguo que a campa onde fisicamente o meu corpo agora apodrece.



Ou simplesmente morri porque assim teve de ser. Por causa de alguma anomalia física, um acidente infeliz ou porque assim quis. Na verdade, morremos todos os dias um bocadinho. Eu simplesmente adiantei etapas ou apenas deixei o prazo expirar até algum órgão vital falhar. Agora parecem-me exagerados os muitos momentos em que desejei que este dia viesse, consumido pelas angústias e desilusões dos muitos dias em que chafurdei no meu próprio desespero. Se calhar não valia a pena a preocupação. Provavelmente, não aproveitei o que devia. Havia sempre tempo a mais e agora já não há tempo para mais. Não foi por falta de aviso, mas havia sempre aquela esperança parva no amanhã. Um amanhã radioso que tardava a aparecer. Agora não há mais dados para girar ou créditos suplementares. Nem sequer há a hipótese de me arrepender do desperdício, de me libertar dos pequenos ódios que me depauperaram as energias, de cumprir com velhas promessas ou de realizar os inevitáveis sonhos adiados. Já não se pode adiar mais. É fisicamente impossível e não me passa nada pela cabeça, nem sequer um leve zumbido indicando que a transmissão acabou. Entre mim e uma pedra tosca não há grandes diferenças. Daqui a pouco, a decomposição trará um forte odor. Eu tenho de ser despachado e enclausurado num lugar longe da vista para sempre. E longe da vista é longe do coração. Vou desvanecer das memórias de toda a gente.



Perguntam-me, “e como é a morte?”. É como entrar num sono eterno. Nem damos conta. Sabem aquelas coisas dos anjos ? É treta. Quando fechas os olhos vês uma luz forte que te encandeia de tal forma que tudo fica escuro. Só isso. É tudo vazio. É a definição do vazio. E eu que tanto queria revisitar os meus adorados animais de estimação no além, de novo joviais a pularem com alegria de nuvem em nuvem perante a bonomia de Gabriel e Deus, de sentir a frescura terna do seu olhar, que queria abraçar os meus pais de novo, roído de saudades e com eles reviver a nostalgia dos bons velhos tempos, de me levarem ao colo e de me protegerem enquanto crescia, acolher os meus amigos que ficaram mais uns tempos na vida terrena e depois rir-me à gargalhada num espírito de união e camaradagem que só com eles atingi, mas aqui não há vida. Não há nada. Não há ninguém. Venderam-me uma ideia errada. Não sei para onde eles foram. Quando eles foram, foram para outro lado qualquer. O além é um buraco negro, um vácuo perfeito. Não há céu nem inferno, tampouco purgatório ou paraíso, nada. Nem prémios para os bons ou castigos para os maus. É tudo assim-assim, de forma severa. Livre de quaisquer amarras e ao mesmo tempo preso num lugar inóspito, de tão desolado. Sem doenças mas também sem paixões. Não sentes nada, não vês nada, cessas de ser. Tão só isto. Não há nada de formidável nem miraculoso.



Eu sei, é uma desilusão. As pessoas esperavam mais. Os árabes esperavam virgens, coitados. Os cristãos esperavam a redenção, pobrezitos. Os hindus esperariam o quê?, uma ovelha mágica de 8 patas e quatro braços? E os budistas, um mar de incenso e silêncio? Bem, estes se calhar não irão estranhar muito as coisas. Enquanto o meu caixão descia para uma cova enlameada, uma ligeira brisa apagou as trémulas velas e dobrou as flores murchas e as de plástico, mas os ciprestes permaneceram estáticos na sua frondosidade elegante. Fotos envelhecidas observavam das campas contíguas e bolorentas o seu novo companheiro. O coveiro foi tão profissional quanto podia ser, indiferente a tudo. Umas últimas lágrimas caíram das faces dos poucos presentes e um raminho de crisântemos foi atirado para cima de mim, com uma dedicatória para “descansar em paz”. Como se pudesse ser doutra forma. “Ainda tão novo...”. De facto, sou um cadáver enxuto. Os organismos sob a terra irão deliciar-se comigo, até com o fato que me vestiram. Era uma pena cremarem um defunto assim tão belo. E também era mais caro. Admito que tenham usado um fato velho para entrar decentemente nesta etapa, senão seria um gasto totalmente inútil. Seria literalmente dinheiro atirado para um poço sem fundo. A gente não diz que a morte chega tarde. Passamos a vida atrasados para tudo e depois a morte chega sempre mais cedo. E este horário não pode ser ignorado.



Qual o sentido disto tudo, afinal? Viver serve para quê, afinal?  Não sei, ninguém sabe, ninguém pode saber e de qualquer forma isto já não é para mim. Estas perguntas são aborrecidas e as respostas nunca convencem. A minha viagem termina aqui. Obrigado por tudo e desculpem qualquer coisinha. Se vos fiz alguma coisa mal foi por pensar que de alguma forma isso seria bom para a minha vida. Acontece a todos. Mas já não dou mais para o peditório das chatices. Fica para vocês que estão aí à chuva e que esperam que o sol venha em breve. A dúvida é agora um exclusivo vosso.

26 junho 2018

Christy Turlington


Se te perguntarem porque ficaste com o olho assim, diz que foi a cair das escadas. É o que se costuma dizer. Ninguém vai levantar mais questões. É muito natural, uma mulher a cair nas escadas. É por causa dos sacos e das malas, atrapalham e desequilibram. Já todos sabemos o que isso é e na azáfama metropolitana os riscos adensam-se. E depois as mulheres ainda têm o handicap dos saltos. Basta um pequeno toque por um miúdo mais arisco e pumba, lá vai a mulher pelas escadas abaixo. Mais um lamentável acidente, coisas que acontecem. As compras todas espalhadas. Os talões todos a esvoaçar. As chaves com os cartõezinhos de descontos a resvalarem para a sarjeta. As velhotas que ficam paradas de boca aberta e o resto da gente que te ajuda a levantar, mais a cigana que ia a passar e que te levou as calças pretas da Guess e o estojo de beleza. Desta vez para consumo próprio. O telemóvel super-slim que só não partiu o ecrã agora porque já estava partido. Noutra queda parecida. Agora vai surgir apenas mais uma mancha esbranquiçada num dos cantos e a tampa traseira já não fechará bem. Mas ainda funciona. Menos mal.

É como viver num T1 na zona chique. Podia ser melhor. Podias não ter de estender roupa no teu próprio quarto. Nem ter a bicicleta em cima do armário da louça, ali a tapar a televisão, que por sua vez ainda toca no sofá. E o raio do cão stressa com laivos de claustrofobia, rasga os cortinados, destrói os tapetes, desarruma tudo o que encontra. Pensa que depois um focinho alegre e uma cauda oscilante com que te recebe é tudo o necessário para uma festinha, um pratinho de Friskies e uma voltinha ao quarteirão. Mas vai ter o castigo de te ter posto a casa de pantanas e de te deixado uma poça de mijo junto ao frigorífico. Não há voltinhas hoje. Fica para aí a destruir o resto, a largar o pêlo para cima da cesta de fruta ao lado do chaveiro, a roer o comando da televisão, a destratar qualquer calçado que apanhes. A Bimby está segura, ali aconchegada sob o edredão por cima da máquina de lavar roupa. A essa o cão não deita o dente, está demasiado gordo para saltar tão alto. Mas podia ser pior. Ainda podias estar nos arrabaldes e perderes mais de uma hora para chegares ao trabalho em estradas cheias de buracos e tampinhas de esgoto e sabes lá que mais, enquadrada na romaria duma multidão indistinta, cinzenta e abúlica. Aqui não; há arruamentos ajardinados, gente fluorescente a fazer running pela manhã e jovens urbanos inseparáveis dos seus gadgets. A luz aqui brilha com outra intensidade e o vento pede licença antes de soprar nos cabelos. E ainda vês muita gente interessante nas imediações. Como aquela que entrava na telenovela e que fazia de má. Vai sempre ao mesmo café pela manhã e pede um descafeinado e uma torrada de pão integral com geleia em vez de manteiga. Quem diria, é uma jóia de pessoa. O Sr. Joaquim já nem precisa de ouvir nada, vê a senhora, sorri e passados uns momentos vai servi-la diligentemente. Ou seria a gaja do telejornal da tarde? Não sei, são todas iguais e saem todas na mesma revista. Até o ex-marido é o mesmo.

