05 novembro 2013

Maria

A sério que há qualquer coisa sobre a Maria. Não que ela seja um trambolho. Não é. Mas o que faz com que os homens comecem a salivar quando a vêem? Ela teoriza com isso, diz que é por ser simpática e por ter confiança em si mesma. Tudo bem, é certo que isso ajuda. Mas não explica tudo. Consigo nomear uma mão cheia de casos semelhantes sem o mesmo sucesso. Consigo identificar uma pazada de gajas mais apelativas fisicamente que ela e, é isso mesmo, essa pazada de gajas não desperta o mesmo burburinho junto da turba masculina. Deve ser o conjunto, a soma das partes inferior ao todo, que faz a diferença não totalmente perceptível por mim. E ela, embora talvez não tenha consciência da relativa facilidade com que cativa as atenções másculas em comparação com outras gajas, está ciente que é uma musa para muitos. Depois é só escolher: este é o grande dilema dela, a tomada de opções, aquilo que lhe dá dores de cabeça. É a crise da abundância.

Maria é daquelas que está terrivelmente apaixonada por umas semanas até mudar a agulha para outro candidato que entretanto conheceu inesperadamente em sítios tão díspares como um restaurante, uma discoteca, a praia ou um transporte público. As coisas parecem bastante fáceis. Amor vai e vem como uma locomotiva que destranca, dá a volta e engata agora no sentido oposto para iniciar uma nova viagem. Não, as coisas não parecem fáceis; elas são mesmo fáceis. Os homens imediatamente passam a contactá-la via Facebook, e-mail, SMS, instant messaging e coisas de contacto virtual que eu nem sei que existiam e logo se arranjam saídas, almoços, jantares e cinemas com uma facilidade impressionante. Ela diz-me que são sinais dos tempos. As redes sociais estão aí em força e apressam a coisa, mesmo que o contacto físico tenha sido ínfimo. Isto custa ao indivíduo tradicional que gostava de espreitar a amada a ir à janela no cimo de uma árvore, fá-lo sentir a preto-e-branco, de volta ao tempo pré-industrial. Até o Hi5, vejam bem!, o Hi5!, pode servir para estas coisas e ela assegura-me que já houve casamentos que começaram no Hi5. Vale tudo, má escrita, fotos escandalosamente pretensiosas, conversas ridiculamente formatadas, gostos confrangedoramente deslocados só para manter o chat vivo, nada se nega à partida. Maria não costuma dizer que não. E se disser, é porque o gajo que a abordou é mesmo mau. Meeeeeeeeeeeeeeeeeesmo mau, talvez não tenha os dentes posteriores e nem sequer tenha concluído o 9º ano. Esta abertura também propicia a aventura, certo, mas ela continua num pedestal de adoração que raramente assisti.

Eu sei disto tudo porque me tornei numa espécie de confidente dela. Devo ter sido o único que não me babei quando a vi, nem lhe fiz algum convite para qualquer coisa ao fim de cinco minutos, nem sequer partilho fotografias com grupos sorridentes em sítios com muito hype nas redes sociais. Por variados motivos, como ser um atadinho no contacto com gajas e, principalmente, creio eu, por não estar mesmo interessado nela. E então acabei por tornar no “amigo”. Ou, como eu penso várias vezes, no “desgraçado”. É péssimo. Não pedi por este estatuto e não o quero. Parece que fui entalado num enredo de comédia romântica com a Jennifer Aniston e estou ali num plano secundário, algures entre o gay e o geek, naquela zona cinzenta dos “gajos que não papam nada e são suficientemente totós e confiáveis para ouvir os queixumes das gajas”. Sou uma espécie de “comic relief” dela. Ter a sensação que estou a desempenhar esse papel num filme de gaja já é muito mau por si só. Viver essa sensação sem haver câmaras à volta nem um retorno monetário à minha espera é visivelmente perturbante. Fui ficando amarrado a esta situação e agora é difícil dar-lhe a volta, vai-não-vai lá vem ela meter conversa. E há uma pressão social enorme para que eu a ouça, desde o mel do seu palavreado e maneiras até aos gajos que lá no fundo invejam-me por eu ter captado a atenção dela. Para complicar as coisas, o zénite desta proximidade apanhou-a no seu auge multi-relacional e a mim no meu nadir sentimental. E agora ela sente-se no direito e no dever de fornecer-me indicações tendo em vista uma vida sócio-sentimental esplendorosa e de me enviar links para músicas upbeat de gajas. O que tem vindo a delapidar ainda mais o meu depauperado coração e a fazer-me sentir mais nauseado com o meu contexto actual.

