09 junho 2016

Actriz Francesa

Tenho de reparar em quem está a bafejar atrás de mim. Estou preso num transporte lotado e há alguém que me exala um bafo aquecido pela retaguarda. Até me levanta os cabelos da nuca. Faz-me impressão. Os calores não requisitados dos outros acicatam os meus próprios calores. Costuma ser gente suja e de entranhas apodrecidas, com doenças respiratórias contraídas através de vidas miseráveis e com o auxílio de genes de qualidade inferior. É sempre assim. A gente gira não resfolega, é subtil na filtragem do ar. E, ainda por cima, toca-me várias vezes, meio de raspão, à laia de quem está no Jamaica só a curtir o som. Nesse contexto ainda passa, mas desta vez, como estou sóbrio, é simplesmente repugnante. Os outros utentes estão sempre imundos, sei lá por onde andaram. Pessimista como sempre, imagino um ogre repulsivo a roçar-se em mim, com ares de estuprador. Os velhos? Do mais nojento que há. As gajas? As novas e bonitas? As únicas que se escapam. A minha única esperança. Tenho de confirmar quem é esse ser arfante. Mas a lotaria nunca sai e não se confirmou esse caso, como suspeitava. Não era nenhuma gaja nova e bonita, era um ser masculino e feio, como os outros todos. Um ogrezito anónimo, vá lá. Tal como eu, porém numa versão ainda mais decadente. Contive o meu asco até o espaço finalmente clarear. Não era ela, numa rara oportunidade de estar perto dela e poder culpar as circunstâncias desse acaso. Uma lástima.

Acho que ela nunca recuperou dum grande desgosto. Calculo que amoroso. Tudo nela transpira dolência. Desde os cabelos que pendem melancólicos pelos ombros, passando pelo olhar misterioso que tanto explode radiante duma euforia momentânea como se distancia num silêncio inquebrantável, passando pelos movimentos delicados que quase pedem licença ao cérebro. Umas unhas de manicura, uma pele lisa com um aroma limpo que lhe perpassa os poros, sugando as atenções para ela à sua passagem. E depois toda aquela aura de tragédia consumada suspensa sobre ela, como um halo invisível de decepção a brilhar por sobre aquele corpo bonito, maneirinho, torneado apenas o quanto baste. Possui um charme natural que julgo que não desconfia possuir. Das poucas vezes que a vi sorrir, gostei. Era um sorriso lavado, sincero, com os dentes alinhados e cuidados. Fazia todo o rosto sorrir ao mesmo tempo. Dava gosto. É pena ela não sorrir mais. Talvez não dê para mais, talvez ninguém perceba o seu sentido de humor. Não sei de nada. Apenas suponho. Não me chego muito perto. Penso que poderia perturbar o seu sossego maldito. Não tenho tanto despudor. Problema meu.

Ela faz-me lembrar uma actriz francesa. Não a Amèlie Poulain, nem aquelas frou-frous com franjas irritantes que incandescem o feminismo. Isso é tudo treta. Só mesmo as gajas para lhes acharem modelos de virtude, naquele cinismo tão feminino: eu gosto dela apenas por ela ser mais frustrada que eu ou por me ser absolutamente distante. É assim que elas funcionam, não passam sem elogios desmedidos que fedem a falsidade e são genericamente motivadas por intenções mais ou menos subliminares. As gajas até podem admitir que admiram uma modelo invejada pelo mundo, mas lá no fundo invejam-nas ainda mais que o mundo. Ela faz-me lembrar é aquelas tipas que entram em filmes obscuros e que têm uma grande propensão para se despir e fazer sexo, mesmo, e especialmente, nas situações mais inesperadas. Como se a presumida dor que lhes consome a alma apenas pudesse ser combatida sem roupa. Como se a roupa, mesmo a mais larga, funcionasse como um colete-de-forças do espírito. Despem-se porque se querem libertar, porque querem provocar, porque sim, porque lhes sabe bem. A nudez é uma arte, uma casualidade trivial, nunca uma obscenidade para esta gente. Está-lhes no sangue. E se ela me parece francesa é porque associo as francesas a esse comportamento tão desprendido e simultaneamente impregnado de libido, sem nunca descurar a classe que separa o bom gosto da rameirice. As nórdicas também parecem ser muito lestas a despir-se, são louras e muito abertas em vários sentidos, mas há um “je ne sais quoi” nas francesas que se auto-explica, porque “je ne sais quoi” é uma expressão francesa. É certamente preconceito, mas ela parece que ouve “Je t’aime… Moi Non Plus” em loop e, claro, nua, na sua ampla cadeira de verga e com os cortinados alvos a esvoaçar na brisa estival que entra pelas suas largas janelas num quarto desarrumado, polvilhado por livros de alfarrabista e fotografias artísticas a preto-e-branco espalhadas no soalho poeirento, enquanto perscruta o ambiente onde circula um ténue fumo de cigarrilha carregando uma tristeza indecifrável. Um misto de Emmanuelle, Eva Green naquele filme em que vão para o ménage numa banheira e Jane Birkin, que não era francesa mas encaixava que nem uma luva nesse imaginário tão Maio de ’68. Sim, ela devia entrar numa dessas séries de época. E sim, só os franceses descreveriam uma orgia com a subtileza fonética de “ménage”.

Ninguém sabe ao certo quando foi o primeiro dia do resto da sua vida. O momento da viragem. Especulamos que dantes ela seria uma fonte de alegria, por causa das feições jovens e da força do seu raro sorriso, que hoje foi transformada num poço de angústia. Deve ter sido forte, muito forte. É o que nos diz o mutismo arrastado do seu olhar. E as pessoas à volta, que tanto se confundem com amigos, gracejam, brincam, actuam com a normalidade possível para lhe arrancar das trevas onde se afundou. E ela esforça-se um pouco, sorri com uma notável condescendência, mas é temporário. A amargura não tarda em reclamá-la de volta e ela, prestimosa, entrega-se com uma beleza cruel aos seus braços. A tristeza é muito bonita para quem está sentado numa poltrona a contemplá-la. A dor dos outros, quando bem esgalhada, pode ser das melhores coisas a que temos o prazer sórdido de assistir. Quase que queremos ser assim, tão estilisticamente abatidos. No caso dela, é mesmo um espectáculo digno de ovação prolongada. E ela sempre a olhar para um ponto não identificado no horizonte, suspirando resignação, olhos como os daqueles cãezinhos fofos que parecem ter nascido tristes, chega a ser comovente. Ela nunca mais se refez. Hoje ela apenas tolera. Nunca demonstra um entusiasmo sustentado, todos sabemos que ela apenas vem à tona por breves instantes antes da maré da taciturnidade a levar de volta. Hoje ela já não acredita nem se apaixona; já não derrama lágrimas nem sente raiva. Ela talvez já não sinta de todo. Apagaram-lhe a chama do coração com um feroz extintor de desilusão. Onde dantes poderiam brotar pujantes emoções, hoje é um baldio corrido a herbicida. Alguém lhe matou o calor e a ilusão. Hoje ela é praticamente um autómato. Um lindo robot de pele e osso, tendões e sangue, mas um ser que já não irá sentir uma emoção maior do que a frustração que um dia lhe vassourou de cima a baixo.