Não queres regressar a esses tempos sombrios que procuras libertar da tua memória. Quando tinhas os dentes todos tortos, amarelados por causa dos Chesterfield que fumavas e que te conferiam um aspecto toxicómano, ainda para mais com as companhias que andavas. Era a Lena, uma preta gorda e vesga que andava de suspensórios, e a Solange, uma loura falsa com as orelhas cravejadas de metal e um rabo que pedia meças aos amortecedores dos comboios, sempre rodeadas dos manos lá do bairro e dos seus Peugeots 306 de vidros fumados, qual deles com o cap mais estiloso. Eram a Naomi Campbell e a Linda Evangelista de Marvila. E tu a Christy Turlington, com essa cremalheira toda saída e um nariz esguio sobre lábios que pareciam inchados, corpo de extraterrestre com um olhar avermelhado, porém sereno. Ou apenas ganzado. Quando te rias à gargalhada, os teus dentes sobressaíam como vidro sob sol estival e parecia que se queriam atirar ao rio desde aquelas ruelas empedradas e empoeiradas que desciam a pique nas traseiras dos armazéns abandonados. A tua mãe já sabia que estavas a chegar a casa quando percebia o reflexo da tua dentição desde a janela, ainda vinhas tu a chegar ao Poço do Bispo pelo mesmo trajecto do 28. A tua mãe sempre te esperava à janela, sempre de bibe florido, sempre com o desalento enterrado nos sulcos da sua cara desgastada, sempre suspirando a sua esperança com a cabeça apoiada nas mãos, sempre com o vetusto estendal com as mesmas camisas negras e toalhas de renda branca a balouçarem sob o parapeito, sempre com o cabelo grisalho apanhado num totó e um bigode cada vez mais indisfarçável. A velha nunca teve outra cara, outra postura. A velha nasceu velha. “Ai Cristina, olha para esse estado…”, queixava-se ela, com os olhos muito engelhados a humedecerem-se, mal mexendo as suas pernas pejadas de monstruosas varizes e com meias de descanso, em velhos chinelos oferecidos pelo Júlio Isidro no seu programa do Natal de 1987; depois, sentava-se num banquinho mocho muito tosco e amargurava-se sozinha, muito dobrada sobre a mesa, enquanto tu ias fumar a ganza que o Leandro te enrolara para o teu quarto. Era uma divisão simples, estreita mas com um pé direito enorme, com o estuque praticamente todo destituído das paredes e uma janela de madeira de vidros meio baços que dava para a rua principal, para outro prédio semelhante, desbotado e sujo. Ficavas a ver o fumo a acumular-se junto ao tecto, por onde se escapava por uma fenda. E depois punhas a Rádio Cidade a tocar no velho rádio-despertador com um fio de plástico a servir de antena, que atavas na bolinha da cabeceira da tua guinchante cama de ferro. Metias a brasileirada no volume máximo só para não teres de aturar o pranto da velha.

Se calhar as coisas poderiam ter sido diferentes se o teu pai tivesse sido uma figura presente. Nem sabes ao certo o nome dele. Começava por “A”. Tanto podia ser Abel como Abrenúncio. A tua mãe nunca falou muito dele. Dele conservaste uma velha boneca que ele supostamente te ofereceu e que jazia numa velha cadeira lá no canto dum quarto abandonado, subjugada ao pó e ao mofo. Nunca gostaste muito de bonecas mas também nunca quiseste livrar-te definitivamente dela. Talvez por ser o único brinquedo que resistiu à tua infância, mesmo que tal só tenha sucedido porque não gostavas de brincar com ela. Estranha nostalgia. Havia uma velha foto dele de cores muito fugidias em cima do aparador, por cima dum naperon muito rendilhado, dum branco muito fosco, quase amarelo. Dava-lhe um aspecto tétrico, mesmo considerando o sorriso pacato dele e o comb-over na cabeça típico dum homem não muito dotado pela Natureza e em clara negação de meia-idade. Parecia respeitável, embora sinistro, como um fantasma anónimo em forma de bibelot. Um dia, por desleixo, tirou-se o naperon e a moldura veio atrás, estilhaçando-se no chão. O sorriso dele ficou cheio de pequenos vidros em cima e a tua mãe decidiu nesse momento retirar aquela fotografia de circulação. Nunca mais o viste nem sabes onde a tua mãe guardou a foto. Se é que a guardou. Ela disse-te que ele já morreu há tempos. Já to dizia há anos. Quase que parece que ele faleceu imediatamente a seguir a fecundar a tua mãe. Imaginas ele a acabar de se vir e a tombar morto sobre ela, que a custo o mandou junto com os restos de comida para os gatos pela porta fora. Não há nada de muito relevante a contar dele. Não sabes o que fazia. Não sabes o que não fazia. Somente que ele bebia muito. O teu irmão herdou esses hábitos. Esses e outros. Quando te vi pela primeira vez, estavas a chorar quando a polícia foi à tua casa levar o teu irmão algemado. A tua mãe reagiu com a corriqueira tristeza de quem já vira a mesma situação várias vezes. E foi aqui que me prendeste a atenção. Tinhas um choro muito bonito. Eras muito bonita quando sofrias. Quando as lágrimas desciam as maçãs salientes do teu rosto como um glaciar salgado de melancolia e ficavas ali, indefesa, impotente, frágil como os teus próprios braços.

Não foi propriamente difícil convencer-te. Diria até que os putos de hoje em dia estão bem avisados e que já não entrariam no meu carro com tanta facilidade. Mas o meu carro era um BM. Logo vi que não irias resistir. Levei-te pelo IC19 fora, ficaste encantada com uma via rápida de 3 faixas, as placas reflectoras para Massamá e Rio de Mouro, esses nomes tão exóticos que desconhecias, a quantidade de prédios a fazerem cócegas uns aos outros, maravilha, pensaste tu, que paredes tão direitinhas, que urbanismo tão fervoroso, tanto betão robusto que contrastava com a fraca alvenaria da tua casa, admirável mundo novo aqui tão perto. Via-se a tua felicidade a léguas e não era só pelo reflexo das tuas enormes favolas saídas, era mesmo algo genuíno que exalava de ti. Mas tu nunca foste muito boa a lidar com a felicidade. Tens de recebê-la em doses moderadas. Doutra forma ficas parva, deslumbrada, com uma expressão imbecil, tornas-te francamente exasperante. Até confrangedora. O teu gargalhar parece o barulho de gralhas roucas. Quando esticas os cantos da tua enorme boca, crias uma vaga de rugas na tua tromba que te torna dez anos mais velha. Pareces patética quando os teus ossos se abanam durante os teus espasmos de alegria. Cadavérica e torpe. Percebi logo isso e como tal fiquei com o resto do pacote das queijadas compradas em Sintra, só para que não atingisses uma espécie de onanismo gustativo e me fizesses passar vergonhas. Só me apetecia que chafurdasses no saco da merda dos cavalos estacionados junto ao palácio para ver se perdias aquele ar de gente feliz. Gente declaradamente feliz é deveras irritante e tu ainda mais que os outros.

