30 maio 2014

Seal

Não há apenas uma pessoa parecida com o Seal. Eu já vi vários e conheço alguns. Na verdade, todos os pretos são parecidos, desde que rapem a carapinha e não sejam etíopes desnutridos com maçãs do rosto extremamente salientes. São eles e os chineses. É um facto assente no nosso senso comum ocidental. Há sempre aquela estrutura comum nos pretos que, dependendo da maior ou menor composição muscular, os cataloga entre porteiros de discoteca, tipos do bairro ou obesos com a finalidade cómica de imitarem a bola 8 do snooker. A preta distingue-se do preto por ter um carrapito na tola. Simples. Depois o que muda é o tom de escuridão, que pode ir do café com leite de Cabo Verde – ou café com bagaço, talvez seja mais apropriado –, ao 100% cacau da Guiné. É isso que os diferencia quando tiram fotografias sobre um fundo escuro, se vai ser visível o seu rosto ou se apenas os dentes impecáveis e os olhinhos com um bocadinho de branco, como se fossem aquele gato maluco da Alice no País das Maravilhas, do qual não sei o nome e não me apetece ir pesquisar. No fundo, é uma estratégia de camuflagem enraizada na génese dos tempos: toda a gente sabe que lá em África os felinos costumam atacar à noite, daí a lógica.

O Seal, porém, não quis ficar igual à restante maralha de magrebinos e subsarianos. Porque ele é uma estrela do entretenimento que papa louras e faz filhos mulatos que têm tudo para serem jogadores de futebol excepcionais pelas suas intrincadas complexidades genéticas. Isto é, ele corporiza o “american dream” dos pretos. Como tal, o Seal tem uma particularidade diferente dos demais pretos: possui cicatrizes enormes. Noutro contexto, seria um “scarface” medonho. Mas como fica mal ostracizar minorias e há sempre aquele complexo de culpa latente nos brancos, então as cicatrizes até lhe conferem um aspecto sexy. Perguntem à Heidi. A Klum, não a menina dos Alpes, que esta se visse um preto era capaz de ir perguntar ao avô para ir ordenhá-lo. Sim, porque lá para a Suíça não se vêem pretos amiúde e não estou a referir-me às fotografias tiradas à noite: os pretos simplesmente não vão para lá porque os suíços não apreciam imigrantes e, valha a verdade, os pretos no meio da neve dão demasiado nas vistas e o Gelson Fernandes já lhes sobeja no que a negróides concerne.

E porque é que o Seal tem aqueles rasgos indisfarçáveis na tromba? Pode ser o segredo mais bem guardado do mundo a seguir ao 4º milagre de Fátima, que funcionou como uma espécie de “bonus track” dos três segredos originais, autênticos “hits” católicos do século XX, e que era o segredo que toda a gente queria mesmo ouvir, como é comum ocorrer entre os mais devotos a uma causa. Mas eu tenho uma explicação: o Seal é canadiano ou passou uma temporada no país da folha de plátano. E, como toda a gente sabe, no Canadá apreciam chacinar focas. “Seal” é “foca”, numa tradução literal, caso não saibam. Pois é, no Canadá, à falta de melhor para combater a modorra de invernos intermináveis e porque não dá para jogar hóquei no gelo “outdoor”, juntam-se umas foquinhas inocentes nas praias gélidas deles e, catrapumba!, dá-se-lhes um arraial de porrada com o auxílio de umas pás afiadas. É um massacre aberto a miúdos e graúdos. Tudo lhes serve. A fome de emoções fortes é tanta que chega-lhes apanhar uma foca mais distraída que esteja à mão de semear. Depois laceram-lhes o focinho, devastam-lhes as entranhas, limpam o sangue nos restos mortais e seguem para a próxima foca. Que até pode ser bebé. É limpar o sebo a quantas possam, todas ao mesmo tempo, sem remorsos alguns. São apenas focas, seres vivos descartáveis, pensarão os canadianos, é apenas a lei do mais forte a impor-se de uma maneira tão directa quanto cruel e uma espécie de controlo populacional que Deus delegou na ilustre nação que viu nascer os Nickelback. É prazer pelo prazer, assassinato por assassinato. As focas fazem aquelas caras docinhas, quais cães abandonados, e são usurpadas da sua vida quando pensavam que estavam a ir para uma estância balnear. Elas vão ao engano. Quando chegam ao resort, não é preciso muito tempo para perceberem o logro onde se meteram, como se tivessem sido enganadas por um promotor turístico manhoso que publicitava espeluncas sem o mínimo de condições sanitárias como bungalows com vistas maravilhosas para o mar. As focas metem-se para ali de papo para o ar, muito na sua, à espera que alguém lhes venha explicar aquela decepção e depois são brutalizadas num ápice, nem dá para pedir reembolso. Livro de reclamações nem vê-lo e, mesmo que existisse, estaria empapado e ilegível pelas vísceras que saltam em cada golpe desferido com sádico prazer. Acontece todos os anos: focas a atafulharem os areais do Canadá convencidas que, sim senhor, o Canadá é um pais civilizadíssimo, para depois levarem umas quantas pazadas pelos cornos abaixo desses sujeitos tão distintos e tão melhores que os fúteis dos EUA. O Seal, sortudo, teve a felicidade de se safar dessa barbárie e só apanhou de raspão, porque o canadiano que lhe queria chamar um figo estava bêbado e falhou miseravelmente a tentativa de rachar-lhe a cabeça em dois. Isto pressupõe que o Seal migrou em conjunto com as focas, o que é bem plausível, porque se o Tarzan cresceu no meio de macacos, o Seal foi criado por uma foca foragida do circo. E porque não? O Seal adorava o nutritivo leite de foca, de peixinho cru e de banhar-se em águas frias a fugir de ursos polares e por isso é que ficou com aquele corpanzil. Tudo faz sentido. Já o viram a dominar uma bola com o nariz? E a forma como abre uma lata de sardinhas? Irão surpreender-se.


Coitado do Seal? O gajo, para compensar as cicatrizes desse infeliz incidente canadiano, come gajas em barda, encaixa discos de platina com lamechices, desperta os sentimentos instantâneos de simpatia que estavam reservados ao Quasimodo e, aposto, deve ter uma verga monumental. Isto também faz parte do nosso senso comum e da experiência recolhida em vários vídeos disponíveis em sites da especialidade. Coitados são os seus sósias que, só por não terem cicatrizes, estão destinados a serem meras figuras decorativas deste armazém lúgubre em que se tornou a humanidade. Eles e as focas.