Talvez ela nem se dê ao trabalho de perceber que, apesar de tudo, ela move gente à sua volta. Gente incauta que, na sua flagrante ingenuidade, convence-se que será a gente certa para lhe retornar o viço que lhe deixaram roubar prematuramente. Eles bem tentam, os tolos, com os seus truques, prendas, piadas, partilhas nas redes sociais e selfies patetas, mas está tudo plasmado naqueles olhos ausentes e na sua expressão moribunda, por muito belo que seja o cenário: quem lhe destruiu deixou cicatrizes tão profundas que existem poucas hipóteses de restituição. Não há volta a dar nas fatalidades. É mesmo como aquelas francesas dos filmes que fazem as maravilhas dos críticos que estão num estado de permanente inquietação e desespero. “Femmes fatales” que vêm em pacotes giríssimos que ninguém sabe ao certo como abrir. Gajas impenetráveis na sua essência, autênticas felinas nas suas oscilações humorísticas, por muito que se dêem ao sexo. O sexo é apenas um exercício automático. Um orgasmo é sempre um orgasmo, mas isso não quer dizer nada para além do momento do clímax. Ela até pode gemer, mas será apenas uma reacção física, sem correspondência espiritual. Porque até no mais firme acto sexual ela terá a cabeça nas nuvens, naquela cadeira de verga soprada pelo vento na sala vazia, talvez suspirando por aquele velho livro de folhas amareladas que acumula poeira na penumbra do soalho, revisitando mentalmente um passado que jamais regressará e coleccionando presentes insossos, esquecíveis, para consumo imediato. O futuro nem se pensa. Nunca está com quem quer, como quer e, se algum dia estiver, estará tão vacinada pela tristeza que não irá perceber essa fortuna. Ela tornou-se triste, distante, por querer ter paz. Foi a sua defesa. Percorre um longo caminho com sonhos idílicos tornados pesadelos, que lhe formam um corredor estreito donde não consegue escapar e que lhe tentam pregar rasteiras e dar-lhe com as trombas na dura realidade. Agora só quer mesmo paz, fugir sem saber como da viela por onde a sua vida se enfiou. Isso já não é coisa pouca.


Não era ela no transporte, mas havia lá uma mulher que é a versão envelhecida da Karen Lancaume (existem outras versões do seu nome). Isto é, significativamente mais preenchida a nível corporal, com uns lábios notoriamente mais finos, olhares perceptivelmente menos lascivos e defendidos por uns óculos de hastes coloridas, no global bem menos sensual, mas há lá uns traços evidentes de semelhança e, quem sabe?, com menos uns 20 anos até seria “bem boa” – há sempre este “wishful thinking” para com as mulheres mais velhas. A Karen Lancaume é a tipa da foto e é uma ex-actriz pornográfica. Francesa, obviamente, e com uma existência trágica. Google it. O certo é que ela também é uma actriz francesa, embora menos dada a crónicas majestosas dos críticos de cinema nas publicações sofisticadas, que não costumam poupar encómios à cinematografia francesa mas não a esta indústria em particular… pelo menos em público. Porém, Karen não deixou de ser uma actriz com muitos méritos. Vi algumas cenas e ela ajeitava-se bem dentro do género. Dos movimentos mais emblemáticos, registe-se a forma como dava o cu, como as francesas costumam dar, em cavalgadas multipessoais que deram boas cenas à história do cinema pornográfico, com lingerie cuidada, cenários luxuosos e os característicos “nham-nham-nhams” balbuciados em gaulês, que soam bem mais provocantes que o rude “fuck me in the ass, baby” proferido em tom de ameaça redneck americana numa roulotte. A Karen possuía, lá está, um “je-ne-sais-quoi” que as outras não tinham. Não sei se pela tez da pele, pelos olhares insidiosos, pelo nariz afiado ou pelos lábios polposos, o certo é que a Karen costumava roubar as cenas de sexo onde participava. Não tinha implantes ou tatuagens, o que era comum nos anos 90, e transparecia uma naturalidade excitante que não abundava. Parecia mesmo que gostava do que fazia; chama-se a isto profissionalismo, que é tanto melhor quanto menos dermos por ele. Tinha o seu exotismo, sim, e a sua elegância, também, o que não era fácil de conseguir, mesmo para uma francesa. Os franceses estão convencidos que são mais sensuais que o resto do mundo, quase por decreto histórico. Recordemo-nos que os franceses, até quando fazem revoluções, escolhem a imagem duma mulher de mamas ao léu para liderar a turba. E a Karen deu o seu contributo como pôde. Eu estou-lhe reconhecido. Já esta sua sósia madura é apenas mais uma utente que faz o que pode para passar o seu tempo durante a viagem e uma pessoa que não fará a mínima ideia de quem me faz lembrar. Melhor assim, suponho, que também deveria ser embaraçoso explicar-lhe. Mesmo naqueles minutos que se assemelham a horas de tédio enlatado e em que qualquer distracção, até a mais absurda, é bem-vinda.

18 março 2016

Crazy Cat Lady

Sebastiões são como os chapéus, há muitos. E houve mesmo um gajo chamado Sebastião, um bêbado, falhado na vida, reles e desprezível, mas que destilava um adorável estilo de rebelde sem causa e fornicava à bruta com primor. Detinha uns ares de Cristo e até lhe cravou umas chagas de paixão intensa no corpo. Ele picava sem necessitar da coroa de espinhos, que fantástica era a sua habilidade em magoar. Contudo, esse não lhe salvou. Pior, deixou-lhe um lastro de desilusão, ressentimento e falsa esperança que ainda hoje persiste no convés da sua perturbada existência. O seu navio de emoções encalhou-se em águas baixas, estagnadas, nos sedimentos arenosos de uma vida de decepções, perto da margem da indigência sentimental onde este Sebastião a fundeara. Agora, esse navio é fustigado por vagas e tempestades que se originam em terramotos distantes e é corroído por motins internos duma ansiosa tripulação em permanente desacordo, encontrando-se desamparado pela ausência duma bússola que lhe indique o norte com rigor. Estas tempestuosidades moem-no até ser impossível sair do prolongado definhar com rumo a destinos mais prestigiantes sem auxílio; quando experimenta içar as velas, ventos desconhecidos lançam-no numa agoniante deriva que o faz sentir saudades dos bancos de areia que o prendem. Nestas indecisões, ele fica ali meio entre o mar e a terra. O mais certo é quedar-se num pântano onde se afogará lentamente e sem dor, qual lagosta cozinhando ao lume.

