22 maio 2012

Clarabela


Ela vem com todos aqueles equipamentos de série femininos: gosta de roupa, sapatos e malas; perde tempo com dietas, sumos vitaminados e produtos comprados em ervanárias de vão de escada; não perde uma oportunidade de falar dos amigos e família, falando tanto que é pouco crível que haja um segredo que se aguente impune com ela; e é uma adepta fanática desse grande desporto feminino por excelência que é a fofoquice. Seja a fofoquice dos famosos, seja a dos que estão mais próximos: tudo é fofocável. Em cochichos com as amigas nas esquinas, em longas conversas ao telefone e em palavras dispersas no Facebook, todos os fóruns servem e mais alguns serão bem-vindos. Ela fofoca com todos, mesmo até com quem não manifesta interesse na fofoca. Julgo que é uma necessidade de libertação, como se aqueles fait-divers lhe esmagassem o estômago. É um vómito de alívio e nós estamos a segurar-lhe a testa. Na adolescência, deve ter comprado a Bravo alemã só para ver o David Charvet ou qualquer contemporâneo e forrar os cadernos, preferencialmente cor-de-rosa, com coraçõezinhos e fotografias, pedinchando aos pais para sair com as amigas de braço dado num Sábado à noite para uma discoteca qualquer. As contas de telefone (antes de 1998) e de telemóvel (desde então) nunca devem ter sido nada modestas. Pelo menos, não a imagino de outra forma.

Talvez não sejam componentes básicos que nós valorizemos por aí além, mas estão lá e fazem dela um bom exemplo de feminilidade. Se estes requisitos não estivessem minimamente reunidos, estaríamos aqui a lamentar a falta de algum deles e a dizer “ela bem que podia fazer mais o que as mulheres costumam fazer, que já não me sinto bem ter ela a arrotar cerveja enquanto insulta o árbitro quando vemos o jogo na televisão”. Há quem goste de mulheres-rapazes. Eu por mim tolero, desde que haja outros ingredientes adicionais. Mas ter uma tipa que tem o sentido de higiene de um gajo não é uma perspectiva interessante para mim. 

Depois, possui alguns extras: não é loura, nem é burra; tem uma cultura geral bastante razoável e é possível conversar-se com ela sem ser de trabalho ou de temas exclusivamente femininos, como o nome daquela cor que não é bem azul nem bem verde. Nota-se que possui alguma sensibilidade para os gostos masculinos – não que seja algo muito difícil de desvendar, mas nem todas atingem. No fundo, revela alguma experiência relacional, o que tanto pode encorajar os mais afoitos como assustar os mais imberbes. Em casa, porém, não deve ser nada de especial, porque isso não é nada chique para a mulher moderna, que está mais apostada em sobressair a vertente de fada do lar do seu cônjuge (e cônjuge é das palavras mais feias que podem existir, mesmo para fazer sentir mal o “companheiro” ou “parceiro” com todo o seu peso jurídico).

Ora bem, ora bem. Já se falou de requisitos básicos e de extras, mas o que interessa mesmo é o chassis. E o motor. Que é como quem diz, “então mas é gaja é boa ou não?”. A resposta é: não é boa. Mas também não é má. É normal. Talvez um pouco mais encorpada que a média, mas francamente normal. Sem ser especialmente bonita, não é feia. Tem mamas 1.8 de cilindrada num cagueiro movido a gasóleo, o que é razoável, levemente potente, mas nada de extraordinário. Com facilidade terá uma amiga que nos despertará primeiro as atenções, mas também não deverá ser o patinho feio do grupo. Não sendo magra, que “nunca foi” (segundo palavras muito imbuídas de fair-play da própria), também não é especialmente gorda, embora pudesse ter menos um quilito ou outro para efeitos de valorização pessoal. Ela é para os apreciadores de alguma chicha, decididamente não para quem gosta de top-models desportivas, mas também não será bem para os apreciadores de grandes churrascos que adoram camiões de carne. Ela está muito em torno da mediana, apenas com um ou outro pormenor distintivo. E depois, quando sorri, desenvolve duas marcas profundas na cara que delimitam com vigor as bochechas, exibindo com destaque os dentes posteriores. Essas marcas são tão fortes que, a uma curta distância, parece mesmo que tem dois círculos estampados na cara.

E é pelo facto de ficar com dois círculos estampados na cara que ela me lembra a Clarabela, especialmente as suas narinas – duas grandes bolas ali abertas nas trombas. Também me lembra a Popota, mas a Popota é demasiado gorda e muito cabeça-no-ar. A Clarabela também será demasiado magra, mas ajusta-se melhor, até pela idiossincrasia que emana das histórias da Walt Disney, especialmente na vertente “fofoca”.