27 março 2014

Cristina Areia

Costumo ver com alguma regularidade uma sósia da Cristina Areia. Até julgo que trabalha ao meu lado. A cara é igualzinha. Tem o cabelo mais escuro, o que é pouco mais que irrelevante, tamanha é a profusão de pinturas capilares que circulam por aí e que facilmente dão nova cor às senhoras, tornando morenas com complexos de inferioridade em louras de raízes escuras sem pingo de amor-próprio. Mas é muito mais atarracada, mais larga e não tem aquele par de mamas que celebriza a Cristina. É aqui que a porca torce o rabo.

Ah, a Cristina Areia, um mamalhal nacional e natural, capa da Playboy e tudo. Até pensaram em fazer um filme, intitulado “Who Wants To Be Cristina Areia?”, substituindo o John Malkovich original e simplificando o enredo: Cristinas Areias surgiam em pop-up por todo o lado com as mamas ao léu, ao som de uma música gemida especialmente para o efeito pelo Pedro Abrunhosa. Às vezes só mesmo as mamas é que apareciam. É porque quando falamos em Cristina Areia só visualizamos mamas e por isso poderia reduzir-se a redundância aqui e ali ao longo de uma hora e meia de projecção. E depois haveria um paneleiro tipo Goucha a abrir a boca de espanto para a comic relief. Apenas isso. Já houve filmes piores, como todos aqueles em que a Soraia Chaves entra e não mostra as mamas. Seria um pedaço de entretenimento fantástico, mas houve um desentendimento de verbas com os produtores, a mama esquerda da Cristina julgou que deveria ganhar mais x% que a mama direita, porque estava ligeiramente menos descaída e possuía uma auréola mais geométrica, bem como um mamilo mais eriçado, e o projecto abortou, deixando ao soutien da Cristina o ónus de aturar duas mamas desavindas. Não brinquem com aquelas mamas, aqueles seios têm personalidade, talvez mesmo jurídica, e são eles que determinam o que a Cristina deve fazer e não o contrário.

Esta sósia é, então, uma versão revista e diminuída da Cristina. Enferma de todos os problemas de ser clone da Cristina, como aquela carinha sonsa e aquela forma de colocar a boca quando fala coisas que ninguém tem paciência para ouvir, e de não ser simultaneamente assim tão parecida com a Cristina, como não ter um par de mamas tão avantajado e de ser claramente mais quadrada. É uma existência tramada. Saber que se é parecida naquilo que é acessório e não se é parecida naquilo que poderia fazer a diferença junto da população masculina. Isto é, partindo do pressuposto que ela reconhecer-se-ia como sósia da Cristina, o que é duvidoso. Talvez o melhor para ela seja viver na ignorância. Viver na ignorância, aliás, é condição necessária e por vezes suficiente para ser feliz. Mas também não acredito que ninguém à volta dela não tenha reparado naquela semelhança indiscutível.

Esta sósia sai de casa de manhã, faz sinal para apanhar o táxi e o taxista “eh lá, eu conheço aquela boazona!”, vai todo lampeiro da faixa esquerda à faixa direita para apanhá-la, ignorando as buzinas e as velhotas que atravessavam na passadeira e que por um triz não levaram com a estrela do Mercedes no meio das ancas, e depois pensa com os seus botões “espera lá, ou esta gaja comeu dois hipopótamos ou não é a gaja que eu pensava…”. E não era, efectivamente. Nem o dinheiro da corrida lhe satisfaz, tamanho o desapontamento. Depois ela está no trabalho e todos os gajos querem ver o que está abaixo do pescoço, que não conseguem ver por estar tapado pelo monitor. E todos eles conjecturam “eh pá, está ali o canhão da Playboy!” “Quem?” “A gaja que saltava para a piscina e é filha doutro gajo que é actor!” “Ah!” “Deixa ela levantar-se…”, até que quando ela se levanta para comer frutinhas e cereaiszinhos  e essas coisinhas que as gajas comem com pavor de engordar o pessoal tem logo ali a maior decepção do dia. “Ah, é apenas uma gorda com cara de Cristina Areia…”. E o pior é que mesmo com as frutinhas e cereaiszinhos e essas coisinhas todas ela vai continuar a engordar. E quando chega a altura de ir para casa, o marido tem vontade de fazer alguma coisa quando vê a cara dela no intercomunicador, mas mal ela chega ao pé dele o sorriso esfuma-se. Ele depois pensará na verdadeira Cristina Areia, ou até na Cláudia Jacques ou na Dora, quando estiver por cima dela e não ousará olhar para baixo do pescoço dela, porque já sabe a decepção que isso produz. E ela não percebe bem porquê, mas toda a gente com quem se relaciona parece estar desiludida com ela. Como não percebe as coisas, desata a ver séries de gajas ao mesmo tempo que enfarda frutinhas e cereaiszinhos e essas coisinhas todas como se fosse uma ursa acabada de sair da hibernação. Para depois engordar ainda mais e metamorfosear-se num clone da Cass Elliot – era a gorda dos The Mamas & The Papas, para vossa informação. Sim, esses do “California Dreamin’”. Caraças, era esta -> http://en.wikipedia.org/wiki/Cass_Elliot

O que lhe vale é que ela deve ser uma jóia de pessoa, por muito irrelevante que isso seja quando o tópico em discussão é a parecença com as mamas. Perdão, Cristina Areia.