Agora pareces alguém. O teu ar de freak até é uma vantagem nos dias que correm. Dantes serias uma esquisitóide, uma pseudo-agarrada marginal, uma Maria-rapaz destinada a servir-nos refeições de fast-food para a posteridade, com o óleo a escorrer das pontas dos cabelos e das pontas das unhas postiças para cima dos tabuleiros encardidos e o olhar perdido na mecânica da rotina, contando os tostões todos os meses para comprar um tablet novo lá para a Black Friday, nem que para isso começasses a fumar tabaco de enrolar como forma de travar custos. Mas agora estás bonita, aprumada, uma mulher moderna, elegante, levemente andrógina, quase que pensam que és do mundo das passerelles quando desfilas pela rua com a tua roupa que tresanda a sofisticação. Pudera, com todas as horas passadas em salões de estética, com todos os catálogos que folheias freneticamente e com todos os cremes milionários que esfregas nessas fuças é bem bom que os resultados se notem. Até tens um creme que parece sémen e que espalhas avidamente pela cara. Não pode ser sémen, julgo que a L’Oréal prima pelos seus padrões de qualidade e aquilo até cheira a aloe vera, ou a stevia, ou a qualquer planta da moda. Mas raios me partam se aquilo não parece mesmo esporra. E ainda por cima contigo tão compenetrada, de olhos cerrados, com uma expressão de gosto, a barrares aquela meita na tua tromba. Quase que me lembra quando to espeto nessa bocarra, te puxo os cabelos e te faço sentir a nulidade que sempre foste, ali mesmo no chão frio do WC e com o cão a assistir. Detesto que me arranhes com esses dentes salientes. Mas mesmo após tanta chapada ainda não conseguiste apanhar o jeito. Essas dentolas dão-me mesmo vontade de tas meter para dentro com um soco certeiro, especialmente quando chego chateado do trabalho e tu nem a porcaria duma pizza foste capaz de pensar para o jantar. Mereces todos os correctivos que te aplico. Porque lá no fundo até acho que não passas sem eles, sem a mão pesada da disciplina a controlar os teus devaneios, e definitivamente que as nódoas, arranhões e essa cara triste te atribuem o ar nobre que nunca possuíste por ti mesma. Servem para te fazer lembrar de quem és e da tua inexpressão, das tuas medonhas limitações e do teu papel de servir bem quem te tirou da rua, sua rafeira. És uma cadela e é bom que sejas uma cadela agradecida. Que isto de passar o dia a pensar no spa em que se vai no fim-de-semana é bonito, mas a tua mãe ainda está à tua espera na velha janela de sempre e está mais perto do que a ilusão do conforto te sugere. Pensa bem nisto, pensa pelo menos desta vez. Ou ainda acabas com um braço ligado num destes dias.

24 agosto 2017

A Tua Mãe (Não Se Queixou)

O Dentão dizia a toda a gente “a tua mãe não se queixou”. Também a raparigas e a tipos sem mãe, ele não se acanhava. Estás a ver o género, não estás? Quando o proclamava, falava com tom de afronta, como resposta a alguma provocação. O mais normal era alguém pôr em causa a sua masculinidade; aquelas coisas corriqueiras do “és um paneleiro!”, e ele, tumba!, “pois sou, mas… a tua mãe não se queixou!”. Com um sorriso e, calhando, até um piscar de olho maroto. A expressão era, no início, uma espécie de bomba atómica do insulto. Se puseste em causa a minha sexualidade, eu devasto a idoneidade da tua mãe. Era comer e calar com esse vil ataque à reputação da progenitora. Não se conseguia combater aquilo. Ou se retorquia com um estéril e infantil “a tua também não”, o que, convenhamos, deixava muito a desejar em termos de espirituosidade, ou se saía com outra tirada ainda mais graciosa, o que não era fácil na altura, pois não éramos muito vividos – ou “streetwise”, como está na moda. Aquela boca era do mais “streetwisest” que podíamos ter. Vivíamos num mundo em que a informação passava lentamente, onde as repetições do boi Bocas ainda faziam crescer água na boca… e o “Água na Boca” era o máximo de mamas que podíamos ver livremente. Tu não sabes o que era estar ansioso por ver mamas ao léu em canal aberto, agora que elas te surgem em forma de spam quando tentas ver um jogo por streaming. E ainda por cima, são gajas que estão sempre solitárias, carentes e a rebolar-se numa cama cheias de comichão lá para os lados da Amadora. Ou Moscavide. Esses sítios onde existem esse tipo de gajas que só atrapalham, onde os lençóis estão todos sobrelotados de pulgas e para onde os IP’s convergem. Não tínhamos simplesmente as alternativas que hoje se conhecem, não havia memes com mensagens extremamente engraçadas e actuais para partilhar, todos uniformizados pelo mesmo tipo de letra e imagem. Acho que já está na hora de diversificar, diz-me tu se ainda prestas alguma atenção ao “keep calm and…” ou ao Grumpy Cat. Ainda? Bolas… Não tens explorado muito a internet, pois não?

“A tua mãe não se queixou” pode ter advindo duma coisa qualquer que se ouviu na festa da terrinha Atrás-do-Sol-Posto e que alguém transplantou para o nosso meio. E se calhar essa expressão já estaria em franco desuso até em Atrás-do-Sol-Posto, algo extraordinário, porque se há coisa que as festinhas de Atrás-do-Sol-Posto não são conhecidas é por deixar cair coisas na obsolescência – e daí estarmos sempre a ouvir a mesma valsa programada, “O Pai da Criança” e ruídos de eternas Zundapps junto ao bar onde se encontra sempre o coração do festejo. Pode ser difícil tu imaginares, mas a verdade é que sobrevivemos todos. Mesmo depois de termos ouvido amiúde “a tua mãe não se queixou”. Obviamente, a expressão foi banalizada. É como a tal guerra nuclear, depois de Nagasaki já ninguém se impressiona com cogumelos de fumo lá longe e oferecem-se bombas por tudo e por nada. Todos nós já estávamos tão acostumados e tínhamos trivializado tanto que aquilo já não afectava ninguém. Era como aquelas pessoas que usam e abusam do “portanto” ou “ou seja” nas suas expressões, nem se dava conta, proferíamos “a tua mãe não se queixou” de forma muito coloquial, à laia daquele piri-piri que dá outro gostinho à comida.