Ao contrário de muitos reconhecimentos, desta feita primeiro olhei para a Clarabela e só depois para esta tipa. Sabia que naquele sorriso estava uma semelhança com qualquer coisa. Deixei a Popota de prevenção como melhor aproximação. Só quando vi com atenção um determinado desenho da Clarabela a rir-se de frente é que fiz “bingo!” e associei. Já lá vão uns anos e agora já não há nada a fazer, esta tipa parece-me mesmo a Clarabela. Que é uma vaca, para quem não saiba. Acho que, mesmo assim, mais vale ser comparada com uma vaquinha inofensiva, embora claramente periférica no cômputo das personagens Disney, do que com uma hipopótama selvagem.

E porque é que é a segunda gaja que eu comparo com personagens de animação? Intrigante. Cá para mim, é porque os cartoonistas e os argumentistas fizeram um excelente trabalho de caricatura, tanto físico como psicológico. Melhor do que a realidade alguma vez nos poderá oferecer.

21 maio 2012

Nélson Oliveira


Na minha terra havia, há e haverá sempre muita gente parecida com o Nélson Oliveira. Mais uma vez, não se tome a parecença de forma literal. É verdade que conheço alguma gente com as orelhas bem saídas tipo Dumbo e que talvez tenha marcado um golo decisivo no alcatrão lá da escola, mas não é a isso que me refiro. Estou a referir-me à capacidade, intrínseca ou partilhada, de se promoverem como grandes estrelas sem haver grande sustentação para tal.

O Nélson original talvez seja bom rapaz. Talvez venha a concretizar o potencial que se lhe augura. Talvez. Mas, para já, tem menos golos e menos minutos que o Postiga em termos de ligas nacionais. E se é possível estabelecer comparações com o Postiga, então é porque a coisa não é boa. Independentemente disto, é impossível obter uma crítica adversa em relação aos poucos minutos que ele esteve em campo – se ele se deteve com a bola quando tinha um colega em boa posição, leremos “é a vontade natural em mostrar serviço”; se ele falhou redondamente numa posição favorável, é porque “o ângulo era já muito apertado”. Por ângulo apertado, entenda-se um ângulo a tentar entrar num comboio que furou uma greve dos transportes e não um ângulo claramente inferior a 45º do poste mais próximo – mas o tema dos ângulos apertados ficará para outras núpcias.

Depois de um Verão em alta, onde um ou outro golo pelos juniores aguçou o instinto inato para a deificação por parte dos portugueses em particular e dos lampiões em geral, Nélson passou por uma fase de obscurantismo e, na melhor das hipóteses, medíocre. O culminar da grande progressão desta época traduziu-se em meia-dúzia de remates jeitosos e no relegar de Yannick Djaló para o extremo… da bancada. E, se há uma segunda lição a retirar das comparações, é a de que o gajo que pode ser simultaneamente comparado com Postiga e Djaló não pode ser necessariamente bestial. Pelo menos, por enquanto.

Admiravelmente, estes parcos atributos valeram-lhe capas de jornais, chamada à Selecção, spots publicitários, prémios de revelação e admito até que seja a cara do emblema dele na montra oficial do clube. Nunca fazer tão pouco rendeu tanto. E a carreira dele ainda mal começou.

Também eu conheci lá na terra alguns gajos assim. Tipos de quem se dizia, “ah e tal, o gajo é muita bom”, “lá vem ele para arrebentar com isto”, “este gajo tem o cu virado para a lua” e cenas do género. Sempre foi uma terra muito pródiga na construção de tigres de papel. Desses gajos eu nunca vi nada de especial: nem soft skills extraordinários, nem um físico assim tão portentoso, nem acções, nem nada. Mas tinham uma pose e uns soundbytes deliciosos. Tinham jactância e positivismo irracional a rodos. Auto-promoviam-se com estórias mirabolantes, relatos heróicos de coisa nenhuma. Tinham sempre alguém que corroborava os feitos, geralmente alguém que gostava de ficar com as sobras. E com isso, faziam amigos, arranjavam namoradas, eram convidados para tudo o que era fixe e movimentavam-se muito bem nestes círculos virtuosos que cresciam naturalmente. Nisso tinham mérito. Mas, para além disto e da sua desinibição imaginativa, também não tinham mais nada. O grande valor deles era precisamente o de fazerem das suas imensas fraquezas enormes forças, o de cimentarem uma imagem apenas com base na gabarolice e de conviverem muito bem com este desequilíbrio entre o real e o imaginário tornado real. No fundo, eles próprios convenceram-se que eram bons, as pessoas à volta reconheciam que eles eram bons sem questionar e todo o mundo vivia feliz.