Ela queria o Sebastião, o ser mitológico que lhe iria resgatar dos longos serões solitários, o único ente com quem poderia socializar sem constrangimentos, uma versão sensual e não-homossexual do Sebastião original. Esse Sebastião. O seu Sebastião. Talvez seja pedir muito, afinal Portugal espera há quatrocentos e picos anos por Sebastião, o original, e é um país perfeitamente formado há uns oitocentos e tal. Isto é, cerca de metade da sua existência. E está como está, ao fim deste tempo todo. Não é uma perspectiva reconfortante.

Ela acha que a sua prima Celeste, uma quarentona obesa da província que vive a cuidar dos pais inválidos e do irmão deficiente, uma matrona sem ambições que todos acreditam tender para santa, enfiada nas suas roupas cor-de-rosa compradas na feira e que talvez nunca tenha compreendido o que é a depilação ao certo, não é a referência que quer para a sua vida. Ninguém quer ser uma excelente pessoa, se isso implicar viver miseravelmente, sem nenhuma faísca de paixão, nenhum assomo libidinoso, isenta de qualquer visão dum futuro com um mínimo de glamour. Ela não foi feita para conventos, embora os conventos estejam cheios de gente como ela, apenas mais resignada. Aliás, está longe de se considerar a si mesma um modelo do que quer que seja, muito menos de santidade; pelo contrário, admite sem reservas que está longe de corresponder aos cânones cristãos ou de qualquer outra religião. Que tem pensamentos ousados, obscenos até, e voluntariedade para as coisas marotas. Mas isso também não lhe trouxe grandes proveitos. Já Celeste é excelente, à sua maneira: pela sua responsabilidade social e por estabelecer-se num nível moderno tão rasteiro que lhe permite sair a ganhar nas comparações. Vale o que vale e uma vitória de Pirro não deixa de ser uma vitória, nestes tempos de míngua. Que, afinal, foram todos.

A urbanidade desconsola-a. Mas, ao mesmo tempo, necessita dela. Pelo menos, dá-lhe muitas opções para matar o seu inútil tempo, algo que Celeste desconhece, porque prefere ficar a olhar para a formação das nuvens nos seus parcos tempos livres. Permanece o mistério de como Celeste mantém a sua boa disposição sem sequer estar inscrita numa única rede social. Ela precisa da civilização moderna para pesquisar por almas gémeas outrora inacessíveis, entrar em pequenas guerrinhas de egos e as suas costas largas servem na perfeição para expurgar as suas frustrações. Que são muitas. São tantas que ultrapassam as maratonas dos livros e de Star Wars, por larga margem, se explicitadas pormenorizadamente ao longo do tempo. O desencanto começa logo quando acorda, dorida por não conseguir conservar um aspecto de diva ao espelho, prolonga-se pela dieta que lhe priva dos prazeres do paladar e nem por isso lhe adelgaça a linha, estende-se pelas fracassadas tentativas em interagir com putativos Sebastiões e desagua numa noite de sonhos extraviados, em almofadas pejadas de migalhas dos aperitivos que consumiu desenfreadamente para colmatar o seu pesar crónico. O ciclo recomeça no novo dia, mais forte, mais impermeável, cada vez mais invicto.

Como seria ser bom ser lésbica. Uma fufona orgulhosa das suas cãs, dos seus jeans, camisas e after-shave. Andar por aí à nora de cabelo curto, mochila às costas e Birkenstocks, com a sua namorada-tipo-fotocópia mesmo ao lado, de mapa na mão, invariavelmente perdida nas suas férias. Uma fufona com dois ovos estrelados no lugar das mamas, um sex-appeal que rivaliza com o nadir da Dina. Elas não se importam, chegam ao fim do dia e dão umas tesouradas, arrebitam o berbigão e estão prontas para receber as próximas rugas de consciência tranquila. Mas, azar dos azares, ela gosta de pau e o pau não parece gostar muito dela ou então está simplesmente distante demais, incomunicável e ausente. Teve de gostar de pau; não é sequer aquela coisa de “ah, o sexo a mim não me diz nada”. Não; diz, e diz alto e em bom som, “menina, tens aqui um poço fecundo e húmido que deseja ser penetrado em oscilações vigorosas” e ela não tem como fugir destes desejos. É só mais um percalço iniludível da sua vida. Já teve inúmeras oportunidades para se enrolar com as amigas que se despiram à sua frente, mas não consegue simplesmente achar graça às banhas e curvas das outras; em todas elas falta a rudeza e brutalidade dum homem com um aroma corporal forte. Possui, obviamente, o seu dildo preferido sempre à mão, o seu pequeno/médio/grande tesourinho que lhe torna a vida menos deprimente. E, por vezes, sente que é tudo do que precisa, basta aquele pedaço hirto de látex, com veias pungentes a moldar-lhe a superfície, a intrometer-se nas suas partes pudibundas. Mas a mente feminina é assaz problemática e não se conforma com respostas simples. Tudo é complexo e o objecto que tanto prazer lhe dá num momento é desnecessário no momento seguinte. Por vezes chora. Por vezes zanga-se. Por vezes remete-se à catatonia.

Não ser caso único não lhe anima. A verdade é que há muita mulher como ela por aí. A começar pelas suas melhores amigas. Às vezes reúnem-se umas quantas no mesmo prédio. Todas sucumbindo a esse enervante desespero de nada ter para oferecer ou receber da vida. E todas elas exibindo o derradeiro sinal de agonia social: a imensa devoção aos felinos domésticos. Vulgo gato.

O gato adquiriu um estatuto de semi-divindade para as solteironas contemporâneas, algo que este quadrúpede talvez já não atingisse desde os tempos do Antigo Egipto. E para os solteirões também, embora estes tendam a ocultar mais esta devoção ao gato por receios de “manifestação de bichanice exagerada”. Ao longo do tempo, sempre se reconheceram aos bichanos qualidades muito próprias, como o facto de ajudar a conter pestes devido ao seu jeito para caçar ratos. Hoje em dia, porém, esses utilitarismos mais activos já não lhes são requisitados: ao gato basta-lhe estar e ser fofinho. A fofice do gatinho grassa por todo o lado, proliferando em todos os formatos. É comum haver programas do género do “Isto Só Vídeo” exclusivamente composto pelas tropelias dos gatinhos. E são muito giros, como certamente saberão.

O gato de hoje é preguiçoso, indolente, tem o tamanho certo para caber numa mala e não precisa de ser passeado. Dispensa atenção excessiva, não chora, não precisa que lhe mudem as fraldas, lava-se a si mesmo e mesmo assim preserva a sua fofice, o que é óptimo nestes tempos em que não queremos ter de nos preocupar muito por muito tempo nem dispensar grandes cuidados de manutenção. E, como espécie de bónus quando está para aí virado, ronrona de satisfação quando lhe mexem ou enrola-se dolente em torno das nossas pernas. Costuma ser o único ser vivo a quem ela consegue extrair uma reacção semelhante e só isso a faz agarrar-se ao gato como se fosse o salvador do seu mundo. O seu Messias. O seu Sebastião.