É claro que a banalização não era consensual. Havia sempre uns tipos que desconheciam a leviandade com que insultávamos e levavam as coisas muito a sério. Um desses gajos era o Rabicó. Nem de propósito, foi o Dentão que lhe colocou a alcunha. Isto depois de termos passado junto ao território deles, incarnado no prédio onde morava o Otário, as escadinhas contíguas e talvez os dois prédios mais abaixo, meio anónimos e que até poderiam ser território não reclamado. O grupo do Rabicó estava lá e mandou umas bocas quando nós passámos. Deviam estar a comentar os jeans Soviet estrategicamente rasgados do Raposa ou os Stan Smith novinhos do Dentão. O Dentão era um gajo sempre de olho num bom bate-boca e, já no topo das escadinhas, responde bem sonoramente “…MAS A TUA MÃE NÃO SE QUEIXOU!” e todos nós sorrimos por termos adivinhado precisamente o que se sucedera. Na boa, íamos a seguir caminho para fumar um Marlboro no campo de ténis, onde o Macieira iria criar uma piscina de cuspo, um lago de pequenas escarradelas que mandava mecanicamente após uma baforada. Toda a gente sabia onde o Macieira tinha fumado o seu cigarro secreto: era olhar para o chão e vê-lo alagado por uma substância viscosa, meio esbranquiçada, talvez ainda com algumas borbulhinhas. Porque o fazia, não sei; talvez fosse catarro industrial ou mero exercício de estilo. O que sei é que o Rabos também deu largas à sua arte cuspideira durante a cigarrada por algum tempo e que o Coratinni, um puto que nem sequer fumava, era ainda pior e mais sonoro nesse métier. Mas o Rabicó sentiu-se ofendido. Perdeu subitamente a loquacidade, galgou as escadas a correr num desvario e encarou o Dentão de peito feito, “olha lá, o que é que DISSESTES sobre a minha mãe?” – mesmo assim, que o pessoal na vida real fala mal (e se fosse para ter colocado aquilo por escrito, aposto que teria escrito “disses-tes”). Houve algum burburinho, testas encostadas, pessoal a tentar separar, troca de argumentos salpicados por mais insultos, mas aquilo lá foi apaziguado sem marcas de maior. O Rabicó e o seu grupo é que nunca mais caíram nas nossas graças. Nós éramos tipos não-alinhados e heterogéneos. O gajo era todo do punk consciente, com as correntezinhas dependuradas nas presilhas das calças e tudo, possuíam um hino anti-caçadores com uma relativa notoriedade e organizavam uma fanzine da cena, mas isso agora já deve ter passado e o gajo se calhar trabalha numa firma que vende talheres, está careca e pálido de tanta soja que teve de comer e até já não sabe onde param os álbuns originais dos Bad Religion. É o que costuma acontecer a estes gajos com a idade, vão do straight-edge para o straight-into-conformity. São as vicissitudes da vida, como deves perceber. A namorada dele na altura era um gaja com fama de “foder bem” e cuja virgindade já tinha sido perdida antes dos 16, segundo reza a lenda. São famas que perduram e que a tornavam atipicamente popular entre a mole masculina demasiado necessitada duma relação sexual propriamente dita. Atipicamente, porque a gaja não era nada de especial. Nada de especial mesmo, até para um adolescente carente… esquece, não há limites para um adolescente carente; a gaja era muito míope e fustigada por uma acne ténue, mas visível, e nem isso nos impedia de querer ficar junto dela nas visitas de estudo. “Fodia bem”, dizia-se à boca cheia, elevando as férteis fantasias pubescentes a patamares estratosféricos, e ela anuía, entre risinhos que apoucavam ainda mais os olhinhos dela atrás dos óculos, não enjeitando essa popularidade. A de “foder bem”, não a da miopia, bem entendido. No fundo, seria a vingança dela perante as outras gajas mais bonitas mas não tão afoitas. O problema é que ela começou a dizer que tinha estabilizado, sentindo uma maturidade precoce por volta dos 17 anos, num aparente momento de clarividência que muitas groupies não chegam a conhecer por uma vez na vida. Não queria forrobodó com mais ninguém que não aquele lingrinhas movido a vegetais. Então que se fodesse. Sabes como é, um gajo naquela altura não está para ficar à espera. Ademais, a acne só tinha tendência para piorar e ninguém tinha orçamento para o Clearasil. E ela foi sendo relegada à medida que novos valores despontaram na área. Acho que os vinte-e-poucos anos lhe devem ter batido forte, quando se apercebeu, qual Limp Bizkit, que a linha que separa o estrelato instantâneo do anonimato é quase imperceptível. Se hoje não está casada com um nerd com um bom emprego e com filhos míopes todos saídos a ela, então que me caia um piano em cima. Um Steinway & Sons, que é para ser esmagado com classe. Ao contrário dela e do estúpido do Rabicó.

Mas sabes o que me inquieta agora, miúdo? É não poder dizer, com propriedade, “a tua mãe não se queixou”. A tua mãe. Mesmo. Isto porque ainda não tive a oportunidade de deixar-lhe satisfeita. E eu acho que a tua mãe não se importava de se satisfazer comigo, caso nos desinibíssemos a valer. Isto é, ela não se deveria queixar. Talvez não percebas nem te interesses por isso, não faz mal, eu provavelmente estou a precipitar as minhas conclusões, mas alguns dos teus amigos já devem ter comentado a forma física dela: a teimosia que ela demonstra em envergar vestes muito leves e arejadas no Verão, donde espreitará a cabecinha dum soutien cai-cai; se calhar, nem traz soutien, que quando um tipo não vislumbra as alças do soutien pelos ombros ou costas começa logo a magicar; a maneira como cruza aquelas pernas carnudas e bronzeadas, onde não há sinal de varizes nem de celulite, aquelas cuecas que se percebem estar a perder-se rabo adentro e os sorrisos e toques que dá quando se despede com dois beijinhos bem dados. Não, ela não encosta só a cara e faz barulho como aquela gente que parece ter um certo asco ao intercâmbio de germes faciais, ela move os lábios para beijar e consuma o acto. É toda uma insinuante simpatia que se materializa. Todo um outro nível. Certamente que algum deles já bateu valentes punhetas a pensar nela, que a fantasiou angelical numa cama de pétalas ou apertada em vinil negro qual pantera de boca escarlate, a abrir delicadamente as pernas revestidas por uma pele aveludada para revelar o que vinha na mala do Pulp Fiction, ou demasiado arrojada nas palavras enquanto improvisa um lento strip-tease, envolvida pelo fumo absoluto duma cigarrilha de aroma perverso que preenche o quarto a meia-luz. A nossa mente estica-se até longínquos horizontes de intensa carnalidade, movida por estímulos que abrangem todos os sentidos. A tua mãe é da estirpe que fomenta a nossa imaginação, a que possui o mapa preciso para alcançarmos esses tais horizontes de luxúria. Sentimo-la diferente das outras; por ser experiente mas conservada; por irradiar sensualidade sem se render ao vulgar; por ser um fruto proibido que transparece uma dose adequada de malícia. Fisicamente, ela até parece uma versão revista e aumentada da Lisa Kudrow. Mas não ousaria comparar a tua mãe com uma gaja que apareceu numa sitcom enjoativa. Tudo o que mete a Jennifer Anniston é deveras entediante, independentemente do que se passe à volta. E se pensares que esse é o ponto alto duma carreira, actuar numa série que nunca mais acaba, onde os episódios parecem todos iguais e com plot-twists cada vez mais absurdos, só para esticar mais uma temporada e dar de comer aos que ressacam de entretenimento apropriado a um Domingo à tarde, então estás a perceber o que quero dizer e que eu jamais diminuiria a tua mãe dessa forma. E jamais escreverei dias da semana e meses com letra minúscula, quer as séries se chamem “Friends” ou “How I Met – voilà! – YOUR MOTHER”. A tua mãe – a palavra-chave aqui: a tua mãe é uma mulher em cheio e é uma pena que, naturalmente, não consigas reconhecê-lo sem pareceres um tarado qualquer. Em resumo, em vez do complexo de Édipo, tens o dilema do Stiffler.