Para mim, as coisas também foram assim, pragmáticas, durante algum tempo; convenci-me que aquela aura de grandiosidade, aquela publicidade franca e gratuita, era qualquer coisa de natural, dados os seus feitos: ou se tinha, como eles; ou não se tinha, como eu, que teria que me esforçar a sério para fazer qualquer coisa que fosse reconhecida e mesmo assim não teria garantias de sucesso, pois achava, com o negativismo que esses gajos nunca tiveram, que mesmo aquilo em que era sucedido não era aquilo que atraía o resto das pessoas, sempre mais afoitas a reconhecer outras coisas mais do gosto geral, como marcar golos, engatar gajas ou contar piadas. Mas depois vi o outro lado, a fraqueza da sua glória, a pequenez da sua cultura, a pobreza dos seus espíritos. Eram tudo menos seres perfeitos, tudo menos ídolos, acreditem. As mentiras revelavam-se uma atrás da outra. Não se podia contar com eles em situações de aperto, eram os primeiros a debandar ou a enjeitar responsabilidades, das quais fugiam com a mesma esperteza saloia com que impingiam as suas qualidades aos demais. Jamais se retractaram perante o exagero da sua figura. Ainda continuam pedantes, com a sua legião de fãs, mas aquilo já não me aflige, porque percebi o vácuo em que assentavam as fundações da sua personalidade. Eu sou assim, demasiado low-profile, e eles são assim, demasiado high-profile, estamos muito bem assim e há mercado para todos – embora aparentemente, só exista o deles. Mas a “maioria silenciosa” será sempre a maioria e o conteúdo, se houver justiça, prevalecerá sobre a forma.

O Nélson também estará bem. Pudera, é um suplente com um estatuto desmesurado. No caso dele, vejo muito mais influência externa do que pessoal e vejo algum valor… não o suficiente para tamanho hype, mas algum valor. O grande problema do Nélson, que não será bem um problema, é mesmo a necessidade de criar um mito para dar às massas para elas regurgitarem como a atracção da época, para mais estando no clube em que está. Ele aproveitará até concretizar a sua fama ou até as pessoas se fartarem dele e abraçarem outro ídolo pré-fabricado, que adorarão incondicional e irracionalmente. Já os tipos da minha terra estão mais numa corrida de fundo e não precisam de correr com tanto afã à procura do reconhecimento, sendo que alguns entretanto já caíram em desgraça junto de quem lhes adorou, partindo para novas paragens de modo a recomeçarem os seus joguinhos de manipulação de imagem com outra gente menos experimentada. O Nélson ainda pode ter uma saída airosa, coisa que estes gajos dificilmente poderão ter.