25 fevereiro 2014

Kristen Stewart

Sei lá quem é a Kristen Stewart. Tive de procurá-la pelos cantos desse grande globo que é a Internet. Já se sabe, a Internet é tipo um Aki, mas maior e melhor, porque tem coisas que não são só para a casa e não precisa de concorrer com o Leroy Merlin. Leroy Merlin é um nome multifacetado. Se for dito com uma entoação texana, parece um jogador de basquetebol afro-americano recrutado no draft duma universidade do Alabama pelos Minnesota Timberwolves (ainda existem?); se for dito com pronúncia francesa, parece um artigo de luxo, quiçá exposto em Versalhes com prioridade sobre as panelas da Joana Vasconcelos; se for dito em português, parece parvo. Grandes superfícies dedicadas à bricolage são também, genericamente, sítios a atirar para o parvo, onde lésbicas piscam os olhos umas às outras, assim naquela de desafiar as Martinas Navratilovas dos subúrbios a sacarem das suas fitas métricas do bolso traseiro das suas calças de ganga e compararem tamanhos, nem que seja do lápis amarelo e preto que carregam orgulhosamente por cima da orelha, numa espécie de recado aos mais desatentos que ainda não tinham reparado no penteado curto com aroma a Old Spice. É assim o mundo formidável dos grandes armazéns de bricolage. Lugares onde há vasos, azulejos, motosserras e sacas volumosas de coisas pesadas, que hão-de servir para qualquer coisa lá para o quintal das traseiras ou apenas para o cestinho do gato, e onde é possível andar com o rego traseiro à mostra e parecer uma autoridade no assunto, tudo isto para o deleite de gente bruta ou então da simples parada de estranhos curiosos.

Lá fui à procura da Kristen Stewart. Tinha uma vaga ideia de que ela pertencia a uma série de vampiros. Reconhecia-a como ligada a um fenómeno juvenil qualquer, a fronha não me era estranha. É claro que não era dos Tokyo Hotel, dos quais já ninguém se lembra, nem dos One Direction, que hão-de cair no esquecimento até 5ª feira. Era daquelas pitinhas americanas que enchiam as capas das Bravos e afins, bem embrulhadinhas num plástico ranhoso que é para que ninguém fanasse aqueles dois brincos rosa-pindéricos que atraem miudinhas dos 10 aos 16 como aqueles electrocutores de luz roxa atraem as moscas nos bons velhos estabelecimentos de restauração pré-ASAE. A metáfora mosca/miudinhas não é inocente. E lá a encontrei. Era mesmo duma série de vampiros. Parece que vampiros estão ou estiveram recentemente na moda. Quero acreditar que foi a forma mais inteligente dum qualquer nerd com medo de ir à praia com os amigos fazer com que a palidez doentia parecesse cool. Foi assim durante algum tempo, era ver as pitinhas vestidas de preto e a fugir do sol para trocarem chochos umas com as outras nas escadarias mais recônditas que pudessem encontrar, ambicionando ter caninos protuberantes, bebendo groselha com pouca 7-Up como se fosse sangue e jogando o jogo do copo para poderem dizer “o copo mexeu-se mesmo e tive um amigo meu que falou com uma rainha egípcia que conheceu a mãe dele noutra encarnação e ele nunca mais ficou a bater bem da tola” com toda a propriedade. Mas já houve a moda do Diablo, dos gigantes porta-chaves gelatinosos que pareciam o vírus da gripe, dos dinossauros, do Harlem Shake e até a Casa dos Segredos fazia as parangonas de qualquer mural de Facebook que se preze. Ou ainda faz? Ainda faz? A sério? Mas não me tinham dito que a crise já tinha acabado?

Ser estrela feminina para adolescentes e pré-adolescentes femininas deve ser tramado. As miudinhas devem odiá-la. Queriam ser como ela para poder sentir a mordedura do Robert Pattinson (também apanhei-o numa curva da Internet), mas invejam-na de morte e matavam-na aos guinchos e repelões no cabelo se a apanhassem à frente. Os miúdos também não lhe ligam muito por aí além, já que ainda estão ocupados a jogar à bola ou querem cenas mais hardcore, pelo que o rabo duma Carolina Torres é-lhes mais apelativo que aquela figurinha desenxabida da Kristen. Já a estrela masculina é “fofinha” e “queriducha” para elas e um “paneleiro” para eles. As estrelas adolescentes têm outro obstáculo nas suas vidas: quando começam a crescer fazem figuras tristes das quais demoram a recuperar. Veja-se o caso da Hannah Montana, que agora é Miley Cyrus e dá o cu ao mundo, e da Britney Spears, que precisou da mão do Will.I.Am para voltar à velha forma xunga-chique, só para citar dois exemplos. Os gajos geralmente refugiam-se no álcool e drogas e engordam para caraças, almejando ser como o Mickey Rourke e desejando que a sua desfiguração precoce lhes renda algum papel de relevo no futuro, para depois irem escrever livros de auto-ajuda onde o bottom-line é “tenham juizinho e não façam como eu fiz” e cujo destino é a congregação de poeira ao lado dos livros da Margarida Rebelo Pinto e do gajo do Big Brother. Ser estrela adolescente é garantia de um passado embaraçoso que nunca mais as abandonará e que tende a torná-las personagens para lá do patético. A Ana Malhoa também foi um projecto de estrela adolescente. Penso que não posso ser mais explícito.

Eu tenho uma fotocópia da Kristen Stewart a morar perto de mim. Pitinha dos seus 16 anos, pose distante e aluada, tão característica dos adolescentes, com os seus adornos típicos e roupa de marca, trocando mensagens abreviadas através de um chat qualquer do seu smartphone. Tem a cara assustadoramente parecida com a Kristen, com a notável similitude a provir essencialmente do seu queixo. Sim, o queixo da Kristen Stewart, aquele afunilar de linhas que faz a cara parecer um triângulo isósceles invertido. Dantes só havia o queixinho da Reese Witherspoon, que também é parecido com a da Kristen. Mas o queixo da Reese transpira a bimbice, enquanto que a Kristen nem sequer é loura para ser tão bimba. Para lá caminhará, é só preciso termos calma. Esta pitinha tinha futuro enquanto dupla da Kristen. Tem estilo, um certo swag restringido e discreto quando retira os óculos de sol e revela uns olhos redondos e esverdeados, mantendo os polegares a tocar no ecrã do seu i-Phone Android Touchscreen Appstore X-5000 Deluxe Pro. Imagino-a no seu quarto pejado de posters e de roupa espalhada pelos cantos, fugindo à chamada da mãe para o jantar, aperfeiçoando a arte de “estar chateada”. Adolescência tem tudo a ver com aborrecimento. É aborrecido ser e é aborrecido não se ser durante a adolescência. Os planos vão e vêm neste período de muitas marés, porém aquele queixo já não irá mudar por aí além. Que grande queixo pequenino, julgava que só na América é que havia queixos assim. Se calhar, a pitinha até é filha de um relacionamento proibido de um desses Elders que andam para aí, que acho que são mórmones e andam sempre aos pares, mas nem todos devem ser exemplarmente devotos e alguns devem dar as suas facadinhas por aí, mesmo que não abordem ninguém directamente e a sua toilette consista exclusivamente em camisas brancas, calças pretas e gravatas escuras do mais religiosamente unsexy que pode haver – e por alguma razão a igreja deles é dos “últimos dias”, aquilo não tem mesmo saída. Acho sinceramente que esta Kristen até tem potencial para dar mais nas vistas dentro de pouco tempo que a própria Kristen, e não falo das capacidades pseudo-vampirescas. Só tem é de sobreviver incólume à adolescência, o que já é um grande desafio.


