05 setembro 2026

Dia de Todos-os-Santos

Gostei de te ver outra vez. É das poucas coisas que posso estar certo. É genuíno. Não é aquela coisa genérica do “há quanto tempo?”, não; é mesmo algo que persigo como objectivo de vida. És a minha abstracção mais concreta. Conservo-te com a tua imagem clássica, que para mim será a da tua meia-idade avançada. Com um pouco mais de idade que eu agora, mas muito mais envelhecido. Muito mais sábio, muito mais batido no rolar cáustico da vida. Tinhas normalmente razão. Como sempre aparentaste, como eu acho que deve ser. Abracei esses ossos com indisfarçável comoção, foi mesmo bom sentir a aspereza da tua pele e essas mãos quadradas. Acho que ficaste feliz por me ver também.

A realidade teve, apesar de tudo, ensejos interessantes. O Sporting foi bicampeão e chegou longe na Europa, quem diria. A melhor época de sempre não esperou por ti. Até nisso tiveste azar. A tia foi ter contigo passado pouco tempo, se calhar já sabes. Eu acredito que sim, duma forma que não consigo explicar. Mas se não sabes, ficas a saber. E o tio lá continua sem saber de si nem de ninguém, é só despesa. E os outros envelhecem, mais ou menos graciosamente. Alguns tentam imitar Sísifo e acham que isso lhes dá vida. Pelo menos dá-lhes moral. Se os ouvidos ainda perceberem, se os olhos ainda discernirem, se os membros ainda colaborarem, tudo se aguenta. Não te esqueceram, mas já não há lágrimas, há uma ténue lembrança que regressa em dias como hoje, em forma de crisântemos, ou nem isso. O silêncio é partilhado por todos, talvez nem se pense em ninguém em particular. Acho que não irias estranhar este tempo. Este tempo ainda podia ser teu.

Tenho cuidado bem da mãe. Eu penso que sim. Julgo que era o que mais querias, que ela não ficasse perdida. Tratei da burocracia toda e ainda trato. Aceitei esse desígnio e vigio as contas, falo com ela todos os dias, levo-a passear. Ela sente a tua falta. No banco condutor do carro e da vida. Se calhar é quem mais sente a tua falta. Antes ou depois de mim, é difícil estabelecer prioridades. E para mim vocês ainda são um conjunto, como aquelas cerejas do quintal. Ela tem saudades das vossas irritações. De alguém com quem falar à noite, de ter motivação para fazer comida para mais que um. É difícil. A tua fotografia tornou-se uma espécie de altar na cómoda e a tua poltrona acumula pó. A aura fúnebre parece ter-se incrustado naquelas paredes. A mãe tenta mexer pouco. Nem deve ocupar uma metade da cama. Como se tu ainda pudesses recriminar algum papel fora do sítio, o relógio cuja pilha não se troca, a persiana que de alguma forma encravou. Ela mantém o respeito até no vestir e não troca agora o preto por nada. É clássico. Ela observa os preceitos como dogmas. O que iriam as pessoas pensar se arriscasse uma peça de cor? Faz parte da genética e eu posso exasperar-me, mas compreendo.

E ainda não removi as tuas roupas do barracão. Espero que ainda mantenham aquele teu cheiro misturado com mofo. Adoro o teu mofo. Deixei-as na esperança de que um dia ainda queiras andar por aí, no campo onde tu gostavas tanto de estar. Eu vi-te a chegar assim, à chuva, com aquela gabardina tão desgastada e poída, cobrindo umas calças cinzentas esborratadas de tinta, passo lento numas galochas enlameadas, indiferente ao temporal, a luz do dia a escapar-se nas copas das árvores. Tinhas estado junto aos castanheiros, cortando silvas, apanhando fruta, martelando pregos, ordenando o quintal. E ao final do dia, ver o jogo na televisão. Havia sempre qualquer coisa para fazer. Agora aprendi a identificar árvores por ti. A manejar tesouras e moto-serras. A acordar cedo para regar as laranjeiras. Para tentar dignificar minimamente o espaço que era teu. Para mim ainda é. Agora a lenha vai desaparecendo lentamente na fogueira e já não há ninguém que a rache. Tento suprimir a minha falta de jeito com uma idiota sensação de que me estás a dizer para continuar. E não ouso tocar nos papéis com a tua caligrafia, julgo que são relíquias egípcias, sendo apenas recibos de televisores comprados quando as contas se faziam em escudos. Guardavas tudo na esperança duma necessidade posterior ou para que alguém pudesse escrever a tua história. Que nunca saberemos quem será. É tudo espólio sentimental, do baralho de cartas à ferramenta tosca. Tudo teu.

Guardar as tuas coisas, no entanto, não é suficiente para que fiques. Não vieste ter comigo, na verdade. Nunca regressaste, mas é como se estivesses aqui. Ainda, mas não. É apenas a força de quem não pode ser substituído. Parece que ouço a tua voz, calculo como seria a tua reacção perante as mais diversas situações, mentalizo as intermináveis conversas que tinhas no carro, sei agora que querias dar o registo verbal da tua vida a quem te ouvia. E deste. Mesmo que não me recorde de todos os pormenores, recordo-me da minúcia da tua memória que eu invejo e tento copiar. Venho sempre cá ao teu espaço quando posso e ainda não consigo calar a emoção. Fico contente quando vejo que as árvores brotam na Primavera, penso em ti. E depois reflicto melancólico na tua ausência. Mesmo que tudo vá desaparecendo aos poucos, a alegria das crianças que crescem, a cor das fotografias esquecidas ao sol, o brilho fosco do mármore, a memória das referências de ontem, enquanto aqui estiver vais estar comigo. O meu respeito são estas linhas. Que um homem não chora, como nós sabemos.

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