Estou consciente de que poderás estar perplexo. Afinal, é comum nós sentirmos as nossas mães como entes castos e assexuados. O último reduto da decência. Somos todos parentes de Cristo no sentido em que, nas nossas mentes, fomos plantados lá no útero dela sem nenhuma obscenidade envolvida, tal como Cristo na sua épica narrativa. Queremos acreditar que somos divinos à nossa maneira. Não visualizamos a nossa mãe de quatro a pedir por mais e mais. Não. Nunca houve ninguém que chocasse os seus testículos inestéticos e felpudos contra a sua vulva, imbuído por um espírito de devassa, a chamar-lhe nomes e a puxar-lhe os cabelos para gáudio da pobre mãezinha. Qual gáudio. Nem pensar. Só pode ter sofrido muito e estar profundamente envergonhada, caso isso tivesse acontecido. Ah, ela queixar-se-ia, e muito! Ultrapassa-nos a ideia de a nossa mãe possuir desejos sexuais. A não ser que a nossa mãe se chamasse Carolina Patrocínio, mas também aí não teríamos de nos preocupar muito porque já estaríamos com um melanoma fatal. Espero que a Carolina imploda na próxima selfie e que se queixe que foi devido à falta de ginásio. Ela tem toda a cara de quem leva com saraivadas de esperma do seu marido-cavalo nas fuças, sémen esse que depois descai por aqueles ossos abaixo até se anichar naquela cova que tem entre as pseudo-mamas para aí ressequir em paz, num longo processo de maturação que a levará a raspar a casca daí resultante com uma unha devidamente envernizada e utilizar esse produto como topping dum dos seus batidos extremamente saudáveis. Mas ela talvez não se queixe de nada, aquilo é tudo sorrisos e eventos maravilhosos, desde as praias das Caraíbas com aquela gente muito pitoresca que vende bugigangas nas praias, gente tão pobre e tão adorável, aos abdominais pavorosos que faz questão de debitar no Instagram. É pouco crível que ela se queixe. Como a tua mãe, por motivos diferentes. É engraçado constatar que “como” na frase anterior tanto pode ser uma conjunção ou uma forma verbal.

17 maio 2017

Jon Bon Jovi

Não há muitas coisas que sejam tão consensuais como o prestígio do Jon Bom Jovi junto das mulheres. Foi o corrector automático que tornou o “Bon” ali de trás em “Bom”. Cá está, até o próprio corrector automático parece duma forma muito irónica concordar comigo, ou até mesmo extrapolar a minha observação, porque o sacana do corrector automático, segundo creio, é assexuado. E eu, com muito fair-play, concedi uma hipótese ímpar para o corrector automático brilhar. Ele, coitado, que tem as costas tão largas e recebe as culpas todas quando alguém se envergonha ou encolhe os ombros numa dúvida irresolúvel a decifrar textos nossos, não é habitualmente credor de grandes encómios. O corrector automático é como aquele parente meio distante que um dia destes feneceu: só nos chateava com os seus moralismos e receios de velho, que é como quem diz, “não escrevas isso, jovem, que há demasiada discordância entre sujeito e predicado, ou falta aí uma vírgula algures ou esse neologismo é desadequado”, mas depois até sentimos falta da sua rezinguice e, quiçá, das belas notas embrulhadas dentro dum envelope por alturas do Natal, ou por outra forma, das vezes em que por qualquer motivo se desactivou e nos deixou sem rede para escrever aquele mail em que dava mesmo jeito não produzir erros. Portanto, deixemos o corrector automático saborear a sua quota de crédito pelas parvoíces que vamos teclando e reconhecer-lhe o mérito enquanto ele não stressa com palavras como “pilinha”. É verdade, ele não stressa com pilinha. Mesmo assim, sem aspas nem capitalização, que às vezes o corrector poderia supor que Pilinha era o nome próprio da filha da Cinha Jardim e aceitava, à laia de benemérito. Não, essa era a Pipinha. Pipinha, Pilinha, enfim, lembro-me é que a Pipinha tinha umas mamas jeitosas que agradavam à pilinha – mnemónica para o futuro. A versão que eu tenho do Office é muito práfrentex, não fica aos risinhos quando ouve destas coisas meio pueris, e até “práfrentex” reconhece. Ah, valente.

É curioso ser o corrector automático a mandar uma ironia bem gizada e inadvertida, logo o corrector automático, esse Jekyll e Hyde do pessoal que não sabe escrever, ente sisudo e irascível na detecção de acentos em falta. Normalmente, é deste tipo de gente “no nonsense” que esperamos as tiradas mais imprevisíveis e certeiras. Não é como aqueles que julgam que têm graça e que juntam a este desditoso defeito o pecado de serem lampiões. Agora não se calam por terem ganho uma coisa qualquer, vêem todos os jogos e programas pré e pós-jogo, sabem de tudo sobre transferências e rumores e o diabo a quatro. Tenho um desses espécimes à minha frente e esta abécula sente tanta necessidade em mostrar a sua típica bazófia em open-space, onde serei o único não-lampião (e já estou vacinado contra essa doença, felizmente), que até fala para mim mesmo quando tenho os phones colocados no volume máximo e se percebe na copa que estou a ouvir música. É mais forte do que eles, é mais forte do que uma Cicciolina numa praia de nudistas e com comichão nas mamas, está-lhes no sangue: têm de ser fanfarrões dê por onde der. “Lá vem merda”, penso eu, sem sequer olhar directamente para aquela boquinha torpe donde sai um arrazoado já regurgitado por mais não sei quantos da manada e repetido ad nauseam. Latim, lampiões. O Jorge Mendes vende-vos aulas disto por 15 milhões. Claro que “lá vem merda”, aliás, o lampionismo presta-se muito a isto e a tipos que exclamam amiúde “mai’nada!”, “era pô-los todos a arder com um barrote pelo cu acima!” e “uma seven-épe aqui para o meu mai piqueno!”. Não, destes gajos só podemos esperar que fiquem calados durante muito tempo. Nunca sairá dali nada de génio, mas apenas trivialidades que cultivam uma semente de irritabilidade que vai crescendo e dar uns suculentos frutos de enjôo lá mais para o final do Verão. A antítese do Jon Bon Jovi, cuja aura de perfeição entre o mulherio perpassa épocas e é tão poderosa que o peido que mandou em 1986 e ficou guardado para envelhecer entre cascas de carvalho numa cave húmida durante este tempo todo cheira agora a Chanel para as admiradoras. Que são, no fundo, todas as mulheres do planeta excepto a Dina, as amigas da Dina e a Joana Amaral Dias, que detesta toda a gente e emprega o seu pior sotaque de esquerda-caviar para demonstrar o desprezo que sente do mundo que lhe é tão inferior. Um dia perceber-se-á que a má-disposição da Joana advém do facto de as suas mamas, embora volumosas, estarem aquém da dimensão das suas orelhas – quando ela finalmente perder o pudor em mostrar as orelhas.