Quem também está a ficar com um queixo tipo Kristen ou tipo Reese é a Frances Bean, a filha do Kurt Cobain. Mas não vão para o Aki falar destas coisas, eles não saberão reconhecer a genialidade deste gossip e acabarão por recomendar que tragam o casquilho da próxima vez para poderem ajudar.

27 janeiro 2014

A Bancada da Casa-de-Banho

A bancada do lavatório da casa-de-banho é um lugar mítico para as mulheres. É lá que se mede o grau de sofisticação e aprumo das donas. E é uma medição bastante quantitativa: o que conta é o número de boiões, frascos e estojos que se acumulam por cima da bancada, num festival de marcas e de cores quase sempre desalinhadas. Só elas conseguem ordenar aquele caos, discernir a utilidade daqueles produtos e artefactos e retirar um estranho prazer quando conseguem, apesar de tudo, adicionar um novo creme ou um novo spray para cima da bancada. Cabe sempre mais alguma coisa.

Podiam guardar aquilo tudo num outro compartimento? Podiam, mas não seria a mesma coisa. Primeiro, porque assim estão a dizer-nos sem palavras que toda aquela beleza pela qual nos apaixonámos não é assim tão natural e requer todo um manancial de aditivos e práticas, por vezes demoradas, para estar minimamente consumível pelos olhos masculinos; segundo, porque esses outros compartimentos já estão reservados por outras mistelas que saíram de moda (e que irão inevitavelmente regressar) ou que pura e simplesmente não servem mais. O que está em cima da bancada é o mínimo indispensável para uma adequada manutenção da fêmea. Muitas das coisas nunca deverão ter sido utilizadas sequer, mas isso não interessa porque poderão vir a ser e uma mulher não quer ser apanhada de calças na mão – isto é, se há bancada, que se preencha com tudo aquilo que fez, que faz e que poderá vir a fazer falta. E por muito que isto nos surpreenda, certas bisnagas, na sua tímida dimensão, podem comportar loções que valem mais que a platina. Tinha fortunas empatadas em cima da bancada da casa-de-banho e nem pensava muito nisto. Uma toilette feminina nunca se satisfaz com um pincel e uma caixa de maquilhagem; precisa de demãos, precisa de diversidade, precisa de um toque disto e de um toque daquilo. Uma bancada de casa-de-banho feminina é, invariavelmente, composta por uma míriade de pequenos frasquinhos e de outras coisas pequeninas e nunca por um grande frasco de after-shave ou outra coisa grande qualquer. Seguindo esta regra, é fácil acertar num “blind-test” se determinada bancada é de uma casa em que habita uma mulher ou não – é só saber se é possível ver o fundo ou, quanto muito, se os objectos que estão em cima da mesma contam-se pelos dedos das mãos.

Porque, ao invés, uma bancada da casa-de-banho é um lugar extraordinariamente limpo para um homem que não seja demasiado metrossexual. Numa bancada masculina os objectos são facilmente catalogáveis e não oscilam muito de um pente, um frasco de gel, um after-shave, um perfume e uma escova de dentes com a respectiva pasta ao lado. E é só. É de um minimalismo atroz para qualquer olho feminino, ver tanto espaço por cobrir, tanta pedra desnuda e fria a pedir aquele aconchego que só um laboratório francês qualquer consegue proporcionar por intermédio de mais um creme revigorante especial em forma de frasquinho. Elas não aguentarão tanto espaço livre e logo tratarão de colonizar a bancada. Logo o homem vê os seus pertences colocados a um canto e a sua movimentação de braços limitada naquele espaço, sob pena do seu desajeitado manusear derrubar e eventualmente quebrar aquele verniz xpto que custou os olhos da cara.

A bancada que eu conheci era feminina. Pejada de utensílios e aplicativos diversos, como se a Avon tivesse despejado o seu catálogo na minha casa-de-banho. Somente me era permitido confiar na utilidade dos mesmos e sonhar com a cor original da bancada, subjugada que esta estava perante o peso de infindáveis pedaços de vidro e plástico de várias cores. E vivia relativamente bem com isso. Mas ultimamente a minha bancada masculinizou-se. Ganhou testosterona e correu com aqueles trastes. À primeira vista, já não é a mesma bancada. Parece que cresceu, que é uma espécie de sucedânea revista e aumentada da bancada que me era familiar. Mas é tudo uma ilusão. A bancada é a mesma, o que se foi embora foi a mulher e com ela todo o exército de acessórios de beleza. Agora a bancada respira, é possível ver um pedaço de cotão ou outro, de vislumbrar um cristal a brilhar quando o foco de luz incide num ponto certo. Está uma bancada “à homem”, grande e limpa. Há eco na casa-de-banho. Já não há mais cabelos longos a entupir o lavatório. O cheiro do verniz esfumou-se. Adeus às rodelas de algodão. Os pincéis e limas foram tratar de obras de reconstrução facial para outras bancadas. É muito fácil encontrar o meu perfume agora, é tudo aquilo que está do lado direito da torneira.


Assim sendo, a bancada do lavatório da casa-de-banho é agora um objecto à imagem do seu homem: um espaço grande e arrumadinho que dispõe de espaço suficiente para acomodar um toque feminino que lhe dê uma corzinha e alguma vivacidade, desde que isso não sacrifique a sua liberdade de movimentos nem a sua funcionalidade. A bancada da casa-de-banho é agora, acima de tudo, um pedaço de pedra. Trabalhada para conter coisa nenhuma e estar sempre impecavelmente brilhante.

14 novembro 2013

No Fuck, No Drive

“A terra a quem a trabalha!”

“O povo unido jamais será vencido!”

“Liberdade para Otelo!”

“Vota APU!”

“No fuck, no drive.”