16 fevereiro 2012

Chris Lowe

O gajo que aparece na foto é o Chris Lowe dos Pet Shop Boys. Os Pet Shop Boys são ícones gay. Concedo. Parece evidente e inquestionável. A verdade é que também são indissociáveis da melhor música electrónica que se fez nos anos 80. A música era tão boa que, hoje em dia, se tivermos que escolher uma banda-sonora para os anos 80, alguma coisa dos Pet Shop Boys terá de ser escolhida, sob pena dessa banda-sonora ter a credibilidade semelhante à do João Ferreira a apitar um jogo do Sporting. Pode ser “West End Girls”, “Suburbia” ou “Rent”, eles capricharam, há que reconhecer com a masculinidade, também inquestionável, que me assiste.
Isso faz dos anos 80 uma década gay? Muito provavelmente, sim – parece que os armários explodiram nessa década. Não só gay, como implicitamente pedófila, ou não fosse a década onde uma grande quantidade de videoclips conta com crianças a dançar no meio de adultos, vestidas como gente grande e agindo como se não fossem três réis de gente – e estou a pensar especificamente em “Open Your Heart” da Madonna –, de uma forma tão enjoativa quanto questionável à luz dos preceitos vigentes no século XXI. Ou então eram os adultos a infantilizar-se despudoradamente, o que é igualmente válido. O dançar dos anos 80 também é assim um bocado para o gay, bem como as cores das roupas, os penteados e os carros vermelhos por todo o lado. Portanto, se eu tivesse que eleger o pináculo da primazia gay na cultura pop, esse zénite (que não de S. Petersburgo) seria os anos 80. Isto do casamento gay é apenas uma iniciativazita da esquerda caviar sem nada para fazer do século XXI, nem sequer faz cócegas ao massivo choque visual dessa década.
Mas chega de paneleirices, porque eu estou aqui para escrever sobre a similitude de um tipo que conheço face ao Chris Lowe. O curioso é que ele não é fisicamente parecido. Em nada. Nem sei se será gay ou não, não me importa. A parecença está na postura: assim como o Chris Lowe mexia-se o menos possível e conservava sempre um ar circunspecto sem nunca esboçar um esgar que fosse, este tal gajo era igual. Dele não esperaríamos um sorriso para a foto. Jamais. Sempre sisudo. Não confundir com “estar de trombas”. Nada disso; geralmente, sabe-se quando alguém está de trombas: é quando está pior que o normal. Mas a normalidade dele era mesmo aquela: nenhuma emoção.
Contávamos anedotas às quais ele não reagia. Conversávamos durante horas sem ele intervir. Mostrávamos-lhe coisas giras à qual ele respondia “bela merda!”, acendendo um cigarro e colocando a outra mão no bolso com desdém. Embebedávamo-nos e ele, embora mais expansivo e quiçá sorridente, não alinhava com as paródias do pessoal. Falar alguma coisa para ele era falar muito. Era um outsider puro. Gostava de ser um outsider, um solitário, um Dirty Harry sem pistola mas com um Zippo. Acho que se esforçava a fundo para sê-lo. Mas não era má pessoa de todo. Tinha algum sentido de justiça. Partilhava com quem não lhe chateasse muito, mas era inflexível com quem o chateasse demais – era capaz de estar anos sem dirigir uma palavra que fosse a um tipo com quem tivesse tido uma questiúncula de meros cêntimos. E de certeza que esse gajo nunca mais viria a recolher as suas parcas boas graças. Era ressentido, é verdade. Não esquecia quem não lhe apreciava. Fosse homem ou mulher. As gajas nem desgostavam dele, mas ele também não sabia propriamente aguentá-las durante muito tempo. Ele queria era apalpá-las logo nos primeiros minutos. Se elas deixassem, tudo bem, podia haver relacionamento; se elas o repelissem, ele diria “que sa foda!” e voltava a fumar um cigarro em silêncio.
Escusado será dizer: este Chris Lowe, este monumento à inexpressão pouco empático, não tinha muitos amigos. Os verdadeiros amigos, segundo conseguíamos perceber, não éramos sequer nós, eram tipos que viviam lá para trás do sol-posto. Aliás, a verdadeira ambição dele era fugir daqui e ir para lá, onde tudo era bom e bonito e ele uma pessoa interessante e proactiva – segundo palavras do próprio; o velho truque do “eu sei onde é o paraíso, mas é tão secreto que eu não estou autorizado a levar ninguém comigo”. Havia sempre qualquer coisa de extraordinária nessa terra das impossibilidades, das poucas histórias que nos contava. Eram quase sempre as mesmas histórias, com as mesmas personagens e no mesmo sítio. Uma coerência e previsibilidade monstruosas. E nós só tínhamos que acreditar que, lá longe, ele seria bem diferente e tudo o que se passava aqui era um tormento, explicando assim a sua atitude. E as coisas nunca mudaram muito, embora, com o tempo, víssemos fotos no Facebook e até no Hi5 nas quais o seu rosto fechado continuava predominante, mesmo naquelas com os “grandes” amigos e naquela “grande” terra. Ou então era ele a manter a pose. Pouco provável. Depois acabou com qualquer vestígio de rede social. Pelo menos na Internet. Mas na vida real não devia ser muito diferente.
Com os amigos que tinha, gostava de ir para os copos e criar uma certa intimidade dentro de limites muito estreitos e bem definidos. Talvez sonhe com uma viagem ao Brasil e descobrir assim o eldorado da feminilidade que costuma suceder nestes casos de solidão crónica. Mesmo que seja uma solidão meio auto-imposta. Talvez. Desde que isso não lhe afectasse muito a rotina. Vivia com frugalidade – imitações espanholas ou de feira de alguns produtos serviriam, se fossem bem feitas e monetariamente vantajosas. Se fosse necessário, vestia roupa usada pelos amigos. Nisto não seria bem um Chris Lowe, que, como estrela pop – ou integrante de um duo que era sensação pop – não iria vestir nada que fosse vestido, sei lá, por um Limahl. Mas isto digo eu. Só sei que na postura física este gajo era o melhor imitador possível do Chris Lowe, sem provavelmente sabê-lo.