Com efeito, a unanimidade do Jon Bon Jovi é indiscutível. Já o era há nos anos 80, continua a sê-lo na era das redes sociais, num fenómeno de longevidade sem precedentes. O tipo até quando tiver 90 anos deverá ter gajas a saltarem-lhe para cima, literalmente, porque nessa altura o Bon Jovi já não terá capacidades para comer alguma gaja a não ser que esta gaja o coma. Não há gaja capaz de dizer mal do Bon Jovi. Perguntem a qualquer gaja acima dos 30 como é que é. Do Brad Pitt podem dizer “ah, já passou a sua fase e aquela cena com a Angelina desgastou-o”, sobre o Di Caprio argumentam que “tem cara de menino e eu gosto de homens mais brutos”, em relação ao Dwayne Johnson peroram que “é demasiado bruto e eu gosto deles mais gentis”, o Tom Cruise “meteu-se com os Cientologistas e acho que é um baixote”, o Nelson Évora “é preto”, o Robert Pattinson “parece lavado em lixívia”, o Ricky Martin “pega de empurrão, é uma pena, mas pronto, já se sabe que os melhores apaneleiram…”, o Nuno Gomes nem sequer era um homem, o filhos do Tony Carreira não prestam porque são avecs xungas, o Benedict Cumberbatch, malgrado o seu charme britânico, “parece um freak” e o Justin Bieber, esse, bem, “é uma criança”, se bem que o Bruce Willis “já é um bocado velho demais”. Mas sobre o Jon não há nada a apontar. Especialmente, os seus dotes enquanto homem, mais do que enquanto cantor. Pois, suspeito que o Bon Jovi poderia cantar uma versão do “Ai Ai Ai Minha Machadinha” e mesmo assim venderia 1 milhão de cópias desse single, sem esforço. Todas compradas por mulheres e pelos amigos do Cláudio Ramos. Bastaria apenas uma sessão fotográfica de promoção que sublinhasse a sensualidade do seu sorriso de lábios carnudos combinada com a profundidade arranca-almas do seu olhar. “Parece o Vinho do Porto”, “até de lycra e permanente tinha estilo”, “foi sempre muito fiel à mulher”, “tem pêlos no peito”, “tem alguns pêlos no peito, mas não são muitos”, “fica bem com qualquer tipo de cabelo”, enfim, alguns dos elogios mais visíveis, culminando no “esse gajo é bom todos os dias”. E não há mais ninguém assim, que congregue tamanho apoio feminino. Nem na minha terra, nem em lado algum. O Bon Jovi é único e irrepetível. É um facto deveras assinalável: consegue unir todas as gajas, mesmo as que dantes odiavam-se de morte porque uma vez houve uma que foi comprar um lenço à Bershka que era o mesmo que a outra tinha experimentado com ela no outro dia mas que não chegou a comprar porque ela tinha-lhe dito que o que lhe ficava mesmo bem eram as pulseiras que tinha visto num daqueles quiosques à entrada do shopping e a outra tinha ficado com dúvidas e acabou por ficar mesmo com as pulseiras em vez daquele lenço e agora até já perdeu as pulseiras numa mala qualquer e a outra anda aí a pavonear-se com um lenço que podia ser o dela e já não pode nunca mais ser, porque seria altamente embaraçoso ela ser vista com um lenço igual à da outra, a vaca, bem-feita o teu filho ser autista, o teu marido ser repositor no Jumbo de Alverca e teres uma pele toda cheia de sinais e pontos negros nojentos que é uma vergonha, que é para servir de castigo. Pausa para respirar. O Bon Jovi constrói pontes e sana as diferenças. Sim, até as palestinianas e as israelitas deixam de lado os seus morteiros e cintos de bombas e juntam-se todas num deleite profundo, se é o Jon Bon Jovi que está a passar lá na M80 do Médio Oriente, especialmente se for a “Always” ou a “Bed Of Roses”. “Ahhhh…”, suspira-se colectivamente em árabe e hebreu e pronto, soltam-se coraçõezinhos imaginários no ar e larga-se o cocktail molotov no chão, lá está mais um mártir mas que se lixe, quando o Jon afirmou “I wanna lay you down in a bed of roses” elas juraram que ele era o tipo mais romântico de sempre e que tudo valia a pena. O poder do Bon Jovi é imenso. É tão grande que quando ele diz “yeah, I will love you baby, always, and I'll be there, forever and a day, always” é ver as gajas a derreterem-se qual gelado ao sol e as suas partes baixas a encharcarem-se de tal forma que se fizéssemos *schlek, schlek* nos seus grandes lábios seríamos salpicados por uma onda de fluido vaginal que nos faria parecer um McNamara à deriva no Canhão da Nazaré. Isto é mais visível nas gajas que têm grandes lábios mesmo grandes, uma membrana protuberante como se fosse um molusco e onde é até possível formar uma pequena poça de água, havendo a sorte de existir uma concavidade com algum jeitinho. Há gajas assim e a maioria delas tem vergonha de possuir aquelas peles dependuradas, mas até poderiam fazer um figurão num concurso de sombras chinesas. As outras apenas molham as cuecas e, em casos extremos, encharcam o chão por onde passam, como se acometidas por uma incontinência aguda. Uma incontinência destas tem um responsável: Jon Bon Jovi.


Não conheço assim tantas mulheres, mas nunca conheci nenhuma gaja que desdenhasse o Bon Jovi. Até mesmo aquelas que fugiam a sete pés de baladonas ou de hair metal admitem, no mínimo, que o Jon é o seu “guilty pleasure” e escutam-no, não tanto pelo prazer do som, mas pelas sensações oníricas que a sua voz proporciona. Mais do que ser “um tipo que não é mau”, o Jon é, da neta à avó, da maníaco-depressiva à passiva-agressiva, da tola até à doutorada, da freira que esconde dildos à puta que lê poesia lírica setecentista, “realmente um tipo bom”. Bom em todas as vertentes que apaixonam, incluindo bricolage, estacionamento paralelo e um pénis grande e grosso, desenhado de forma ergonómica para encaixar em qualquer vagina. Bom Jovi, como este corrector automático teima em fazer-me escrever.

19 abril 2017

Christopher Walken

Em tempos não muito idos, havia vergonha. Não que fosse algo que suscitasse orgulho ou celeuma. A gente não tinha era muitas formas de perdê-la. Então conservava-la como um pickle envinagrado no fundo da dispensa, despojo esquecível que teimava em nunca se deitar fora, por muito fora do prazo que estivesse. A vergonha não era coisa de se perder facilmente. Não era nenhuma chave de viatura em viagem interminável pela mala duma senhora. Não era algo que saísse pelo bolso dumas calças ratadas. Nós até tentávamos que ela nos passasse despercebida, mas, teimosa, a vergonha ficava por lá, agarrada por pinças imaginárias, colada por uma Super Cola 3 absurdamente invisível e potente. Nós sabíamos que a tínhamos, lá alapada e senhorial. Ponderávamos e retraíamo-nos em consequência. E nunca a largávamos, à laia dum objecto precioso que nunca fora. Porque custava abandoná-la perante a presença efectiva de gente. Gente a sério, de carne e osso, da qual sentíamos a respiração e os esgares de espanto ou indignação, bem à nossa frente. Pelo menos, desfazermo-nos dela duma forma cabal e espalhafatosa. Perdia-se a vergonha em surdina, em pequenos actos e traquinices partilhadas em forma de air guitar num quarto, numa masturbação que pincelava os lençóis pela calada da noite, numa cumplicidade espontânea entre um par de amigos ou numa carta de amor rabiscada num cantinho lá de casa e cujo destino seria, invariavelmente, o caixote. A vergonha não aceitava ser deitada ao lixo, obrigava-nos a deitar o resto para o lixo. E vivíamos com isso, por muito que até desconfiássemos que o excesso de vergonha nos castrava de todo um eventual potencial que julgávamos possuir.