Estas náuseas começam a alcançar níveis físicos; não é apenas estar a dizer de boca cheia “isto mete-me nojo!”; não, é mesmo sentir o estômago a revolver-se, um vácuo que começa a centrifugar cá dentro e uma nítida sensação de mau-estar a apoderar-se. Penso em afastar-me gradualmente dela tanto quanto possível, vou ignorá-la até ela perceber que é para ir pastar longe. Não bastava eu estar ainda à procura dos cacos da minha vida partida, como agora ainda tenho de a ouvir a vangloriar-se pelo excelente fim-de-semana com um par de horas dormidas em constante festa com amigas e amigos que acabam todos na casa uns dos outros e a dormir sabe-se lá com quem, ou a nova aquisição do Facebook, ou sabe-se lá que mais, quando sinto que o meu ponto alto destes dias é casualmente encostar-me a uma gaja boa num transporte público que não se queixa com o meu tocar. Isto é muito triste, mas, enfim, foi aquilo em que me tornei. E chega. Chega de conversas que não pedi e que não me fazem sentir melhor, bem pelo contrário: é que se a Maria consegue tanta actividade sentimental, porque é que eu não consigo?


Bom, ela é gaja e abusa de vestidos e saias e sorrisos largos. É um grande factor diferenciador. Mas mesmo assim, porque é que num espaço de 3 minutos ela recebeu 3 convites para ir almoçar de grupos de gajos diferentes? Há mesmo qualquer coisa sobre a Maria. Que eu não acho que seja nada de mais, assim como o filme em si, que era uma comédia como as outras e que recebeu demasiada atenção face à que deveria ter tido. Mas quem sou eu para avaliar, afinal? Estou perante o que será uma comédia de qualidade duvidosa e enfiado num cenário de tragédia. Não consigo apreciar as coisas com critério. Não há espaço para uma pequena gargalhada sequer. Maria paira sobre mim para me lembrar que há quem tenha o toque, o olhar, o estilo, alguma coisa intangível. E há quem não tenha. Há que saber viver com isso.

31 julho 2013

A Crise

Há realidades que não são exclusivamente nossas mas que tomamos como tal. Porque há uma identificação tão forte, como uma metáfora perfeitamente esgalhada por uma entidade abstracta, que não resistimos a dizer que aquilo, que não é somente nosso, só pode ser nosso. Pode ser feitio. Pode ser defeito. Pode ser a idade a avançar e é a acumulação de experiências que nos leva instintivamente a declarar “isto aqui é a minha cara, já me aconteceu exactamente isso”. Ou só porque sim. É como aquelas letras de canções que nós pensamos que foram escritas para nós. E agora consigo jurar que o Billy Corgan e, pasme-se, o David Fonseca escreveram letras a pensar em mim. Mas houve um tempo em que tudo era belo e puro e em que eu não dava por nada. O Dentão dizia que tinha uma máquina que fazia fatos do He-Man e o Raposo dizia que tinha um carro que subia paredes “na boa” e que possuía um botão que, uma vez pressionado, fazia com que o carro crescesse sem parar, sendo impossível travar o seu crescimento e o carro nunca mais voltaria ao normal. É claro que o Dentão recebeu montes de encomendas de fatos que jamais concretizou e o Raposo nunca ousou carregar nesse botão, que nem era bem um botão, e também nunca demonstrou que o carro subia as paredes. Uma vez ainda experimentou mostrar a versatilidade do seu veículo, mas aquilo foi contra o rodapé e só levantou ligeiramente as rodas da frente. “É das pilhas, que estão fracas”, desculpou-se. Depois vingou-se e teve um Nikko telecomandado. A vida corria bem. Havia lojas abertas por toda a terra, sabíamos onde comprar saquetas de cromos “que dão prémios”, onde estavam os Bollycaos que eram fofinhos e cremosos e não os duros e oleosos donde coleccionávamos os “Tous”, jogávamos ao quarto-escuro sem falsas intenções e todos os velhos que conhecíamos pareciam que tinham sido sempre velhos e nunca iriam passar daí. Havia o bêbado Vaidoso e toxicodependente Acúrsio, a Fininha e a avó do Bispo e toda a gente dizia olá uns aos outros. Éramos gente importante e estávamos destinados a grandes feitos.