17 janeiro 2012

Miss Piggy

Há quem diga que os animais são melhores que os humanos. Não é novidade. Para mim, até há animais que representam melhor uma parecença com certos humanos que outros humanos. Se são humanos demasiado animalescos ou animais demasiado humanos depende da situação, mas eu diria que os animais não merecem ser comparados aos humanos e que esta é apenas mais uma da longa lista de atrocidades que diariamente perpetramos contra eles.
Porém, não consigo resistir a comparar uma certa pessoa a uma porca (não aquilo que vai com o parafuso, mas “a mulher do porco”). Não uma porca qualquer, mas uma porca ficcional antropomórfica. Daquelas que até poderão posar para a Playboy e que falam e tudo. Sim, eu conheço vários porcos que falam. E que fazem muito mais porcaria que um simples porquinho. E porcaria da perigosa, embora não necessariamente mal-cheirosa.
Só de olhar para a Miss Piggy vem-me à mente uma gaja que conheci. Também há tipas que me lembram a Clarabela (que é uma vaca da Disney). Mas agora estou virado para a Miss Piggy.
As semelhanças eram incríveis. Ao nível físico, devido ao cabelo louro, ao corpo matulão, aos olhos claros e até ao nariz, que era um bocado empinado e que lhe conferia uma aspecto um pouco… suíno. Ao nível psicológico, porque era também dada a ataques de fúria e capaz de desencadear vendavais com os seus modos bruscos, sendo que no dia (ou na hora) seguinte já poderia haver mil-sorrisos e lamechice. Também houve relatos de algumas atitudes bem porquinhas por parte dela, mas poderiam ser apenas rumores. Embora fossem excelentes histórias. E ela também era ambiciosa e gostava de ser a número um incontestada. Até ao nível sentimental havia semelhanças, dado que ela tinha o seu Cocas. Teve vários Cocas que eu conheci e outros tantos que não conheci, mas dos quais ouvi falar. O Cocas que eu conheci melhor acabou por fazer dela o que quis, ao passo que o Cocas original apenas queria distância e sossego. Mas este Cocas que conheci tinha as hormonas em ebulição, estava naquela fase de adolescência quando se diz “em tempo de guerra, todo o buraco é trincheira” e, claramente, havia uma guerra não-declarada para tentar sacar o maior número de fêmeas e da forma mais cool possível. E o que podia ser mais cool do que ter uma gaja sempre disponível (excepto quando “o Benfica jogasse em casa”) e que, se fosse preciso, ainda tomava a iniciativa para fazer aquilo que outros, por muito que mendigassem, não conseguiam fazer? Luxo.
Palavra que sempre a comparei com a Miss Piggy e já pensava nisto naquela altura. Nunca lho sugeri, porque, na verdade, ela tinha uma compleição física que impunha respeito, uma chapada dela deveria mesmo aleijar, eu nunca fui assim muito corajoso e não fazia sentido levantar a questão junto dela – se queremos dizer mal, é melhor dizer pelas costas, já que é isso que toda a gente faz e toda a gente não pode estar errada. Além do mais, eu era conhecido do Cocas e etc. e tal. A vida dela parecia ir mesmo a caminho da pocilga. Augurava-lhe um belo destino num bairro social, aos berros à janela e com vários filhos ao pé dela, com o Cocas a emborcar minis e a comer pipis no café da associação de moradores do bairro.
A vida dela começou a mudar quando, um pouco mais tarde, o Cocas fartou-se de tantas facilidades e ela também perdeu algum interesse. Foi aqui que se ocorreu aquilo que parece que só existe nos filmes, mas que existiu na realidade neste caso e que poderá ter acontecido em mais alguns lados em moldes semelhantes. É que houve sempre aquele tipo que andava sempre à coca (note-se a ironia) dela, durante anos. Desde o berço, para aí. Toda a gente sabia, seguramente que a própria Miss Piggy também. Vou designar-lhe por Anti-Cocas. Era um tipo com alguns princípios, claramente fascinado pela Miss Piggy ao ponto de sofrer sucessivas humilhações por ela, a maioria num silêncio cruel, mas ela não fazia mais do que reconhecer a sua presença. É como imaginar a relação da Lisa Simpson com o Milhouse. Porém, naquele período de alguma agitação pós-Cocas, algures num vazio sentimental que se deve ter formado, o Anti-Cocas apresentou-se-lhe como boa solução a médio-longo-prazo e sem falsas intenções. Deu-se uma epifania. O Anti-Cocas devia ser o melhor partido para ela. E, até ver, foi mesmo: atinaram-se, casaram-se, tiveram filhos, não sei se têm um cão e um jardim à porta de casa, mas estão na primeira linha do “viver felizes para sempre”.
Não voltei a reencontrá-la pessoalmente, julgo que terá uma vida normal e longe do bairro social, mas vi uma foto há pouco tempo e devo dizer: o Photoshop, mesmo quando utilizado superficialmente, é fantástico. Ela parecia uma diva de cinema dos anos 40, com aquela brutalidade repentina substituída por uma serenidade digna de uma santa qualquer e com uns bons quilos a menos. Mas, para mim, aquela aura de Miss Piggy é indelével. Miss Piggy foste, Miss Piggy serás.