Este agarrar ao gato não é somente metafórico, é mesmo real: não raras vezes, todas as fotos que despeja nas redes sociais envolvem um meme dum gato, a fábula dum bichano ou a descrição das tropelias do felino. É o seu único amigo, que só não é amante porque… bem, porque a pila do gato é invisível e a bestialidade tem limites. A devoção roça a obsessão. É a cama do gato, o brinquedo do gato, a tosse do gato, o gato é o namorado que nunca tiveram, por nunca se queixar e gostar dos seus miminhos, o gato é o filho que aspiram a ter, por concentrar em si todas as suas atenções. E depois vem mais um gato. E outro, só porque estava a miar choroso e perdido junto ao caixote de lixo. E depois afinal o gato era gata e está mais uma ninhada à porta, à qual não se irá torcer o pescoço ou atirar-se ao rio. A casa está infestada de pêlo e há um cheiro pertinente a urina junto da caixinha de areia, as cortinas e sofás estão rasgados e há vários pertences espalhados pelo chão, livros despedaçados e comandos desaparecidos, mas ela não se importa, porque nessa altura ela já se rendeu aos encantos do Deus-gato e a suas lacunas sociais resvalaram para uma semi-loucura que ninguém tem coragem para lhe apontar. Se é que alguém se importa, afinal. É que, entretanto, já todos se aperceberam dos sinais de alerta que emanam duma gaja demasiado agarrada aos gatos: sim, há ali muito recalcamento e sexualidade reprimida e o bicho canaliza em si todo esse esgoto emocional. E nem mesmo os trabalhadores das águas gostam de inalar o aroma das ETARs. Alguns dirão “bem-feito”: são os que desconfiam da impassibilidade dos gatos e preferem a simplicidade canina, ou aqueles que nem sequer gostam de animais de estimação.


Qualquer gato serve. Porque à noite, dizem, todos os gatos são pardos. Qualquer um, com o seu pêlo fofo e olhos penetrantes, cumpre bem a sua missão actual: amparar emocionalmente gente com pouca fé numa humanidade egoísta e muita crença nas capacidades reabilitativas dos animais. Que não falam, mas é como falassem, porque os donos imaginam todo o processo comunicativo do seu gato duma forma que nunca conseguiram estabelecer com os humanos. Todos os vaidosos donos de animais falam com eles como se pedissem pareceres a doutos consultores e aquiescerão que ao seu animal “só lhe falta falar”. E como falam estes gatinhos sem dominar a língua, segundo o dono, o único que consegue decifrar o que significa o miado mais longo, ou o arrebitar dos bigodes ou mesmo as pequenas torções das orelhitas. Os donos rendem-se perante tanta evidência adorável. E assumem “o meu gato é que manda em mim”. Imaginam ela a dizer, “o meu marido, o Sebastião, manda em mim e eu adoro-o”? Não, pois não? Seria ridículo uma mulher moderna ser dominada por um homem, mas ser dominada por um gato é aceite e até divulgado com um estranho orgulho. Este gatinho nem se chama Sebastião, mas podia. Porque já lhe salvou muitos futuros ao servir de único e superior conforto nesta vida. E um dia, por entre o nevoeiro, haverá de chegar o redentor. O famoso desejado que teima em não sair da bruma, para juntos construírem uma frutífera união entre mulher, homem e gato. Assim espera. Vai esperando, enquanto o Bolinhas lambe as suas próprias bolas, num gesto tão indecoroso quanto natural, mas sempre charmoso, como só os gatos sabem. Não é, Bolinhas?

25 novembro 2015

Protocolos

O protocolo pode ser definido como “o conjunto de formalidades e preceitos que se devem observar em cerimónias oficiais ou actos solenes”. O protocolo pressupõe maçada. Quando imaginamos mentalmente a imagem dum protocolo, o que nos vem à mente não é um grupo de louras mamalhudas em biquíni, champanhe ou música trance; é sim um grupo de homens grisalhos ou carecas muito sisudos e em trajes muito engomados, palavras tão grandiosas quanto de circunstância, discursadas num ambiente tão pomposo quanto frio – e geralmente com más condições de som e de acústica em geral, o que dificulta ainda mais a compreensão –, bem como uma completa submissão a regras de etiqueta tão rígidas quanto tacitamente aceites pelos intervenientes. O grande frisson advém das costumeiras fugas ao protocolo, o gozo supremo dos jornalistas, cometidas por elementos cuja distracção momentânea lhes custará severos olhares de reprovação, tão acutilantes quanto embaraçados, pelos restantes membros protocolares. Sim, o protocolo é tão entediante que a fuga ao próprio é tida como natural, mas nem por isso perdoada. Um pouco ao contrário dum Estado qualquer deste mundo no qual o prisioneiro que se evade da prisão e é recapturado não receberá nenhuma pena adicional, porque esse Estado reconhece que fugir das grandes chatices é simplesmente humano e racional (é verdade e penso que seja o México, mas googlem para terem certezas); não, o desrespeito ao protocolo, especialmente aquele que é cabalmente perceptível até para a mais ingénua dona-de-casa, será glosado e exposto vezes sem conta, partilhado até à exaustão, como uma piada fácil ao som da marcha do Benny Hill, que todos gostamos de figuras parvas cometidas pelos outros.

Mesmo na minha terra e enquanto miúdo, havia protocolos muito concretos que devíamos respeitar. Todavia, não eram assim tão aborrecidos - pelo menos, para alguns. Com toda a conotação de algazarra que lhes estava associada, estes actos assemelhavam-se mais a “praxes” do que a “protocolos”. Assim de cabeça, quando alguém se apresentava de ténis novos, havia que “estreá-los” condignamente: a tradução prática deste protocolo consistia no pisar dos ténis em causa ou em sujá-los com um pouco de terra. Se houvesse cinco indivíduos que notassem no novel calçado, cinco indivíduos deveriam molestar inequivocamente esse calçado e o portador do mesmo só tinha mais que comer e calar, aguardando pacientemente pela sua oportunidade de retribuição. Também houve uma fase em que qualquer ida ao barbeiro significava uma protocolar reacção de “cabelinho à foda-se…”, dirigida com sentido desprezo a quem se apresentava com um novo penteado. Conta-se que a expressão nasceu por quem, em tempos imemoriais, só conseguiu exprimir “fooooooooda-se…” (assim mesmo, demorando no “o” para conferir mais despeito) perante um corte de cabelo que se lhe afigurou como anormal ou mesmo ultrajante. O certo é que a tradição pegou e assim desabrochou um protocolo. Também entre os rapazes se constituiu o duro protocolo de fazer “amostras” aos outros rapazes acabados de chegar ou a outros sacos de pancada, que consistia em revelar de forma bruta e discutivelmente humilhante as partes baixas desse rapaz em público, ou até a contundir-lhe os testículos com o recurso a objectos pesados ou aos próprios punhos cerrados. Há quem se refira a isto como “bullying”, mas isso é um conceito muito urbano deste século; antigamente, estávamos perfeitamente concentrados no protocolo e era a ele que nos entregávamos, sem nos alhearmos com mariquices sociológicas. E quando se começava a fumar, havia o estranho hábito de virar um dos cigarros ao contrário quando se abria o maço. Havia quem se agastasse caso o ritual não fosse cumprido. Era um protocolo inexplicável, quiçá com raízes supersticiosas. Ou então era simplesmente estúpido.