Notam algum padrão? É verdade, são todos slogans de contestação. A maioria dos quais do período 1975-1985. Estiveram todos pintados nas paredes e muros da minha terra. É uma terra propensa a graffittis da mais variada ordem. Mas aquele último foi o que realmente despertou polémica.

Um grito existencialista? Niilismo à solta? O apelo revoltado de uma minoria? O distorcer de uma mensagem comercial com fins subversivos? Propaganda ambientalista? Desespero celibatário? Ninguém sabe ao certo. Provavelmente, nem o autor. Que teria, certamente, um pouco de génio e de louco e ficou anónimo para todo o sempre.

O mistério adensou-se em torno deste lema, ganhando aura de mito que sobreviveu à voragem do tempo. Até hoje continua a atormentar a “intelligentzia” local. Sábios, peritos de linguística, estudiosos da semântica e simples curiosos debruçaram-se sobre o significado concreto em acesos debates filosóficos, mas não foi atingida nenhuma conclusão concreta. Ninguém quis assumir a interpretação literal “sem foda, sem condução”. Era óbvio que havia algo mais escondido, apenas não havia consenso sobre qual a mensagem subliminar subjacente. Ou mensagens. E então optou-se por deixar a frase quieta, tentar ignorá-la, como se de um monstro adormecido se tratasse. Nenhum livro sobre a história da terra menciona esta frase, devido ao receio de exacerbar o demónio da dúvida que existe em cada local.

Em tempos idos, verdadeiras romarias de jovens, cavalheiros casados, senhoras distintas, velhos jarretas, crianças inocentes e escroques da sociedade se dirigiam àquela parede pejada de misticismo para apreciar a caligrafia escorreita daquele graffitti e a sua misteriosa força. Era uma espécie de azinheira de Fátima. Acenderam-se velinhas, examinaram-se pedaços de tinta à lupa, tiraram-se fotografias. Houve quem chegasse ao limiar da loucura, puxando os cabelos e anunciando o aproximar do Juízo Final. “VAMOS TODOS MORRER!!!!”, clamava o sr. Robalo, que claramente mordera o isco provocatório desejado pelo autor da frase. “Isto é só mau inglês e a tentativa de surrealizar com o célebre «No pain, no gain»”, tranquilizavam os mais cépticos. Mas nem eles próprios acreditavam naquilo que diziam, na vã tentativa de se convencerem a si mesmos de que não havia algo mais críptico e superior no cerne da questão.

Este jargão destronou sem esforço outros dizeres que até aí tinham gerado alguma celeuma, como “Vete [sic] ao espelho”, “Culha, o vosso pai” ou “Vitinha e…”, este último o graffitti de contornos mais agathachristianos alguma vez presenciado na terra, com a suas pequeninas reticências a ensombrarem o vigor com que a palavra “Vitinha” tinha sido pintada em todo o comprimento do muro. Quem era o Vitinha? “E” o quê, Vitinha? Porquê esta dúvida infernal? Mas a partir de “no fuck, no drive” nada mais seria igual. Os partidos políticos aburguesaram-se e deixaram de produzir murais com a qualidade de outrora, preferindo os mais assépticos cartazes com gente sorridente. Os produtores de graffittis simplesmente já não sabiam ler nem escrever e apenas colocavam rabiscos com nítida influência árabe, imperceptíveis e declaradamente anti-artísticos e apolíticos. O público geral tinha finalmente ganho consciência das intricadas perturbações surdas que assolavam as mentes da localidade. “No fuck, no drive” foi o princípio do fim, o último dos slogans dos bons velhos tempos, o derradeiro “statement” de uma estética meio punk, meio vanguardista, decididamente “anti-establishment”. Nunca se tinha visto e nunca mais se voltou a ver.

“No fuck.”

“No drive.”


Arte urbana, política de rua, cérebros activos a explorarem os limites da criatividade. Tudo de borla, à frente dos nossos olhos, naquele outrora singelo muro. Um ponto alto da História da minha terra.

05 novembro 2013

Maria

A sério que há qualquer coisa sobre a Maria. Não que ela seja um trambolho. Não é. Mas o que faz com que os homens comecem a salivar quando a vêem? Ela teoriza com isso, diz que é por ser simpática e por ter confiança em si mesma. Tudo bem, é certo que isso ajuda. Mas não explica tudo. Consigo nomear uma mão cheia de casos semelhantes sem o mesmo sucesso. Consigo identificar uma pazada de gajas mais apelativas fisicamente que ela e, é isso mesmo, essa pazada de gajas não desperta o mesmo burburinho junto da turba masculina. Deve ser o conjunto, a soma das partes inferior ao todo, que faz a diferença não totalmente perceptível por mim. E ela, embora talvez não tenha consciência da relativa facilidade com que cativa as atenções másculas em comparação com outras gajas, está ciente que é uma musa para muitos. Depois é só escolher: este é o grande dilema dela, a tomada de opções, aquilo que lhe dá dores de cabeça. É a crise da abundância.

Maria é daquelas que está terrivelmente apaixonada por umas semanas até mudar a agulha para outro candidato que entretanto conheceu inesperadamente em sítios tão díspares como um restaurante, uma discoteca, a praia ou um transporte público. As coisas parecem bastante fáceis. Amor vai e vem como uma locomotiva que destranca, dá a volta e engata agora no sentido oposto para iniciar uma nova viagem. Não, as coisas não parecem fáceis; elas são mesmo fáceis. Os homens imediatamente passam a contactá-la via Facebook, e-mail, SMS, instant messaging e coisas de contacto virtual que eu nem sei que existiam e logo se arranjam saídas, almoços, jantares e cinemas com uma facilidade impressionante. Ela diz-me que são sinais dos tempos. As redes sociais estão aí em força e apressam a coisa, mesmo que o contacto físico tenha sido ínfimo. Isto custa ao indivíduo tradicional que gostava de espreitar a amada a ir à janela no cimo de uma árvore, fá-lo sentir a preto-e-branco, de volta ao tempo pré-industrial. Até o Hi5, vejam bem!, o Hi5!, pode servir para estas coisas e ela assegura-me que já houve casamentos que começaram no Hi5. Vale tudo, má escrita, fotos escandalosamente pretensiosas, conversas ridiculamente formatadas, gostos confrangedoramente deslocados só para manter o chat vivo, nada se nega à partida. Maria não costuma dizer que não. E se disser, é porque o gajo que a abordou é mesmo mau. Meeeeeeeeeeeeeeeeeesmo mau, talvez não tenha os dentes posteriores e nem sequer tenha concluído o 9º ano. Esta abertura também propicia a aventura, certo, mas ela continua num pedestal de adoração que raramente assisti.