20 dezembro 2011

Leonid Brezhnev

Eu conheço, de vista, um tipo que é a versão revista e aumentada do Leonid Brezhnev – e pronto, não estabeleço apenas relações com gente ligada à música e abro o leque também a políticos. E logo internacionais. E logo dos tempos da guerra fria. Dum tempo em que havia a URSS, a RDA, a PGA e o IVA – esperem lá, que este ainda existe e está a ser reforçado. Devo assinalar que a expressão “ganda Brezhnev!”, para enfatizar o frio que se sente, origina deste líder russo, já que sabemos que na Rússia faz frio e o Brezhnev protagonizou alguns dos momentos mais frios da fria Rússia durante a guerra fria – mas não posso garantir a veracidade desta afirmação. Daqui a uns meses ou anos, virão as referências aos actores, aos jogadores (mas talvez não de futebol, que para isso reservo-me para outros fóruns), aos escritores e, quem sabe, até aos objectos inanimados ou ficcionais. Por exemplo, há um tipo que é o corpo (e a cara, mas só um bocadinho) do Bibendum da Michelin e algumas gajas que parecem botas da tropa. A seu tempo.
O gajo nem sequer é da minha terra, mas vejo-o amiúde. E porquê Leonid Brezhnev? Porque o gajo é um comunista do caraças e cultiva um evidente culto da (sua) personalidade, envergando uma camisola vermelha com a sua própria cara deveras estilizada sobre uma foice e martelo amarelos. E está sempre a trautear “A Internacional” no metro. Mentira. O tipo tem é duas sobrancelhas descomunais.
Palavra. Duas gigantescas e farfalhudas sobrancelhas, quase animalescas. Percorrem toda aquela fronte, da esquerda para a direita, de cima para baixo. Duas sobrancelhas que assustam e que, no entanto, possuem aquela subtileza de não se tocarem – há claramente um espaçozito ali de brancura entre ambos os tufos de cabelo. Se ele corresse os 100 metros, talvez ganhasse no photo finish se se esticasse todo junto à meta para ganhar por um pêlo de sobrancelha. Aquilo é garantia absoluta que nenhum pingo de suor atravessará aquela selva, descendo da testa até aos olhos. O Brezhnev original, embora esforçado, não poderia competir com duas sobrancelhas assim – nem ele quereria, porque isso da competição não é coisa para comunistas. As sobrancelhas do Brezhnev parecem filhos menores e esquálidos daquelas sobrancelhas, como se tivessem penado num gulag siberiano qualquer. Mas estas sobrancelhas são vigorosas, kremlinianas, a fazer jus à monumentalidade do império russo, estendendo-se de lés a lés por dois continentes e abraçando alguns oceanos no processo. São mesmo sobrancelhas colossais, frondosas como uma Amazónia em tempos imemoriais, assertivas como um Tony Ramos elevado à enésima potência, assustadoras como um Rasputin cruzado com um lobisomem. Não tenho muito mais adjectivos. É mesmo daquelas coisas que só vistas.
Não tenho igualmente muito mais para partilhar, é pena. Não conheço a personagem. É um tipo magrinho e talvez quarentão, já denota alguma falta de cabelo que poderia ser facilmente resolvida com um implante das suas pilosidades supra-oculares que fazem Sansão esverdear com inveja e tem um comprimento nasal também acima da média – mas nada que se compare à dimensão das suas sobrancelhas. Podia especular acerca da sua personalidade, mas não quero fazê-lo – seria retirar importância à sua imagem de marca e não estou para grandes invenções. Prefiro apenas assinalar a sua existência e imaginar que, diariamente, nutre aquelas sobrancelhas com loções anti-queda e anti-caspa e que penteia-as religiosamente antes de deitar e ao levantar, num ritual de aproximadamente dez minutos. E vocês dirão, “ah, mas eu também conheço um gajo assim, de grandes sobrancelhas”: NÃO PODEM (a não ser que estejamos a falar da mesma pessoa)! Aquelas sobrancelhas são irrepetíveis e olhem que eu já vi muitas pelos inúmeros sítios que já visitei na minha vida, como a Margem Sul, Santarém e até Pevidém, sem contar que uma vez já dormi em Ayamonte. Não tentem sequer equiparar a este caso.
Pobre Brezhnev… para a História ficou como “o comunista das grandes sobrancelhas”, mas mal sabiam eles que ele é apenas uma proxy; este tipo é que deveria dominar toda a História mundial das sobrancelhas.