De qualquer forma, estes exemplos reflectem uma face menos aborrecida do protocolo. Isto é, o protocolo não tem de ser um fastio, em ocasiões concretas até pode ser um salutar reforço de um determinado espírito de comunidade, de consolidação de uma tradição genericamente aceite. Mas a maior parte das vezes é mesmo uma chatice pegada. E em determinadas circunstâncias ultrapassa a fronteira do inofensivo bocejo para entrar nos territórios da dor. Uma dor pungente e depreciativa, como se uma crise dum pequeno nervo dentário se alastrasse e se magnificasse no sistema nervoso central. Ele há protocolos plenamente insuportáveis para certos intervenientes.

Por exemplo, e correndo o risco de datar este texto, o empossamento de António Costa como Primeiro-Ministro por Cavaco Silva será seguramente um protocolo muito difícil de suportar pelo último. Que lhe dessem todos os sapos, dragões, elefantes deste mundo para engolir; que lhe enchessem o sistema digestivo dos mais aguçados espinhos, cardos, rosas e prosas que pudessem arranjar; que lhe arrepanhassem a pele a sangue frio com um bisturi e o deixassem em carne viva num tanque de álcool etílico puro e depois jogassem com azeite a ferver naquilo que sobrasse; que lhe rebentassem o esfíncter com um pau de um furioso cavalo negro africano durante horas ininterruptas, depois de uma sobredose do mostrengo em Pau de Cabinda e de Libidium Fast, e com o Futre a falar-lhe parvoíces ao ouvido enquanto durasse esse martírio; que lhe hackeassem a página no Facebook e que revelassem fotografias da sua juventude, onde aparecesse mascarado com um tule cor-de-rosa cheio de folhinhos e com a inscrição “pões-me louco, Dias Loureiro”; que lhe cometessem as atrocidades que os árabes não têm coragem de pensar em fazer aos judeus, mas que lhe dispensassem desse tormento que é ter de indigitar formalmente o Costa.

É que para Cavaco, esse acto solene é muitíssimo pesado, muito mais do que o ambiente já de si grave da Ajuda. There is much more than meets the eye. Cavaco tem pesadelos com esta tomada de posse, em pleno salão nobre do palácio. Neles Cavaco surge titubeante, como num 10 de Junho qualquer, pálido, suores frios, semi-frios e quentes a alagarem-lhe as roupas, que parecem estar mais apertadas que o habitual. Costa e todo o seu séquito de ministros e secretários de Estado estão ufanos, sorridentes, eufóricos até, contrastando com a inexpressão de uma série de sumidades indistinguíveis e o mau-estar mudo do governo cessante. Há flashes e barulho de fotografias a serem tiradas e este é todo o ruído que perpassa aquele salão cerimonial. Estão todos alinhados e aprumados. Depois, Cavaco, a custo, aproxima-se do microfone e profere, enfrentando o clarão dos potentes holofotes que o cegam, “na qualidade de Presidente da República Portuguesa (…), procederei então ao empossamento do Dr. António Costa como Primeiro-Ministro do XXI Governo Constitucional”. Costa dá uns passos em frente e aproxima-se da mesa, daquele imponente mesão no centro do salão que parece já ter sobrevivido séculos sem nunca nenhum caruncho lhe ter chegado. Sorridente, como sempre. Cavaco tremelica. Em cima da mesa está uma terrina de prata brilhante sobre uma bandeja igualmente prateada e um pequeno atoalhado branco, impecavelmente dobrado, à ilharga. Dentro da terrina, água. Morna. Cavaco detém-se por um momento frente-a-frente com Costa e faz-lhe um pequeno sinal com a cabeça. Costa percebe que é a sua vez de cumprir com o protocolo. E então revela finalmente aos presentes as suas calças compradas especialmente numa sex shop para esta ocasião, com um grande orifício na área genital donde brotam os seus testículos. Costa está vestido com um fato de corte italiano e gravata monocromática e calçou uns belos sapatos reluzentes, mas tem os tomates ao léu. Dois genuínos colhões de homem maduro, ligeiramente descaídos – se calhar, esteve a bater demasiadas punhetas recentemente. Olha de soslaio para as objectivas, como que a perguntar “estão a conseguir apanhar bem este par de colhões?”. Os flashes multiplicam-se, como que a responder “sim”. Cavaco olha sem paixão para os colhões retintos de Costa, que fez a depilação de propósito para a cerimónia, mas ainda deixou um ou outro pintelho espetado para não duvidarem da sua masculinidade. Cavaco, engolindo em seco, lábios todos torcidos para dentro, molha as mãos durante poucos segundos na terrina. As câmaras captam tudo. Depois, limpa o excesso de água no atoalhado, mas com tamanha deferência que nem sequer estraga as dobras. E então move vagarosamente as suas mãos no sentido dos túbaros de Costa, que nesta altura já assumiu uma pose de toureiro, mãos na cintura e flectindo a zona pélvica na direcção de Cavaco. Cavaco apalpa os colhões de Costa no meio da sala, junto à mesa, com todos os mais altos dignatários da nação presentes e todas as televisões a transmitirem em directo e a fazerem um zoom in nos tomates do Costa; há tweets sobre os dois pintelhos espetados do Costa, comentários sobre o volume das duas bolinhas do novo Primeiro-Ministro, mulheres que reparam nas unhas tratadas do Cavaco e da suavidade com que ele mexe nos colhões do Costa. Nota-se que Costa está a desenvolver uma ligeira erecção e há alguma agitação atrás dele, onde os vários ministros quase que se empurram para conseguirem ver o acto de empossamento mais de perto e há muito óculos a serem ajeitados, assim como algumas línguas mordiscadas e gente que sussurra “aperta-me esses colhões, porco!...” ou “foda-se, monhé nojento de merda!”, consoante as posições partidárias. Costa perde o sorriso; agora está concentrado na fruição do prazer, físico e mental, que lhe invade o corpo e o faz esticar os lábios escuros e carnudos para fora, com gotículas de suor a descerem-lhe da testa: está a ficar excitado. E Cavaco, sem olhar Costa nos olhos, vai revolvendo nos seus colhões, com os seus olhos mortiços e a saliva a empapar-lhe a boca. Cavaco pára por segundos para olhar para as objectivas e permitir aos fotojornalistas obter uma boa carteira de imagens em que Cavaco possa surgir fotogénico, na medida do possível. Há um frémito de flashes e fotografias. Costa solta, com o seu perfeito sotaque de filmes pornográficos espanhóis, enquanto balanceia suavemente o torso e deixa perder o controlo momentâneo dos sentidos, “Sí, señor Presidente… Sííííííí… Oh, sííííííii… Me pones loco… Oh sí… Sí… Síííííií… Uooooh… Empossa-mos, Cavaco!”. Cavaco cumprira assim o protocolo e Costa está formalmente empossado depois de finalizado este acto. O salão irrompe numa salva de palmas e os jornalistas andam doidos de um lado para o outro para conseguirem as melhores posições de reportagem. Costa está, decididamente, de pau feito, mas nem isso o demove de abraçar toda a sua equipa, um a um, verdadeiramente feliz. Um ou outro ministro olha de relance para os genitais do Costa e pensa em apalpá-los, mas inibe-se e acaba só por se roçar neles enquanto abraça Costa. Mas acaba por também ele ficar com pau feito e pensará em incluir este momento marcante no seu livro de memórias. No meio de tantas erecções e das atenções todas centradas nos testículos do indiano Costa, Cavaco retracta-se para as sombras. É um homem sozinho e vencido. Toda a sua expressão corporal exclama “derrota vergonhosa” em alto e bom som. Os seus seguidores não lhe dão sequer a veleidade dum simples aperto de mão. Não daquelas mãos que tocaram nos colhões do Costa. Nem pensar. E então Cavaco acorda, estremunhado. Anda com sonhos destes há semanas. A realidade, para ele, será quase igual à ficção que ele inconscientemente criou.