As coisas foram sendo mais ou menos assim, até mesmo quando descobrimos que já nos conseguíamos ejacular como nos filmes, pinguinhas de sémen muito aguado após visionamento de VHSs com nomes tão sugestivos como “Rampa de Bicicletas” ou mesmo outras só com uma etiqueta marada que praticamente denunciava que aquilo era “filme de foda”. Constituímos alguns punhetódromos, Ron Jeremy passou a ser um “household name” entre nós, começámos a apalpar gajas e houve quem fumasse o primeiro Surf 18 ou Golden American, autênticas zurrapas de tabaco. As lojas continuavam a bombar e foi nesses espaços comerciais que começaram a cair os primeiros gadgets, que naquela altura não eram mais que um Spectrum. Os 128k, já com leitor de cassetes incorporado, não façam confusão. Era o topo. O Dentão aprimorara uma técnica infalível para carregar os jogos utilizando uma chave de fendas no parafuso por baixo do leitor de cassetes. O Raposo deu um novo significado intemporal aos jogos “Decathlon” e “WEC Le Mans”, que não vale a pena explicar textualmente, e demorou a perceber que carregar no Space durante o carregamento de jogos abortava esse mesmo carregamento e conduzia a muita frustração, directamente proporcional ao tempo dispendido. O Securas comprou um aparelho com teclas em espanhol e foi gozado por isso, mas não fazia muita diferença: todos esperávamos horas a fio para que um jogo carregasse naquele festival psicadélico de cores e ruído que hoje até parece estar na moda e passar muito na Cidade FM, quer teclássemos em “Enter” ou “Cargar”. O Varetas e o Rajã já tinham um computador “a sério”, um Windows qualquer-coisa com monitor VGA, que eu não sabia o que era, mas que só podia ser coisa boa, porque tinha MS-DOS, cursores muito tecnológicos e as coisas vinham em disquetes, que era qualquer objecto apenas ao alcance do pessoal com mais dinheiro. Eu até pensava que eles conseguiam entrar dentro de ficheiros do FBI, CIA e etc. e poderiam salvar o mundo desde que decifrassem um código e se esquivassem a mensagens tipo “Abort, Retry or Ignore?”. Mas desde que a gente jogasse Arkanoid ou F1 Manager estava tudo OK. Não havia cá invejas. Depois vieram as Mega Drives e o Securas, sempre um passo distante dos demais, optou erradamente pela Master System e, embora defendesse que o Alex Kidd era “altamente”, o certo é que passava horas a jogar Mortal Kombat e Fifa na casa do Dentão. O desprendimento era tal que o Dentão teve um casaco da “Rébuk” que vendeu ao Securas e o Ceras comprou outro igual. Tudo perfeitamente normal. O café do pai do Daninhas continuava lá ao pé da esquina, muito pequenino e tresandando a fritos, mas com uma afluência incrível e malta muito certinha que fazia o totobola. Muita gente trabalhava nas fábricas, nas lojas e nos cafés da terra. Havia já muitos carros por todo o lado, o que não nos impedia de jogar à bola, de cautchu, quando as havia, na rua, no alcatrão, em terra batida e conhecíamos sempre os tipos que se aproximavam para reclamar um “desafio”, embora as coisas pudessem tornar-se complicadas sempre que traziam o irmão mais velho, que já tinha namorada “a valer” e que sabia o que era foder – como nos filmes. “Uau”, pensávamos, “um dia quero ser como tu, bate-chapas e sem dois dentes”. Tempos bonitos. Lá fechou aquele restaurante ao qual só fomos uma vez e até dissemos que “sim senhor, aqui come-se bem”, mas nunca lá voltámos. Desconfiávamos que aquilo não seria grande espingarda por estar sempre vazio, porém ficámos agradavelmente surpreendidos por ser porreiro. O certo é que não voltámos. E quando esse restaurante fechou, reabriu com nova gerência e voltou a fechar e a reabrir com muito mais celeridade. Ou então era só o tempo a passar mais depressa.

