06 junho 2026

Rio Abaixo

Vou por este rio abaixo, agora já estou bem metido nisto, vou descendo até à foz. Tenho suor a alagar-me a testa, a boca seca. Mas a água está fria, nunca esteve com tantas algas, e está a arrefecer-me os ossos. A permanência destes vegetais em contacto com a pele provoca irritações. Em breve estarei dormente. Ando em busca da anestesia perfeita, desse éter maravilhoso que me envolve o cérebro e me devolve às estrelas. Mas não queria que fosse assim, não deveria ser assim. Não sei por onde ir nem o que fazer. Tudo parecem soluções esgotadas, buscas inúteis ou quimeras idiotas. Olho para trás, para o tempo quando não era o rio que me dizia para onde ir, e também para aquela margem outrora verdejante, onde brilha um sol doente de trovoada. É uma paisagem cada vez mais amarelecida, as pastagens deram gradualmente lugar a uma savana mais inclemente. Os pacíficos herbívoros foram absorvidos por um matagal onde agora se escondem bichos estranhos e o que é estranho é mau, há uma corrente sanguínea eléctrica que me atravessa o corpo e diz-me que é para desconfiar destes alienígenas. Não consigo voltar a essa margem, onde o lodo se acumula, consolidado pela corrente permanente, que arranca pequenos pedaços de terra e rocha na sua aparente, mas letal, placidez. Nada aqui é amigável, mas vai parecer que sim, um paraíso colorido e frívolo de grandes actores sempre em palco. Não quero mais ser a sua audiência, o alimentador de egos por descanso de consciência. Lembro-me porque afinal vim aqui parar, a este lugar inóspito e já tão calcorreado por almas errantes. Porque estou assim tão inquieto, bordejando o desespero. Procuro referências, astros alinhados, fórmulas mágicas. Pequenos girinos debatem-se contra a corrente, nem me notam no seu frémito concorrencial pela sobrevivência. Enfim, as margens estão mais distantes entre si, eu ali mais ou menos no meio, distraído do meu próprio destino a contemplar a actividade insignificante dos insectos. Estou numa fuga a um pelotão de memórias. Mas é difícil pedalar nesta água gélida e com estas ervas enervantes a enrolarem-se-me até à cintura. Cada passo parece pior que o anterior, o leito mais mole e movediço, parece que vi a sombra dum siluro. O que mais podia faltar… Pode ser só o medo do anoitecer, não é a minha mente a falhar com a confusão, são pirilampos a passar titubeantes por mim, dançando à minha volta. E eu dancei como pude sobre mim mesmo num remoinho de desgraça, a ver se alcançava o tronco. Quero repousar um pouco, antes que volte a ouvir o ladrar das cadelas, o som do medo que me persegue algures, o eco que me desgasta as fundações do bom-senso. Às vezes tão longe ao acordar, outras com a baba delas a escorrer-me pela cara ao deitar, tento não pensar nisso. Penso em sonhos de abandono onde sou eu quem diz adeus em jeito de triunfo. E isso tranquiliza-me duma forma tristemente solitária, onde o desterro é a vitória absoluta, o selo definitivo da individualidade. A discussão interna preenche-me os pensamentos vazios, esta dialética acaba por ser o meu hobby de eleição. O único. Deixei de sentir as pernas. Deixei de sentir o mundo. Há umas bandeiras a acenar ao fundo, são vermelhas, costumam ser sempre vermelhas, é o sinal da desgraça, a perseguição nunca acaba. Os meus ódios de estimação e a minhas pequenas perfídias não valem nada, mas sem elas eu desconstruo-me, e com elas eu anulo-me. A noite lança uma manta negra e acaricia a água com uma fina neblina, mas os olhos habituam-se. Tudo se pode tornar num hábito, há apenas que nutrir. Apenas, como se a dedicação fosse coisa pouca.