Há, portanto, diferentes categorias para os protocolos. Apesar de tudo, nem o mais efusivo dos protocolos abandona a ideia de parecer forçado e de constituir um evento nos antípodas de uma festa repleta de alegres convivas. Num óptimo de Pareto, as partes sentir-se-ão igualmente desmotivadas; quanto muito, haverá apenas uma parte mais agradada e outra que bem que preferiria estar noutro lado a fazer outra coisa. Mas a situação de desconforto protocolar perpetua-se, porque os protocolos raramente se discutem, por mais entediantes que possam ser. O protocolo é demasiado importante no seu simbolismo para ser discutido. É assim e assim deverá ser. O público geral até leva a mal não se cumprirem os mesmos preceitos de sempre. Por causa disto, Cavaco não será poupado à gigantesca humilhação pessoal naquele que será o seu último grande evento protocolar, o empossamento de Costa – admito que para ele este derradeiro protocolo estará algures entre o seu pesadelo e o murro no abono de família que antigamente sofriam os rookies da minha terra, pese embora toda a formalidade asséptica com que nos será apresentado. Senão algo ainda pior.

19 novembro 2015

Eddie Vedder

O Eddie Vedder enjoa. Já enjoa há algum tempo. Apanhei uma sobredose de politicamente correcto, deve ser esta a causa deste desgosto. Houve um tempo em que até achava piada aos cabelos compridos, camisas de flanela ou militaristas, calças gastas e botas ou outro calçado ratado. E também às exortações para a libertação do Tibete, às ondas do mar e praias prístinas, às crianças que nunca conheceram o seu pai, às referências a uma espécie de mescla entre Sérgio Godinho com José Afonso nascida no Canadá que era o Neil Young e aos gajos que andavam sempre com uma viola atrás, não fossem eles encontrar uma fogueira onde pudessem demonstrar toda a sua imperícia a tocar “Black” ou “Daughter”. Eu considerava que estas eram das melhores canções de sempre, mas naquele tempo ainda sabia menos da vida do que agora. Havia todo um conceito estético e espiritual associado ao Vedder, que granjeou grande sucesso na juventude chamada “fixe” nos anos 90 e cujos efeitos ainda se podem encontrar, com a natural adaptação aos tempos modernos. O Vedder era o super-fixe, o modelo a seguir, porque fazia música porreira e defendia causas ambientais e sociais de justiça inquestionável. Ele era o filho que qualquer hippie desejaria ter, a representação da rebeldia consciente, fundada e confinada. Não era um fogo contestatário niilista e vazio, de consequências imprevisíveis, como o que deflagra na juventude quotidiana; era uma fogueira que era olhada com certa parcimónia pelos poderes, que nessa altura estavam bem definidos e eram sobretudo pais e professores. A fogueira está sempre presente quando se fala de Vedder e das suas sósias, os pearljamistas, nem que como metáfora. Todos nós conhecemos algum pearljamista, algures na vida.

A fogueira consumava o apogeu do pearljamismo. Era aí que a malta fixe e preocupada com a sustentabilidade de recursos gostava de afirmar as suas vaidades, fomentando a queima da biomassa para calor e iluminação. A luz crepitante e as fagulhas inspiravam os pearljamistas a dedilhar a sua viola e a soltar um vozeirão artificial de quem está a engolir um microfone no fundo dum poço. Isso cativava as gajas, especialmente as adeptas de missangas, florzinhas no cabelo e malas volumosas a tiracolo, que respeitam muito os animais e fazem reciclagem. Se a gaja fosse vegetariana e dissesse que de religiões só o Budismo (“é mais uma forma de ser e de estar do que uma religião”), então era certinho que ficava caidinha. E todos sorriam muito e batiam palminhas no final de cada actuação esforçada. Era uma comunhão íntima entre os Homens e a Natureza, reforçada pelo costumeiro cigarrinho. De enrolar, claro, que o papel é mais natural e sempre baixa um pouco a receita das grandes corporações tabaqueiras internacionais, essas exploradoras sem pudor. Tenho para mim que grande parte dos pearljamistas se chamavam Nuno, eram baixinhos e magrinhos e estavam sempre a desviar o cabelo dos olhos enquanto diziam “iá, ‘tás a ver?”. Hoje em dia são programadores informáticos ou são comentadores televisivos e não revelam especial orgulho por poderem ter sido considerados sósias do Vedder. Porque isto do pearljamismo pressupõe que os indivíduos, seguindo todos a mesma cartilha, são muito seguros de si, avessos a rótulos e a outras caracterizações da “maldita sociedade capitalista”. Será o pearljamismo iconoclasta? Sim, para os casos que o profeta Vedder determinar.

Podemos dividir este tema de antipatia para com o Vedder em duas categorias. O primeiro tem a ver com o declínio evidente da banda dele. Duvido que eles tenham angariado muitos fãs nos últimos tempos com pecúlio tão desinteressante. As suas posições políticas e as suas letras fazem as delícias de toda uma turba moralmente inatacável, mas há uma sensação de que o disco – que não o suporte musical físico propriamente dito – está irremediavelmente riscado. Os primeiros cinco álbuns são bons, uns mais que outros, foram os que definiram o estatuto da banda e ainda se ouvem hoje em dia, nem que como colírio para a música ainda pior que se vai produzindo – alguma dela tenho mesmo dificuldade em categorizá-la como “música”; desde que veio o século XXI que os Pearl Jam são uma caricatura deles mesmos. Hoje, valem muito pouco e certamente valem muito menos do que a nossa nostalgia nos quer fazer crer. Já deviam ter parado de vez, assumido a sua desinspiração e continuavam a fazer umas digressões para os pearljamistas, sempre que se sentissem aborrecidos e/ou com falta de peso na carteira. Não os culparia por isso; afinal, é difícil estar sempre no top, ainda por mais na indústria deles. Modas vêm e vão, eles tiveram o seu tempo e agora é a vez de outros brilharem. Há apenas uns quantos fenómenos de sucesso que extravasam mais que uma década e os Pearl Jam não são decididamente um desses casos. O Kurt Cobain é que sabia das coisas e matou-se antes de decair. Resultado: não teve de andar a arrastar-se e a prolongar artificialmente a vida útil da banda, banalizando o que de bom foi feito. A banda envelheceu bastante, e mal, em termos musicais. Já está bem imiscuída no tal circuito dos “velhos”, das bandas que enchem estádios só pelo nome e mesmo que só esteja previsto soltar gases no cartaz, à laia duns U2. Os últimos álbuns dos Pearl Jam foram um ataque deliberado à memória deles, ainda que não tenham existido críticas assim tão contundentes a essas pobrezas musicais. O que se explicará pela simpatia socialmente aceite do Vedder.