Eu sei disto tudo porque me tornei numa espécie de confidente dela. Devo ter sido o único que não me babei quando a vi, nem lhe fiz algum convite para qualquer coisa ao fim de cinco minutos, nem sequer partilho fotografias com grupos sorridentes em sítios com muito hype nas redes sociais. Por variados motivos, como ser um atadinho no contacto com gajas e, principalmente, creio eu, por não estar mesmo interessado nela. E então acabei por tornar no “amigo”. Ou, como eu penso várias vezes, no “desgraçado”. É péssimo. Não pedi por este estatuto e não o quero. Parece que fui entalado num enredo de comédia romântica com a Jennifer Aniston e estou ali num plano secundário, algures entre o gay e o geek, naquela zona cinzenta dos “gajos que não papam nada e são suficientemente totós e confiáveis para ouvir os queixumes das gajas”. Sou uma espécie de “comic relief” dela. Ter a sensação que estou a desempenhar esse papel num filme de gaja já é muito mau por si só. Viver essa sensação sem haver câmaras à volta nem um retorno monetário à minha espera é visivelmente perturbante. Fui ficando amarrado a esta situação e agora é difícil dar-lhe a volta, vai-não-vai lá vem ela meter conversa. E há uma pressão social enorme para que eu a ouça, desde o mel do seu palavreado e maneiras até aos gajos que lá no fundo invejam-me por eu ter captado a atenção dela. Para complicar as coisas, o zénite desta proximidade apanhou-a no seu auge multi-relacional e a mim no meu nadir sentimental. E agora ela sente-se no direito e no dever de fornecer-me indicações tendo em vista uma vida sócio-sentimental esplendorosa e de me enviar links para músicas upbeat de gajas. O que tem vindo a delapidar ainda mais o meu depauperado coração e a fazer-me sentir mais nauseado com o meu contexto actual.

Estas náuseas começam a alcançar níveis físicos; não é apenas estar a dizer de boca cheia “isto mete-me nojo!”; não, é mesmo sentir o estômago a revolver-se, um vácuo que começa a centrifugar cá dentro e uma nítida sensação de mau-estar a apoderar-se. Penso em afastar-me gradualmente dela tanto quanto possível, vou ignorá-la até ela perceber que é para ir pastar longe. Não bastava eu estar ainda à procura dos cacos da minha vida partida, como agora ainda tenho de a ouvir a vangloriar-se pelo excelente fim-de-semana com um par de horas dormidas em constante festa com amigas e amigos que acabam todos na casa uns dos outros e a dormir sabe-se lá com quem, ou a nova aquisição do Facebook, ou sabe-se lá que mais, quando sinto que o meu ponto alto destes dias é casualmente encostar-me a uma gaja boa num transporte público que não se queixa com o meu tocar. Isto é muito triste, mas, enfim, foi aquilo em que me tornei. E chega. Chega de conversas que não pedi e que não me fazem sentir melhor, bem pelo contrário: é que se a Maria consegue tanta actividade sentimental, porque é que eu não consigo?


Bom, ela é gaja e abusa de vestidos e saias e sorrisos largos. É um grande factor diferenciador. Mas mesmo assim, porque é que num espaço de 3 minutos ela recebeu 3 convites para ir almoçar de grupos de gajos diferentes? Há mesmo qualquer coisa sobre a Maria. Que eu não acho que seja nada de mais, assim como o filme em si, que era uma comédia como as outras e que recebeu demasiada atenção face à que deveria ter tido. Mas quem sou eu para avaliar, afinal? Estou perante o que será uma comédia de qualidade duvidosa e enfiado num cenário de tragédia. Não consigo apreciar as coisas com critério. Não há espaço para uma pequena gargalhada sequer. Maria paira sobre mim para me lembrar que há quem tenha o toque, o olhar, o estilo, alguma coisa intangível. E há quem não tenha. Há que saber viver com isso.

31 julho 2013

A Crise

Há realidades que não são exclusivamente nossas mas que tomamos como tal. Porque há uma identificação tão forte, como uma metáfora perfeitamente esgalhada por uma entidade abstracta, que não resistimos a dizer que aquilo, que não é somente nosso, só pode ser nosso. Pode ser feitio. Pode ser defeito. Pode ser a idade a avançar e é a acumulação de experiências que nos leva instintivamente a declarar “isto aqui é a minha cara, já me aconteceu exactamente isso”. Ou só porque sim. É como aquelas letras de canções que nós pensamos que foram escritas para nós. E agora consigo jurar que o Billy Corgan e, pasme-se, o David Fonseca escreveram letras a pensar em mim. Mas houve um tempo em que tudo era belo e puro e em que eu não dava por nada. O Dentão dizia que tinha uma máquina que fazia fatos do He-Man e o Raposo dizia que tinha um carro que subia paredes “na boa” e que possuía um botão que, uma vez pressionado, fazia com que o carro crescesse sem parar, sendo impossível travar o seu crescimento e o carro nunca mais voltaria ao normal. É claro que o Dentão recebeu montes de encomendas de fatos que jamais concretizou e o Raposo nunca ousou carregar nesse botão, que nem era bem um botão, e também nunca demonstrou que o carro subia as paredes. Uma vez ainda experimentou mostrar a versatilidade do seu veículo, mas aquilo foi contra o rodapé e só levantou ligeiramente as rodas da frente. “É das pilhas, que estão fracas”, desculpou-se. Depois vingou-se e teve um Nikko telecomandado. A vida corria bem. Havia lojas abertas por toda a terra, sabíamos onde comprar saquetas de cromos “que dão prémios”, onde estavam os Bollycaos que eram fofinhos e cremosos e não os duros e oleosos donde coleccionávamos os “Tous”, jogávamos ao quarto-escuro sem falsas intenções e todos os velhos que conhecíamos pareciam que tinham sido sempre velhos e nunca iriam passar daí. Havia o bêbado Vaidoso e toxicodependente Acúrsio, a Fininha e a avó do Bispo e toda a gente dizia olá uns aos outros. Éramos gente importante e estávamos destinados a grandes feitos.