O tempo passava, com efeito, mais depressa. Começaram a vir chineses, indianos, brasileiros, os cabo-verdianos passaram a ser a maioria nas escolas que já não eram as minhas e o pessoal começou a andar de carro. Já não se jogava à bola. Começaram a proliferar a TV Cabo e as Playstations. O grupo tinha perdido a sua consistência inicial e entraram novas personagens, como naquelas séries que começam a perder audiência e a dar espaço a tipos que nunca foram destinados para ser os principais, mas que tinham os seus bons episódios de quando em vez. Teimávamos em ser felizes, mesmo com algum sentimento miserabilista tão pós-grunge a acossar-me aqui e ali. É que, assim em termos gerais, toda a gente vivia bem, mesmo que não se soubesse bem como. E ainda não tinha visto nada, mas julgava que podia ter qualquer coisa para me angustiar, nem que fosse o tédio. Era assim para o “fixe”. Esse grande “cool” que era o Kurt Cobain já se tinha matado mas tinha deixado sementes e um grande merchandising. Formámos uma tertúlia de devassa num café próximo e tornámo-lo no nosso território. O dono, o Tio Queiroz, barafustava e coisa e tal, mas éramos nós que lhe enchíamos os bolsos com as minis e os cariocas de limão. Foi a fase do delírio puro, do hedonismo, da desbunda pela desbunda, como se quiséssemos sorver, sem limites, os últimos raios de adolescência que nos faltavam. Lá vinha o Tio Queiroz com “vocês são escumalha!... o que é que querem para beber?” e as coisas foram-se passando, às vezes chegando ao vómito, às vezes conseguindo evitá-lo. As histórias são tantas que torna-se difícil enumerá-las. Era a abundância, o fabuloso mundo dos jovens proto-digitais. A evolução continuava inexorável, porém, e veio o novo milénio, com a internet e a fantástica possibilidade de obter álbuns que não tivéramos possibilidade de comprar ou de pedir emprestado, ainda que, ao princípio, a velocidade de download fosse tão rápida quanto a velhota do anúncio do Obikwelu. Curiosamente, nada aconteceu aos sistemas no ano 2000, a não ser ao sistema do Dentão, que quase se apagou no ano novo, de uma forma menos espectacular que o meu apagão de 1999 – em que, mesmo assim, recuperei heróico para ver o sol nascer no horizonte enquanto os outros todos já dormiam ébrios e vencidos pelo cansaço. Vieram as namoradas, posteriormente convertidas em digníssimas esposas, depois os filhos dos irmãos mais velhos, depois os filhos de nós mesmos. O grupo desintegrou-se. O café do pai do Daninhas começou a ser frequentado por outra gente. Pelo menos, parecia-me – eu próprio já não reparava bem, já não passava por lá amiúde. Disseram-me que já nem sequer era o pai do Daninhas o dono do estabelecimento. Mas não fiz caso, estava a jogar FM e a sacar cenas pela internet. Não reconhecer a gente tornara-se trivial. A terra começou a definhar, as lojas fechavam, a fábrica deu espaço a uma urbanização de luxo e eu pensava “que sa foda”, porque estava bem, embrenhado em sonhos de realidade e cada vez mais cínico, mesmo que achasse que podia estar melhor. Veio a acomodação e o desinteresse. Os primeiros velhos começaram a morrer, mas aquilo nada me dizia. Nunca fui bom a interpretar sinais pouco explícitos. Arranjei trabalho, o dinheiro começou a cair e, mesmo que tudo à volta começasse a parecer-se pouco com o que tinha sido, achei que estava no caminho certo, não reparando que o isolamento ia crescendo. Eles é que estavam mal, fossem quem “eles” fossem. Acabei por sair da terra e iniciar um novo ciclo. Pouco confiante, como sempre. Aquilo que me confortava era saber que havia outros piores e, valha a verdade, havia apenas um ou outro dia mau, mas o comboio continuava sobre os carris.