O segundo aspecto vem desta sua imagem de afabilidade e da personagem em si. Se o Vedder fosse português, isto é, imaginem o Miguel Guedes por um momento, ele seria do Bloco de Esquerda. Tal como o Miguel Guedes. E isso é extremamente enjoativo. O Bloco de Esquerda exala todo um fedor de perfume chique misturado com fumo de cannabis que é francamente irritante. Eu só concebo gente normal do Bloco de Esquerda, vá lá, até aos 25 anos de idade, altura onde deverão, como sói dizer-se, “crescer e ganhar juízo”. A partir daí, se ainda continuam a apoiar o Bloco, é porque são manipulados ou são manipuladores (a ganza também ajudará a confundir as almas mais susceptíveis). O Vedder de hoje dia, como ele próprio confessou, é um gajo de bem com a vida e cujo eco das suas posições ganhou peso com o passar dos anos, ao contrário da sua música. Tem o seu pé-de-meia, gosta do seu vinho, faz o que quer. Isso de andar pendurado em tabelas de basquete e amuado com as revistas e as promotoras é coisa do passado. Mas, sentado no seu confortável cadeirão, ainda mantém a lengalenga de que os “capitalistas selvagens destruíram o nosso belo planeta”, “há fome por todo o lado”, “transgénicos nem pensar”, “devíamos ser todos iguais”, “segue os teus sonhos”, entre outras tiradas impregnadas de idealismo que seriam gozadas se proferidas por uma louríssima candidata a Miss Universo. A maior parte dos pearljamistas modernos também é assim, mas com uma diferença fundamental face ao Vedder: este pessoal não gosta de admitir que a vida lhe corre bem. É feitio e defeito. Então recrudescem a sua revolta “aos grandes interesses financeiros”, “aos machistas e sexistas”, “aos racistas e terroristas”, “ao Governo que não me disse que se eu estudasse psicologia não teria emprego”, entre outros alvos fáceis e genéricos. Mas até agora, a maior privação que esta gente teve foi quando ficou sem bateria no telemóvel durante meia-hora, que comida, roupa, viagens, hospitais e escolas privadas, gadgets e até idas os concertos dos Pearl Jam nunca lhes faltou.


O Vedder pode não perceber, ou estar-se a borrifar, que a sua ética aparentemente incontestável, aliada à música tão irrelevante conquanto pretensiosa, o poderá guindar ao patamar de ridículo onde o Bono está hoje em dia. Será uma heresia dizer isto aos pearljamistas. “Não, ora essa, o Vedder é sempre uma referência, um símbolo cultural, o Lennon da nossa geração”. Para mim, o Vedder está tão gasto como a roupa da moda dele. Tão gasto, tão insignificante e tão irrepreensível que nem sequer tem um fanático que lhe dê um tiro como ao Lennon. 

O Nuno está melhor. Já não está tão escanzelado, embora também já não tenha tanto cabelo. Arranja-me uns filmes fixes e tem um bom gosto musical, em termos gerais. Instalou um sistema de som no escritório do seu T3 em Odivelas que é um mimo e que assusta o gato da vizinha do lado, o que já motivou queixas na reunião de condomínio. Mas o Nuno é “aquela base”, ri-se e continua a testar as capacidades das colunas. E as vidas do gato. Possui contactos porreiros para questões informáticas e ainda fuma umas ganzas de vez em quando, se a mulher não o chatear muito. Diz-se afastado do pearljamismo, já não é sequer praticante assíduo, o trabalho e o filho ocupam-lhe o tempo. “Iá, mas continuo a curtir a cena, ‘tás a ver?”. Sim, claro. Apenas era muito melhor quando dizias isso e desviavas o cabelo, lá junto à fogueira com a Catarina Martins embevecida a olhar para ti.

01 novembro 2015

Comic Book Guy




Já chove. Chover é bom. Medra as coisas verdes. No plano material, as coisas verdes fazem o mundo avançar. Sabe isso desde os livros de ciências da preparatória. Existem incontáveis documentários sobre o tema. Há todo um ciclo engendrado pela Natureza que nunca falha. A Natureza é a maior e melhor argumentista de sempre. Um blockbuster que não pára de surpreender. São temporadas e temporadas de êxito permanente. Vê lá tu que toda a gente morre, todos os bichos que alegremente saltavam ao nosso lado se fenecem em pó e no entanto o vento continua a soprar, o sol a nascer, as estações a suceder-se com maior ou menor variação, as coisas verdes a criar raízes que rebentam o betuminoso e ocupam as casas devolutas, duma forma que deixaria os militantes do Bloco de Esquerda corados de vergonha. A Natureza não tem complacências. É muito mais assentimental do que julgamos. É assim desde que há registos, nem se sabe bem como começou. Dizem que foi uma grande explosão. À falta de melhor explicação, aceita esta. Uma grande explosão a qual podemos imaginar com os nóveis efeitos 3D, manipulados através de programas informáticos bastante evoluídos. Que irão evoluir ainda mais. Qualquer dia há-de conseguir-se chegar perto. Há tentativas a ser levadas a cabo num laboratório lá para França. Havemos de conseguir. Talvez não no nosso tempo.

O tempo agora é de chuva. Não é nada mau. Dá uma bela desculpa para ficar em casa. Nunca quis mais do que ficar em casa. O mundo lá fora não é assim tão bonito. E não é pela Natureza, a Mãe, que essa sabemos ao que vem; é mesmo pelas pessoas. Que são imprevisíveis, cruéis e chatas. Aberrantemente imperfeitas. Muito aborrecidas. Limitadas, que nem um Pentium IV com memórias analógicas na segunda metade do século XXI. Como uma mulher no auge do seu ciclo menstrual, não vale a pena tentarmos descortinar o que as pode tornar mais agradáveis. As pessoas ausentam-se, adoecem, irritam-se, falham, enfim, não são de fiar. Não se pode programá-las a ligarem e desligarem como queremos. Não dão sinais evidentes de aviso que a sua bateria está fraca. Têm sentimentos, magoam e são magoadas por coisas imperceptíveis. Nunca surgem avisos de que há um malware que precisa de ser desinfectado. Os anti-vírus convencionais não costumam chegar. E é sempre assim. Por isso mais vale ficar no seu espaço do que ocupar o seu precioso espaço. Sem chatear e sem ser chateado. Há muito software giro para ser descarregado. Séries, jogos, aplicações diversas para tudo e mais e alguma coisa. Utilíssimas, giríssimas, com interfaces intuitivos em cada upgrade. Novos equipamentos gráficos e de som a instalar na máquina.