16 dezembro 2011

Mão Morta

Havia um velhote lá na terra que era o Mão Morta. Assim mesmo, no singular. Não era remotamente parecido com o Adolfo Luxúria Canibal. Não tinha uma voz espectacularmente grossa. Não tinha sonhos sórdidos, ou pelo menos não aparentava ter. Tinha somente uma mão deficiente, acho que a direita, completamente inútil, totalmente virada para baixo de dedos cerrados, fazendo uma espécie de um ângulo de 90º com o seu antebraço.
Por isso era “o” Mão Morta. Quando passávamos por ele, dizíamos: “então, tudo a rock n’ rollar”? Que nível de chalaça. Cruel, mas com muito nível, a denotar uma sensibilidade excepcional para com o pop/rock português alternativo do dealbar dos anos 90. O velhote, com o seu costumeiro casacão à agricultor alentejano, bengala e boina, boca sem dentes e nariz abatatado e avermelhado pelo álcool, com um certo cuidado estético apesar de tudo, resmungava. Tinha acessos de fúria, o Mão Morta. Por vezes, demorava-se numa amena cavaqueira com o seu amigo imaginário junto à paragem do autocarro, dando-lhe palmadas e sorrindo-lhe cúmplice, mas, três-meia-volta, chateava-se com ele e mandava-o dar uma curva com gestos bruscos – com a mão ainda boa, claro. Não é claro que todo aquele braço onde desembocava a mão deficiente se mexesse de todo. Ninguém sabia ao certo. O certo é que “Braço Morto” não resultava tão bem como “Mão Morta” em termos de alcunha e o Mão Morta nunca foi visto de manga curta, como os velhotes costumam andar, mesmo no pino do Verão – bem abotoadinhos até ao fim e, de preferência, sempre com a mesma camisa.
Charro aqui, charro ali não seria bem a onda dele, mas vodka atestada fazia mais o seu género. Não tanto pela vodka, mas pelo vinho. Vinho a martelo. O Mão Morta tinha o perfil de um consumidor ávido de pacotes de vinho comprados em mercearias impregnadas de ranço e bolor. Ou então bebia fiado na tasca do costume. Aquilo devia ser sempre a bombar, sempre a abrir a noite toda. E tardes e manhãs também; o Mão Morta devia ser dos primeiros clientes matinais daquela tasca na esquina. A tasca era velha, portas de madeiras escarafunchadas abertas de par em par e com a tinta toda lascada, o edifício praticamente em ruínas, a emanar um cheiro a fritos e a adega que nauseava quem por lá passava às oito da manhã. E já com alguns clientes habituais sentados em velhos banquinhos de madeira com o buraquinho no meio – os chamados “mochos” –, com o radiozinho a pilhas em cima do balcão a debitar qualquer coisa em AM e os calendários de gajas louras e mamalhudas com alguns meses ou anos de atraso a sobressair na parede atrás. Depois de picar o ponto na tasca, o Mão Morta deambulava pela terra em monólogos balbuciados e carregados de interjeições imperceptíveis. De humores rápidos, o Mão Morta tanto podia ser um simples velho deficiente e abandonado, penando em silêncio e muito respeitador das liberdades individuais dos outros, como um tipo que se ria sozinho no meio do passeio ou até, como referi acima, extravasando alguns laivos de intempestividade. Neste aspecto, o Vaidoso era muito mais extremista – o Vaidoso era outro bêbado da terra.
O Vaidoso e o Mão Morta competiam em surdina para saber quem era o mais “wasted geezer” da terra. Não me lembro de os ver juntos. Mas enquanto o Mão Morta ainda podia despertar alguma compaixão e tinha os seus momentos de clarividência aparente, o Vaidoso era simplesmente um bêbado profissional e sem nenhuma deficiência física com a qual pudéssemos sentir comiseração. O Vaidoso era todo ele soberba alcoólica, sem pudor nem cura. Era um bêbado comme il faut, com a barba por fazer e andrajoso como os bêbados clássicos são. Andava sempre aos caídos, nunca pronunciou mais que monossílabos, nunca conseguiu abrir totalmente os olhos e passava largas temporadas sem tomar banho. O Vaidoso era um sidekick perfeito e não se ressentia com isso, até porque não devia perceber bem o que se estava a passar à sua volta ou, se percebia, não se importava; mas o Mão Morta tinha sentimentos e revoltava-se. Uma vez convidámo-lo para jogar basquetebol connosco, já que a sua mão indiciava uma técnica ímpar no drible que seria uma mais-valia para a nossa equipa, caso jogássemos basket, claro, e vimos o lado mais irascível do Mão Morta, com recurso à agitação da sua bengala e tudo, tão irascível que passámos umas boas semanas sem passarmos no mesmo lado do passeio, não fosse o diabo tecê-las.
Quando o Vaidoso morreu, toda a gente soube. Era uma parte do folclore da terra que tinha morrido também. Se não se soube logo, depreendeu-se passado pouco tempo, porque deixáramos de o ver nas imediações. As pessoas comentaram, “o Vaidoso já não mora aqui”. O Vaidoso era assim, famoso pela sua desgraça, impossível de passar despercebido. Já quando o Mão Morta esticou o pernil, a reacção não foi tão imediata. Ele abandonou-nos gradualmente. Apenas desconfiámos que alguma coisa teria ocorrido, já que deixámos de o ver nos sítios do costume durante algum tempo, até que alguém nos confirmou que “o Mão Morta já morreu há bué”. Mas nós ainda conservámos alguma esperança. Debalde. Nunca mais o vimos. Nunca soubemos ao certo o que provocara aquela maleita na sua mão, se um acidente de guerra, ou outro acidente qualquer, ou simplesmente malformação; nunca percebemos se houve um outro Mão Morta, limpo e são, antes deste Mão Morta; nunca conheceremos o que fez em concreto na sua passagem por este mundo antes de ser aquele velho errante levemente esquizofrénico. Agora, os restos do Mão Morta devem estar lá para uma campa rasa sem placa de mármore e sem flores no cemitério da terra. A própria tasca já fechou sob o peso da ASAE e com ela a promessa de uma nova fornada de bêbados clássicos na nossa terra. Ficaram apenas as memórias, que é melhor que conseguimos arranjar de graça nesta altura e que não fazem mal ao fígado.