As coisas foram sendo mais ou menos assim, até mesmo quando descobrimos que já nos conseguíamos ejacular como nos filmes, pinguinhas de sémen muito aguado após visionamento de VHSs com nomes tão sugestivos como “Rampa de Bicicletas” ou mesmo outras só com uma etiqueta marada que praticamente denunciava que aquilo era “filme de foda”. Constituímos alguns punhetódromos, Ron Jeremy passou a ser um “household name” entre nós, começámos a apalpar gajas e houve quem fumasse o primeiro Surf 18 ou Golden American, autênticas zurrapas de tabaco. As lojas continuavam a bombar e foi nesses espaços comerciais que começaram a cair os primeiros gadgets, que naquela altura não eram mais que um Spectrum. Os 128k, já com leitor de cassetes incorporado, não façam confusão. Era o topo. O Dentão aprimorara uma técnica infalível para carregar os jogos utilizando uma chave de fendas no parafuso por baixo do leitor de cassetes. O Raposo deu um novo significado intemporal aos jogos “Decathlon” e “WEC Le Mans”, que não vale a pena explicar textualmente, e demorou a perceber que carregar no Space durante o carregamento de jogos abortava esse mesmo carregamento e conduzia a muita frustração, directamente proporcional ao tempo dispendido. O Securas comprou um aparelho com teclas em espanhol e foi gozado por isso, mas não fazia muita diferença: todos esperávamos horas a fio para que um jogo carregasse naquele festival psicadélico de cores e ruído que hoje até parece estar na moda e passar muito na Cidade FM, quer teclássemos em “Enter” ou “Cargar”. O Varetas e o Rajã já tinham um computador “a sério”, um Windows qualquer-coisa com monitor VGA, que eu não sabia o que era, mas que só podia ser coisa boa, porque tinha MS-DOS, cursores muito tecnológicos e as coisas vinham em disquetes, que era qualquer objecto apenas ao alcance do pessoal com mais dinheiro. Eu até pensava que eles conseguiam entrar dentro de ficheiros do FBI, CIA e etc. e poderiam salvar o mundo desde que decifrassem um código e se esquivassem a mensagens tipo “Abort, Retry or Ignore?”. Mas desde que a gente jogasse Arkanoid ou F1 Manager estava tudo OK. Não havia cá invejas. Depois vieram as Mega Drives e o Securas, sempre um passo distante dos demais, optou erradamente pela Master System e, embora defendesse que o Alex Kidd era “altamente”, o certo é que passava horas a jogar Mortal Kombat e Fifa na casa do Dentão. O desprendimento era tal que o Dentão teve um casaco da “Rébuk” que vendeu ao Securas e o Ceras comprou outro igual. Tudo perfeitamente normal. O café do pai do Daninhas continuava lá ao pé da esquina, muito pequenino e tresandando a fritos, mas com uma afluência incrível e malta muito certinha que fazia o totobola. Muita gente trabalhava nas fábricas, nas lojas e nos cafés da terra. Havia já muitos carros por todo o lado, o que não nos impedia de jogar à bola, de cautchu, quando as havia, na rua, no alcatrão, em terra batida e conhecíamos sempre os tipos que se aproximavam para reclamar um “desafio”, embora as coisas pudessem tornar-se complicadas sempre que traziam o irmão mais velho, que já tinha namorada “a valer” e que sabia o que era foder – como nos filmes. “Uau”, pensávamos, “um dia quero ser como tu, bate-chapas e sem dois dentes”. Tempos bonitos. Lá fechou aquele restaurante ao qual só fomos uma vez e até dissemos que “sim senhor, aqui come-se bem”, mas nunca lá voltámos. Desconfiávamos que aquilo não seria grande espingarda por estar sempre vazio, porém ficámos agradavelmente surpreendidos por ser porreiro. O certo é que não voltámos. E quando esse restaurante fechou, reabriu com nova gerência e voltou a fechar e a reabrir com muito mais celeridade. Ou então era só o tempo a passar mais depressa.

O tempo passava, com efeito, mais depressa. Começaram a vir chineses, indianos, brasileiros, os cabo-verdianos passaram a ser a maioria nas escolas que já não eram as minhas e o pessoal começou a andar de carro. Já não se jogava à bola. Começaram a proliferar a TV Cabo e as Playstations. O grupo tinha perdido a sua consistência inicial e entraram novas personagens, como naquelas séries que começam a perder audiência e a dar espaço a tipos que nunca foram destinados para ser os principais, mas que tinham os seus bons episódios de quando em vez. Teimávamos em ser felizes, mesmo com algum sentimento miserabilista tão pós-grunge a acossar-me aqui e ali. É que, assim em termos gerais, toda a gente vivia bem, mesmo que não se soubesse bem como. E ainda não tinha visto nada, mas julgava que podia ter qualquer coisa para me angustiar, nem que fosse o tédio. Era assim para o “fixe”. Esse grande “cool” que era o Kurt Cobain já se tinha matado mas tinha deixado sementes e um grande merchandising. Formámos uma tertúlia de devassa num café próximo e tornámo-lo no nosso território. O dono, o Tio Queiroz, barafustava e coisa e tal, mas éramos nós que lhe enchíamos os bolsos com as minis e os cariocas de limão. Foi a fase do delírio puro, do hedonismo, da desbunda pela desbunda, como se quiséssemos sorver, sem limites, os últimos raios de adolescência que nos faltavam. Lá vinha o Tio Queiroz com “vocês são escumalha!... o que é que querem para beber?” e as coisas foram-se passando, às vezes chegando ao vómito, às vezes conseguindo evitá-lo. As histórias são tantas que torna-se difícil enumerá-las. Era a abundância, o fabuloso mundo dos jovens proto-digitais. A evolução continuava inexorável, porém, e veio o novo milénio, com a internet e a fantástica possibilidade de obter álbuns que não tivéramos possibilidade de comprar ou de pedir emprestado, ainda que, ao princípio, a velocidade de download fosse tão rápida quanto a velhota do anúncio do Obikwelu. Curiosamente, nada aconteceu aos sistemas no ano 2000, a não ser ao sistema do Dentão, que quase se apagou no ano novo, de uma forma menos espectacular que o meu apagão de 1999 – em que, mesmo assim, recuperei heróico para ver o sol nascer no horizonte enquanto os outros todos já dormiam ébrios e vencidos pelo cansaço. Vieram as namoradas, posteriormente convertidas em digníssimas esposas, depois os filhos dos irmãos mais velhos, depois os filhos de nós mesmos. O grupo desintegrou-se. O café do pai do Daninhas começou a ser frequentado por outra gente. Pelo menos, parecia-me – eu próprio já não reparava bem, já não passava por lá amiúde. Disseram-me que já nem sequer era o pai do Daninhas o dono do estabelecimento. Mas não fiz caso, estava a jogar FM e a sacar cenas pela internet. Não reconhecer a gente tornara-se trivial. A terra começou a definhar, as lojas fechavam, a fábrica deu espaço a uma urbanização de luxo e eu pensava “que sa foda”, porque estava bem, embrenhado em sonhos de realidade e cada vez mais cínico, mesmo que achasse que podia estar melhor. Veio a acomodação e o desinteresse. Os primeiros velhos começaram a morrer, mas aquilo nada me dizia. Nunca fui bom a interpretar sinais pouco explícitos. Arranjei trabalho, o dinheiro começou a cair e, mesmo que tudo à volta começasse a parecer-se pouco com o que tinha sido, achei que estava no caminho certo, não reparando que o isolamento ia crescendo. Eles é que estavam mal, fossem quem “eles” fossem. Acabei por sair da terra e iniciar um novo ciclo. Pouco confiante, como sempre. Aquilo que me confortava era saber que havia outros piores e, valha a verdade, havia apenas um ou outro dia mau, mas o comboio continuava sobre os carris.