A máquina. Há que tratá-la com respeito. Actualizá-la frequentemente. Substituir peças obsoletas, protegê-la do frio e do calor. A máquina também tem sentimentos. Não gosta que lhe cortem a electricidade de forma repentina, também se atrasa e demora a responder se a atafulharmos de lixo evitável, reage se quisermos fazer batota com ela. Mas a máquina é muito mais leal. Quando falha, sabe subtilmente dizer que a culpa foi nossa. E nós reconhecêmo-la, com uma humildade intrinsecamente humana. A máquina não é humilde, mas também não nos enche com bazófias espúrias. A máquina é tão boa que, se a máquina tivesse orifícios envoltos de carne, fornicá-la-ia. É a sua única limitação visível. Mas, quem sabe?, um dia será possível. Como no filme “Demolition Man”, mas melhor. Das máquinas só podemos esperar o melhor. Isto se não houver ninguém estúpido por perto. O mal das máquinas é haver gente estúpida a mexer nelas.

É que, por vezes, também gostaria de sentir um abraço, um toque morno, uma palavra inesperadamente gentil, um gemer de prazer. Mas isso acaba por passar. É só procurar alguma coisa na máquina que debele essa fraqueza de espírito tão humana. E depois dar largas aos nossos recorrentes e fúteis anseios. A máquina nunca recrimina. Com ela o segredo está guardado, se assim o quisermos. Com ela vamos a qualquer lado. Espreitar qualquer perversão, inventar qualquer diálogo, estabelecer conexões ou aprender coisas sem o peso físico das velhas enciclopédias. Saibamos nós as suas linguagens. E ele sabe. Passou dias, meses, anos a treinar códigos e a perceber de cabos e de ligações sem fios. Outros gastaram esse tempo a brincar sem objectivo. Já percebe muitas manhas, truques e dicas que a maior parte das pessoas não domina e às quais demonstra uma certa relutância a educar. Porque as pessoas são estúpidas. Acho que já tinha escrito isto, ou pelo menos a ideia já deveria ter ficado clara – isto, obviamente, se as pessoas que lêem os outros não fossem assim tão medíocres. Estou a entrar num loop. A máquina também fica agastada com os loops, mas geralmente basta carregar no Esc ou estabelecer qualquer maningância com as teclas Ctrl+Alt. Nas pessoas, os loops costumam ser insolúveis e não é gerado um blue screen. Lamentavelmente. É um erro básico de codificação. Um defeito de origem que persiste para mal dos seus pecados.

E os pecados da gente são muitos. Dantes, perdia a alegria quando lhe recriminavam por ser muito gordo, muito compenetrado em si mesmo, sem requisitos sociais apurados. Mas depois aceitou esses esgares dos outros como parte do pacote onde estava inserido. Ao contrário do serviço de internet, o desdém dos outros não é negociável. Assume-se. É uma variável exógena. Resta controlar a sua parte. Se é chato? É. Também já escrevi que não há nada tão chato como as pessoas. Então investiu no seu próprio prazer: a certeza de se sentir superior num capítulo muito exclusivo, a total consciência de que "isto não é para todos". Não é um prazer que decorra do deleite visual, nada disso. Não há cá partilhas de paisagens fantásticas no Instagram nem de poses sensualmente tratadas para a inveja do Facebook – e ele saberia exactamente como torná-las fantásticas se quisesse, e até em plataformas bem mais estimulantes que essas a que a maralha acede em massa. Parecem búfalos numa manada. “Búfalo” quiçá o chamem em surdina, mas ele não quer saber dos ditames físicos. Reconhecendo a desvantagem, e a pouca propensão para entrar nesses jogos frívolos, ele investiu no recolhimento e no saber. É, bem vistas as coisas, um monge da idade informática.

Ainda assim, tem amigos. A maior parte nunca os viu. Estão longe, numa máquina semelhante à sua, a trocar preciosas informações num ambiente selecto e protegido. Estão todos bem e confortáveis assim. São eles quem verdadeiramente sabem interpretar todos os seus tiques de expressão no teclado e valorizar o conhecimento que detém sobre matérias aparentemente inúteis para a gente. Essa gente banal, a atirar para o ridículo com as suas mundanas preocupações sobre o estilo e pose, vãs com os seus sentimentalismos incipientes. E depois tem conhecidos. Tipos geralmente de óculos, gajas vestidas de preto, gente de poucas palavras. Preferivelmente, de poucas palavras, anotou ele no anúncio mental sobre as pessoas que quer deixar aproximar do seu círculo. As palavras costumam ser demais, vezes demais. Geram erros. Causam trapalhadas. E depois há que percorrer todas as linhas de código assinaladas a amarelo e perceber como meter a coisa a funcionar – se as pessoas funcionassem como as máquinas; na realidade, na dura e triste realidade, ficamos muitas vezes sem perceber nada. É frustrante. Com a máquina sentimo-nos desafiados, motivados a percebê-la e recebemos gratificações quase instantâneas. Fugimos do choque. Geramos rotinas que impliquem a redução do risco. Há muito risco no contacto humano, e não apenas para a transmissão de doenças. Isso é o menos. O pior é mesmo a confrontação com a estupidez humana que espreita em cada esquina. Um horror. Sem perfil previamente verificado, há sempre que desconfiar do próximo.

Felizmente, hoje chove e ninguém, nem mesmo os mais distraidamente néscios, o irá importunar. Porque quem anda a chuva molha-se e isso geralmente retrai as pessoas. Foi um bom dia. A velocidade de download foi superior ao normal e conseguiu-se sacar mais uma série completa para ver ao jantar, composto por fritos e regado por bebidas carbonatadas. Dizem que morreu muita gente ultimamente. Atentado ou acidente, se for mesmo espectacular farão um grande filme disso e ele irá obtê-lo em primeira mão. Para então poder lançar a sua crítica especializada. “Worst. Movie. Ever”. Costuma ser assim. Intérpretes parvos só pode dar nisso, em fracassos previsíveis. Só a máquina salvará o negócio, com a sua técnica requintada por intermédio de uma vasta gama de tipos conscientes como ele. Não um, não dez, não cem; são milhares de tipos como ele, num silencioso trabalho organizado, é que dotam os servidores e recrudescem o poder da máquina, fazendo o mundo avançar a nível intelecto-espiritual. A nível físico, a Natureza dá cabo de nós todos. Nada a fazer.