23 novembro 2011

Morrissey

Lá para os meus lados vivia um tipo que era o clone do Morrissey. Talvez não tivesse a poupa, nem o ramo de flores na parte de trás das calças, nem um aparelho auditivo, mas tinha o queixo mais morrisseyiano que alguma vez assisti. E isso basta-me para ser o clone do Morrissey.
Uma coisa não tinha de certeza: a sagacidade lírica do Morrissey e a capacidade de escrever títulos de canções tão longos quanto hilariantes (ou não, depende do ponto de vista). Este seu clone era burro como uma porta e duvido que apreciasse outra música que não a martelada dos carros do tuning ou o que dá na Best Rock FM. Até já vi portas mais inteligentes que ele, daquelas com um olho óptico muito bem afinado que deslizam suavemente assim que te aproximas. Aliás, há quem diga que ele era analfabeto. Nem sequer era iliterato, que isso da iliteracia é coisa fina e pós-moderna. Não, ele seria mesmo analfabeto, incapaz de ler as gordas dos jornais; se completou a 4ª classe aos 15 anos foi por pura misericórdia dos professores – misericórdia para com este Morrissey e para com a própria paciência dos professores. Apesar disso, tirou a carta de condução, pois tal desiderato nem necessita de nada mais que uns bons euros que deve ter pedido aos pais, e dedicou-se aos carros afincadamente, como se o seu carro o mantivesse vivo. Se calhar, até manteve e, se calhar, a paixão pelo tuning salvou a vida deste Morrissey. Mas isso já é um grande “supônhamos”.
Se o Morrissey original atacava com as palavras, este Morrissey atacava com os punhos. Tinha as suas qualidades, este Morrissey: era um brutamontes que geralmente se rodeava de gente mais nova, parecendo ainda maior do que era. Ganhava, por pontos mas mais geralmente por KO, sucessivas discussões aos seus oponentes. Com ele nem sequer havia discussão – nem podia haver, a não ser que fosse qualquer coisa como “eu gosto mais do amarelo” ou “gosto do cheiro que vem daquele tubo de escape”. Não havia discussão porque tal não seria possível, dada a sua capacidade intelectual, e porque isso era marmelada demais para ele e ele queria era acção à laia do Chuck Norris, Steven Seagal, Stallone e o Schwarz-qualquer-coisa que ele adorava. Este Morrissey era uma espécie de Larry Kubiac (o gigante parvo do Parker Lewis (Parker Lewis foi aquela série do liceu americano que deu a seguir ao Já Tocou! (isto era TVI em 1993/94 (e este é o último parêntesis, prometo)))), mas sem a parte de parvo que aceitava sardinhas como recompensa e apaziguamento. Este Morrissey não estava cá com falinhas mansas; era a violência em puro, disparada para com putos 5 ou 6 anos mais novos – que ele, na sua petrificada consciência, devia julgar que eram seus pares.
Cada vez que vejo o Morrissey dos tempos de “Bona Drag”, como o vídeo de “The Last Of The Famous International Playboys” na VH1 Classic, lembro-me deste Morrissey – um ser tão unidimensional que até o próprio Morrissey poderia defender, caso o equiparasse a um animal, o que até nem era despropositado de todo – poderia ser um híbrido entre urso e camelo. E lembro-me do Morrissey por causa daquele queixo. Também pelos olhos pequeninos que lhe magnificavam a testa, mas sobretudo pelo queixo. Sem aquele queixo, este Morrissey seria mais uma banalidade que eu teria tido a indiferença de conhecer, ainda que, e felizmente, de forma superficial. Aquele queixo poderia ter feito sucesso entre as indie rockers do final dos anos 80, mas, por azar, quando este Morrissey começou a querer saltar para cima delas, já o tempo do verdadeiro Morrissey tinha passado. Quando este Morrissey atingiu a plenitude da sua puberdade, o verdadeiro Morrissey tinha-se afundado no mar da rebeldia rock dos anos 90 e a sua voz nasalada passado completamente de moda. Senão, este falso Morrissey podia ter tido tempos felizes com as nerds smithianas. Não muito tempo, que elas apercebiam-se que dali não sairia nada do género de “Girlfriend In a Coma” nem nada que se parecesse, mas o suficiente para passar um bocado interessante. Só sei que este Morrissey, numa atitude pouco morrisseyiana, era visto amiúde em casas de alterne, o que prova que o mundo, na sua estranha forma de arranjar equilíbrios, ainda evolui com alguma lógica: este Morrissey só conseguia sexo pagando, a não ser que arranjasse alguma gaja com ligeira trissomia 21. Como é que ele conseguia o dinheiro, dada a sua gritante incapacidade adaptativa a qualquer coisa, é que já me ultrapassa um pouco, mas arrisco três hipóteses: crime; pensão ou subsídio por qualquer coisa; crash test dummy.
… ou então como sósia do Morrissey em documentários sobre a Manchester dos anos 80 depois dos Joy Division. A cantar deve estar ela por ela com o verdadeiro Morrissey, menos na parte dos falsetes. Mas ninguém deve tê-lo descoberto entretanto e ele nem saberia aproveitar a oportunidade se ela aparecesse escrita num letreiro gigante à sua frente. Literalmente.