Ano após ano, tudo na mesma. Para mim. A rotina sedimentou-se de tal forma que qualquer desvio era uma dor de cabeça e eu não gosto propriamente de dores de cabeça nem do sabor do paracetamol. Fui ficando por aí, tentando evitar a chuva, passando por entre os buracos. O problema é que o mundo tinha mudado. Já nem sequer as televisões eram grandes objectos, a portabilidade instalara-se e com ela a banalização das relações. Quando dei por mim, toda a gente falava na crise. Já nem sei quando começou ao certo, mas sinto que ouço essa palavra diariamente há anos. E eu estive adormecido este tempo todo, embalado pelo “portuguese dream”. Que é um sonho tipo o americano, mas à nossa imagem: remediado, tímido, cumprindo os requisitos mínimos. Já não havia emprego. Já não havia gente conhecida. Os sítios cheiravam a mofo, tinham envelhecido como nunca pensei que envelhecessem. Os velhos iam morrendo todos os meses, sem nós nunca termos tido a oportunidade de lhes dizer adeus. E todos confirmavam “era uma grande pessoa”, como nunca reconhecida em vida. Outros, que eu ainda consegui ver agarrados à cama, mas já muito fracos para se agarrarem à vida. Morreram dias depois. “Um alívio para todos”, disseram-me os mais chegados. Comecei a sentir o círculo da morte a apertar-se mais em meu redor. Até o Tio Queiroz fenecera, soube meses depois, por acaso. Mas ainda eram os outros. Pensei que ia escapar incólume. Depois vieram as notícias inesperadas, os choques abruptos que nem trovões numa noite calma, e, finalmente, senti que a crise, qualquer que fosse a sua forma, também me tinha apanhado. “Daqui ninguém sai vivo” – não penses que és diferente. Porque a crise estava aí para democratizar a todos com o infortúnio. Fui atropelado pelo carrossel da crise, pela espuma tóxica dos dias. E estava a dormir muito bem, como se a minha muralha de esconder emoções dum Colunex se tratasse. A crise multiplicava-se em várias vertentes, fossem elas a crise económica, financeira, política, sentimental, de meia-idade, de valores, etc.. É um bicho resistente. Clamava-se por uma revolução e ninguém sabia ao certo o que fazer ou dava um passo em frente, esperançados que o outro, que pensava igual, tomasse a iniciativa, qual “mexican standoff” dos filmes do Tarantino. A não ser no Facebook. Aí toda a gente é gira e inovadora. O Facebook é um cancro, o maior deles, que nos consome sob a aparência de felicidade; é a droga da ilusão com que tentamos mascarar enormes buracos negros sentimentais que nos sugam a vida. E depois há os reality shows patéticos, absurdos, estupidificantes, mas que vendem. Vendemos a alma à tecnologia e a quem nos garanta que é possível ficar na mesma quando tudo à volta se desmorona e não temos como pagá-la de volta. Foram anos a abusar. A sustentabilidade era uma coisa de totós para totós e que, mais a mais, nunca saiu do papel. Vi gente a rir-se por tudo e por nada, das parvoíces mais inanes. Vi imbecis com poder a mais para as suas incapacidades. E agora tenho o meu coração feito numa autêntica passa. Estou mirrado. Assaltam-me memórias de tempos que me parecem extremamente felizes a esta distância e suspeito que estas fotografias vão-me causar ataques diabólicos de melancolia. Não queria ter de viver de recordações como o Vítor Espadinha, mas foi mesmo em Setembro que a conheci e não consigo deixar de identificar-me com ele. Choro mais nestes dias até do que quando era bebé de fralda. Como Midas-ao-contrário, tudo onde toco parece definhar. Sinto-me condenado a aguentar como puder, em longos serões solitários a olhar pela janela, e acredito, como o Sporting, que isto ainda não está suficientemente mau para que não possa ser pior. Pensei que nada ultrapassava o meu Bettencourt até que tive o meu Godinho. A terra, essa, já não tem comércio; as lojas encheram-se de graffittis e tags manhosas e toda a gente sabe que nos hipermercados é onde se compra a qualidade de vida, preferencialmente na época dos saldos. A terra morreu e ainda não sabe. Ninguém lhe disse e ninguém lhe vai dizer. Talvez alguém desconfie, quando houver uma mega-explosão ou aquilo tornar-se numa espécie de subúrbio de Joanesburgo, ou toda a gente que conhecer estiver definitivamente morta ou for encontrada morta no sofá da sala em elevado estado de decomposição. Estou abandonado. Estão todos demasiado ocupados a mandar mensagens instantâneas e a escrever mal, mas ninguém se importa, ninguém é suficientemente audaz para corrigir. “fdx tives te a fzer 1 q c a t dama lol” – é uma espécie de pintura rupestre dos novos tempos. Ninguém sabe se isto é uma pergunta ou uma afirmação. Pode ser uma nota de suicídio, talvez, quem sabe.