Hoje, porém, isso da vergonha é um conceito em desuso. As pessoas esqueceram-se disso. Perdem amiúde a vergonha e nem se dão conta. A única vergonha que subsiste é a vergonha de ter vergonha. Porque hoje há tantos repositórios onde deixar a vergonha à porta, como se fosse parte do código de conduta desta grande festa dos tempos ultra-modernos, que é quase tão natural como beber água. Até beber água já não é tão descomplicado como dantes: agora há vários sabores, mineralizações diversas, há quem defenda que a água da torneira é que é boa e a que evita pedras nos rins, há quem receie pelos detritos que vêm nas tubagens que podem provocar um cancro qualquer e há até quem nem beba água, declarando, ufano, que isso “é para meninos”. É também um sinal da perda da vergonha, as proclamações absolutas e, não raras vezes, desconsiderando toda a razoabilidade que dantes andava de mão dada com a vergonha. A razoabilidade também se perdeu por uma vereda sombria, coitada.

Estão a ver aquele magote de gente com o pescoço dobrado sobre o seu ecrã, mexendo os polegares? Sim, aqueles que estão juntinhos sem descolarem as suas íris brilhantes daquele magnético ecrã e verem quem está ao lado? Estão todos a perder a vergonha, silenciosamente, uns para os outros. A gente entra num mundo de total abertura e pensa que está ainda no seu cantinho, mas não, está a fazer um strip-tease da alma para muitos outros olhos. Pensa que está a brincar ao Risco, mas está a criar ondas de choque que mata gente da Síria à Coreia. Crê que é tudo muito amigável e asséptico; engraçado, quiçá, mordaz com muito estilo, talvez; mas está a desencadear sentimentos pouco nobres noutra gente que se impressiona facilmente e a levar com ricochetes desagradáveis. Pode até imaginar que ainda está no café a falar com amigos, mas está a gerar inimigos ocultos, muito irascíveis e igualmente exauridos de toda a sua vergonha, que replicam com feroz veemência. E também com uma dose de demência, que rima, e não só porque fica bem. Parecem cães que ladram muito atrás da vedação e que ficam sem saber o que fazer quando se apercebem que essa rede acabou. Já ninguém sabe o que fazer sem rede no chamado “mundo desenvolvido”. A falta de vergonha animalizou-nos, no sentido mais irracional do termo.

A ignorância agradece. Dantes, a vergonha impedia-a de se soltar. Agora, a ignorância corre por aí, à bruta, com as mamas ao léu – e, por vezes, até de forma literal. Sem a vergonha, a ignorância grassa como uma epidemia e fica ao cuidado de cada um vacinar-se como pode. Alguns não querem, alguns não sabem como, outros ignoram a ignorância. O que é ainda pior. Assim, a ignorância corta os laços mais profundos que a vergonha segurava e solta-se o insulto, o deboche, a inveja miudinha e mais e mais ignorância. Tende-se a simplificar tudo, a arranjar instruções tipo Ikea para resolver problemas, alguém há-de pensar, alguém há-de corrigir, alguém há-de fazer, alguém há-de responsabilizar-se. Alguém. A nós só nos interessa uma imagem. Um ícone qualquer. Uma fé nalguma coisa que nem sabemos bem o que é, mas é fé e a fé tem domesticado os espíritos inquietos de muita gente ao longo do tempo. Se a fé serviu dantes, servirá agora, pensa com pueril ingenuidade quem acha que a História cristalizou e é muito chata, coisa de velhos nostálgicos e que nunca se repete, neste mundo em que até podemos assassinar gente em directo e divulgar ao resto do mundo com a mesma facilidade com que escarrapachamos mais uma selfie numa aplicação qualquer, à espera de receber 346 comentários que dizem exactamente o mesmo, apenas variando na forma como abreviam e pontapeiam uma língua qualquer. Tudo porque estamos a olhar para o mundo atrás dum ecrã, no nosso cantinho, sem nos apercebermos que a linha invisível nos une a todos, mantendo-nos solitários em simultâneo, numa partilha de angústia social colectiva. Não reparamos, mas a quantidade de interacções apenas nos torna mais sozinhos, à medida que o cimento que daria para unir uns poucos serve para muitos. Vamo-nos desagregando e ruímos todo o nosso edifício sentimental, numa espectacular derrocada da qual ninguém quer saber. Se pelo menos ainda tivéssemos a vergonha, se calhar tínhamo-nos acautelado. Mas perdêmo-la pelo caminho e já não somos capazes de encontrá-la sem um GPS. E já ninguém escreve de forma perceptível para que possamos entender como reencontrá-la. Como nos reencontrarmos. Já nos perdemos a nós mesmos numa selva de redes. Emaranhámo-nos demasiado. E achámos muita graça porque pensávamos que éramos o pescador, mas éramos o peixe e fomos de arrastão. Fomos mais um peixe neste cardume sem vergonha.

E agora? Agora tens um revólver à frente com uma bala à espreita e estás cansado de andar com o relógio de outrém espetado no teu recto. Tens de largar esses fardos que te deixaram com um olhar louco e distante e com uma voz carregada de sarcasmos fotocopiados. Não há como voltar atrás. Nem saberás como. A solução é seguir em frente. Sem vergonha. Disseram-te que sem amarras algumas é que serás plenamente livre e realizado. E que o caminho da felicidade se faz sem medos. Arriscar, empreender, dar largas às frases feitas que são tão giras quanto vãs, descurar as bases que aqui te trouxeram e que tão miseravelmente te fazem comparar com os outros nesta sociedade aberta, de competição ferina, onde não há lugar para os fracos, anónimos e aborrecidos. Ninguém quer ser a nota de rodapé. Tu não queres, certamente, não ter nada para contar a quem não te quer ouvir. Está nas tuas mãos segurar o revólver com determinação e criar uma grande história.


Mas ser feliz não é, simplesmente, uma opção viável. Tu sabes bem que sim, mesmo que te esforces para convencer os outros do contrário. Ninguém quer ser convencido, de qualquer forma, apenas tranquilizado. Tu sabes bem quais são as linhas com que te coses. São iguais às dos outros todos. Somente não consegues admitir. Por vergonha? 

21 dezembro 2016

Os Elders

Dizem que um mal nunca vem só. Que quando ainda estamos a tentar perceber a dimensão da adversidade, logo surge a cabecinha do demónio por detrás da ponta do iceberg, pronto a infernizar-nos mais a vida. “Infernizar” é coisa que os demónios fazem reconhecidamente bem. E, acreditem, o iceberg é bem maior do que aquilo que conseguimos depreender à primeira vista. Perguntem ao Di Caprio e aos outros desgraçados do Titanic. Ao contrário das coisas boas, cuja utilidade percebida parece decrescer com a repetição, as coisas más tendem a aumentar o seu nível de desconforto à medida que se sucedem. O mal tem destas coisas maléficas. E a cabecinha do demónio demonstra uma capacidade indiscutível para engendrar maldades. Algum sentido empreendedor, também: reconhecendo o potencial sinergético, estabeleceu um protocolo com o Murphy da Lei de Murphy; esta parceria tem produzido sumptuosos frutos de pessimismo, traduzidos em sabores tão diversificados como o azar, a desilusão, a dor e a tristeza, que só valorizam ambos. Senão, atente-se: quantas vezes receámos que as coisas corressem mal e elas correram mesmo? E quantas vezes, depois de comprovarmos o mal que se nos abateu, tememos que pudesse ser pior… e acaba mesmo por ser?

