Gostei de te ver outra vez. É das poucas coisas que posso estar certo. É genuíno. Não é aquela coisa genérica do “há quanto tempo?”, não; é mesmo algo que persigo como objectivo de vida. És a minha abstracção mais concreta. Conservo-te com a tua imagem clássica, que para mim será a da tua meia-idade avançada. Com um pouco mais de idade que eu agora, mas muito mais envelhecido. Muito mais sábio, muito mais batido no rolar cáustico da vida. Tinhas normalmente razão. Como sempre aparentaste, como eu acho que deve ser. Abracei esses ossos com indisfarçável comoção, foi mesmo bom sentir a aspereza da tua pele e essas mãos quadradas. Acho que ficaste feliz por me ver também.
A realidade teve, apesar de tudo, ensejos interessantes. O
Sporting foi bicampeão e chegou longe na Europa, quem diria. A melhor época de
sempre não esperou por ti. Até nisso tiveste azar. A tia foi ter contigo
passado pouco tempo, se calhar já sabes. Eu acredito que sim, duma forma que não
consigo explicar. Mas se não sabes, ficas a saber. E o tio lá continua sem
saber de si nem de ninguém, é só despesa. E os outros envelhecem, mais ou menos
graciosamente. Alguns tentam imitar Sísifo e acham que isso lhes dá vida. Pelo
menos dá-lhes moral. Se os ouvidos ainda perceberem, se os olhos ainda discernirem,
se os membros ainda colaborarem, tudo se aguenta. Não te esqueceram, mas já não
há lágrimas, há uma ténue lembrança que regressa em dias como hoje, em forma de
crisântemos, ou nem isso. O silêncio é partilhado por todos, talvez nem se
pense em ninguém em particular. Acho que não irias estranhar este tempo. Este
tempo ainda podia ser teu.
Tenho cuidado bem da mãe. Eu penso que sim. Julgo que era o
que mais querias, que ela não ficasse perdida. Tratei da burocracia toda e ainda
trato. Aceitei esse desígnio e vigio as contas, falo com ela todos os dias, levo-a
passear. Ela sente a tua falta. No banco condutor do carro e da vida. Se calhar
é quem mais sente a tua falta. Antes ou depois de mim, é difícil estabelecer
prioridades. E para mim vocês ainda são um conjunto, como aquelas cerejas do
quintal. Ela tem saudades das vossas irritações. De alguém com quem falar à
noite, de ter motivação para fazer comida para mais que um. É difícil. A tua
fotografia tornou-se uma espécie de altar na cómoda e a tua poltrona acumula
pó. A aura fúnebre parece ter-se incrustado naquelas paredes. A mãe tenta mexer
pouco. Nem deve ocupar uma metade da cama. Como se tu ainda pudesses recriminar
algum papel fora do sítio, o relógio cuja pilha não se troca, a persiana que de
alguma forma encravou. Ela mantém o respeito até no vestir e não troca agora o
preto por nada. É clássico. Ela observa os preceitos como dogmas. O que iriam
as pessoas pensar se arriscasse uma peça de cor? Faz parte da genética e eu posso
exasperar-me, mas compreendo.
E ainda não removi as tuas roupas do barracão. Espero
que ainda mantenham aquele teu cheiro misturado com mofo. Adoro o teu mofo.
Deixei-as na esperança de que um dia ainda queiras andar por aí, no campo onde
tu gostavas tanto de estar. Eu vi-te a chegar assim, à chuva, com aquela
gabardina tão desgastada e poída, cobrindo umas calças cinzentas esborratadas
de tinta, passo lento numas galochas enlameadas, indiferente ao temporal, a luz
do dia a escapar-se nas copas das árvores. Tinhas estado junto aos
castanheiros, cortando silvas, apanhando fruta, martelando pregos, ordenando o
quintal. E ao final do dia, ver o jogo na televisão. Havia sempre qualquer
coisa para fazer. Agora aprendi a identificar árvores por ti. A manejar
tesouras e moto-serras. A acordar cedo para regar as laranjeiras. Para tentar
dignificar minimamente o espaço que era teu. Para mim ainda é. Agora a lenha vai desaparecendo lentamente na fogueira e já não há ninguém que a rache. Tento
suprimir a minha falta de jeito com uma idiota sensação de que me estás a dizer
para continuar. E não ouso tocar nos papéis com a tua caligrafia, julgo que são
relíquias egípcias, sendo apenas recibos de televisores comprados quando as
contas se faziam em escudos. Guardavas tudo na esperança duma necessidade posterior
ou para que alguém pudesse escrever a tua história. Que nunca saberemos quem
será. É tudo espólio sentimental, do baralho de cartas à ferramenta tosca. Tudo
teu.
Guardar as tuas coisas, no entanto, não é suficiente para
que fiques. Não vieste ter comigo, na verdade. Nunca regressaste, mas é como se
estivesses aqui. Ainda, mas não. É apenas a força de quem não pode ser
substituído. Parece que ouço a tua voz, calculo como seria a tua reacção
perante as mais diversas situações, mentalizo as intermináveis conversas que
tinhas no carro, sei agora que querias dar o registo verbal da tua vida a quem
te ouvia. E deste. Mesmo que não me recorde de todos os pormenores, recordo-me
da minúcia da tua memória que eu invejo e tento copiar. Venho sempre cá ao teu
espaço quando posso e ainda não consigo calar a emoção. Fico contente quando
vejo que as árvores brotam na Primavera, penso em ti. E depois reflicto
melancólico na tua ausência. Mesmo que tudo vá desaparecendo aos poucos, a
alegria das crianças que crescem, a cor das fotografias esquecidas ao sol, o brilho
fosco do mármore, a memória das referências de ontem, enquanto aqui estiver vais
estar comigo. O meu respeito são estas linhas. Que um homem não chora, como nós
sabemos.
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