Estás indignado porque os impostos voltaram a subir? Então prepara-te porque vão criar uma sobretaxa adicional qualquer, precisamente a pensar em ti. Estás chateado porque o carro não pega e vais chegar atrasado? Então ainda hás-de ficar pior quando vires que a conta do mecânico inclui outras coisas que nem suspeitavas que o carro tinha. Estás piurso porque o chefe agendou uma reunião para o final da tarde, quando tinhas previsto sair mais cedo? Então ficarás de rastos quando souberes que ele está a prever deportar-te para Angola. Estás inconsolável porque a tua equipa perdeu injustamente contra o rival, depois de uma arbitragem tendenciosa? Então fica a saber que o teu melhor jogador contraiu uma lesão que o vai arredar durante o resto da temporada. Estás deprimido porque a tua namorada te rejeita sexo e parece andar a ignorar-te? Então até vais ficar petrificado quando descobrires que ela anda a fornicar com o instrutor do ginásio na tua própria cama. Bolas, não podíamos ficar apenas com um simples mal, que já é mau que baste, porque é que as circunstâncias insistem em punir-nos com redobrada malvadez? O mal vem, no mínimo, aos pares; não é como as cerejas, luvas, sapatos, mamas ou colhões, que vêm aos pares e, salvo algum fenómeno, não se estendem para além da dupla; não é como o bem, que às vezes só vem parcelado em pequeninas coisas boas, meros fogachos de algo que se desejava inteiro e na sua plenitude; não, o mal entra de rompante e tem uma força própria que te ataca rapidamente em mais que um nervo.

Não sei se é por compreender esta facilidade de desdobramento do mal que esta religião dos Santos dos Últimos Dias (LDS, na sua sigla inglesa – e eu durante muito tempo julguei ler LSD e nem estranhei) emprega rapazinhos aos pares e manda-os missionar por aí. Eu até gosto mais do termo “missionalizar”, mas o corrector diz-me que essa palavra não existe. Estes rapazinhos são os Elders. Como o meu primo, mas o meu primo tem a sorte de ter um “H” adicional que o distingue. E nunca anda com uma plaquinha negra com o seu apelido visível no peito. Certamente que já todos viram Elders a deambular por aí. Aos pares, evidentemente. Creio que seja para combater melhor o mal multicéfalo que se lhes depara. Nunca se vê um Elder solitário. Nunca. Até ao WC os gajos devem ir juntos. E, verdade seja dita, nunca os vi a missionalizar (perdoem-me, mas gosto mais de escrever “missionalizar”). Sempre que os vi, estavam calados e algo circunspectos. O que é ser missionário para estes gajos, afinal? Basta andar por aí com a camisinha branca, a gravatinha e a placa explícita ao peito para fazerem o trabalho deles, que é basicamente passear, durante um exílio de um par de anos? É isso? Bem, é chato, mas exequível. Trabalhar num call center por um mês será bem pior. Ainda por cima, os Elders é que decidem quem abordar, se abordarem, enquanto os coitados dos call centers levam com toda a raiva acumulada dos outros, sem escolha. Lá está, o mal dos empregados dos call centers não se esgota numa só vertente.

Deve haver certamente mais qualquer coisa nos Elders do que andar a passear com o seu compadre durante meses e meses no estrangeiro. Até parece um enredo algo homoerótico, ter dois rapazinhos americanos, com tromba chapada de americano, com aquela pele fininha de quem vem do midwest das pickups e da posse de arma generalizada, o queixo quadrado e um sotaque presumivelmente gorduroso que nem um hambúrguer, ainda imberbes, numa espécie de uniforme, a partilharem todas as experiências do quotidiano num local remoto, envoltos numa mudez crónica e em jogos de troca de olhares, sem grande espaço para a privacidade. Uma espécie de Brokeback Mountain de cariz supostamente religioso. Para além dalguma missionamentalização (adoro este neologismo que acabei de inventar) invisível, suspeito que seja tudo uma preparação para poderem ser mórmons a sério. Ouvi dizer que os mórmons são polígamos e talvez tenham de passar este tempo de privação para poderem desfrutar a sua poligamia a valer. Eu de religião percebo muito pouco, nem quero saber que ideia é essa dos “Santos dos Últimos Dias” e acredito que não tenha a ver com os últimos dias dos saldos ou Black Fridays, mas simpatizo com a ideia da poligamia. Pelo menos, é teoricamente interessante; na prática, deve terminar com um grupo de gajas aos gritos a disputar a primazia sobre o cartão de crédito para irem ao cabeleireiro e às compras e isso não é assim tão divertido. Desconfio é que, para os Elders, a única posição que conhecem é a de missionário e por isso a poligamia não será devidamente apreciada. Eu sei, é uma piada fácil e que já estava prevista desde o início. Mesmo que eu considere que, efectivamente, a posição de missionário é a melhor de todas, pese o seu classicismo pouco kama-sutriano. É uma opinião legítima e discordo em termos genéricos da afirmação “face down, ass up, that’s the way we like to fuck”, da autoria d’ Os Lunáticos e constante do seu único hit “Estou Na Lua”, que recolheu grandes simpatias nos idos de 1995. A partir daqui, já não há mais nada de relevante para ler neste texto. Mas como já começaste a ler, agora vais até ao fim e ficas ainda mais desiludida. Vais perder o teu tempo e, pior, perdes o teu tempo com coisas desinteressantes. Eu bem que alertei no início, o povo bem que avisou através dos seus epigramas, os Elders bem que se defendem aos pares, que o mal nunca se fica pela unidade e aprecia a companhia doutros males. Os sacanas.


Se o facto de os Elders andarem aos pares os torna mais efectivos na luta contra o mal? Será que com eles o mal pelo menos só vem isolado de cada vez, tira a senha e fica à espera na fila que o seu numerozinho apareça a piscar no mostrador para então, ordeiramente, espetar-nos golpes avulsos de má sorte? Não creio. Senão, éramos todos simpatizantes da LDS, mas continuamos mais adeptos de LSD. Ou então tínhamos Elders a entrar no Dragonball para acabar logo com aquilo, porque era para cima de 10-0 sobre o Mal. O mundo está na mesma, com muita porcaria, eles não mudam nada, mas acham que sim com a sua abordagem diferenciada. É um erro natural das religiões. A porcaria já vem de longe, assim como a mistificação da religião. Já tem uns belos milhares de anos. Hoje apenas está mais exposta para todos e qualquer um pode acreditar em muitas outras coisas. Há até uma igreja do bacon na América e parece-me tão válida como qualquer outra, apenas não envia leitões aos pares para serem comidos ao domicílio. Qualquer idiota já pode ter uma voz mais ou menos pública e o que assistimos é à proliferação de idiotices pegadas. Sejam explicitamente religiosas ou não. Mas este nem é o mal pior. O pior é que somos nós mesmos que caucionamos as idiotices com “likes”, “shares” e “views”, que valorizam o mínimo denominador comum e guindam estes parvalhões a um patamar de poder e influência que dantes não passaria do perímetro dum quarto e que agora pode preencher toda uma nação, toda uma geração, quiçá o próprio planeta. Como se pudesse haver uma só maldade a atormentar-nos solitariamente neste mundo e as respostas fossem simples. Não são, nunca foram e nunca serão. Como os Elders nunca serão vistos a vaguear sozinhos na tua ou na minha terra.