Ano após ano, tudo na mesma. Para mim. A rotina sedimentou-se de tal forma que qualquer desvio era uma dor de cabeça e eu não gosto propriamente de dores de cabeça nem do sabor do paracetamol. Fui ficando por aí, tentando evitar a chuva, passando por entre os buracos. O problema é que o mundo tinha mudado. Já nem sequer as televisões eram grandes objectos, a portabilidade instalara-se e com ela a banalização das relações. Quando dei por mim, toda a gente falava na crise. Já nem sei quando começou ao certo, mas sinto que ouço essa palavra diariamente há anos. E eu estive adormecido este tempo todo, embalado pelo “portuguese dream”. Que é um sonho tipo o americano, mas à nossa imagem: remediado, tímido, cumprindo os requisitos mínimos. Já não havia emprego. Já não havia gente conhecida. Os sítios cheiravam a mofo, tinham envelhecido como nunca pensei que envelhecessem. Os velhos iam morrendo todos os meses, sem nós nunca termos tido a oportunidade de lhes dizer adeus. E todos confirmavam “era uma grande pessoa”, como nunca reconhecida em vida. Outros, que eu ainda consegui ver agarrados à cama, mas já muito fracos para se agarrarem à vida. Morreram dias depois. “Um alívio para todos”, disseram-me os mais chegados. Comecei a sentir o círculo da morte a apertar-se mais em meu redor. Até o Tio Queiroz fenecera, soube meses depois, por acaso. Mas ainda eram os outros. Pensei que ia escapar incólume. Depois vieram as notícias inesperadas, os choques abruptos que nem trovões numa noite calma, e, finalmente, senti que a crise, qualquer que fosse a sua forma, também me tinha apanhado. “Daqui ninguém sai vivo” – não penses que és diferente. Porque a crise estava aí para democratizar a todos com o infortúnio. Fui atropelado pelo carrossel da crise, pela espuma tóxica dos dias. E estava a dormir muito bem, como se a minha muralha de esconder emoções dum Colunex se tratasse. A crise multiplicava-se em várias vertentes, fossem elas a crise económica, financeira, política, sentimental, de meia-idade, de valores, etc.. É um bicho resistente. Clamava-se por uma revolução e ninguém sabia ao certo o que fazer ou dava um passo em frente, esperançados que o outro, que pensava igual, tomasse a iniciativa, qual “mexican standoff” dos filmes do Tarantino. A não ser no Facebook. Aí toda a gente é gira e inovadora. O Facebook é um cancro, o maior deles, que nos consome sob a aparência de felicidade; é a droga da ilusão com que tentamos mascarar enormes buracos negros sentimentais que nos sugam a vida. E depois há os reality shows patéticos, absurdos, estupidificantes, mas que vendem. Vendemos a alma à tecnologia e a quem nos garanta que é possível ficar na mesma quando tudo à volta se desmorona e não temos como pagá-la de volta. Foram anos a abusar. A sustentabilidade era uma coisa de totós para totós e que, mais a mais, nunca saiu do papel. Vi gente a rir-se por tudo e por nada, das parvoíces mais inanes. Vi imbecis com poder a mais para as suas incapacidades. E agora tenho o meu coração feito numa autêntica passa. Estou mirrado. Assaltam-me memórias de tempos que me parecem extremamente felizes a esta distância e suspeito que estas fotografias vão-me causar ataques diabólicos de melancolia. Não queria ter de viver de recordações como o Vítor Espadinha, mas foi mesmo em Setembro que a conheci e não consigo deixar de identificar-me com ele. Choro mais nestes dias até do que quando era bebé de fralda. Como Midas-ao-contrário, tudo onde toco parece definhar. Sinto-me condenado a aguentar como puder, em longos serões solitários a olhar pela janela, e acredito, como o Sporting, que isto ainda não está suficientemente mau para que não possa ser pior. Pensei que nada ultrapassava o meu Bettencourt até que tive o meu Godinho. A terra, essa, já não tem comércio; as lojas encheram-se de graffittis e tags manhosas e toda a gente sabe que nos hipermercados é onde se compra a qualidade de vida, preferencialmente na época dos saldos. A terra morreu e ainda não sabe. Ninguém lhe disse e ninguém lhe vai dizer. Talvez alguém desconfie, quando houver uma mega-explosão ou aquilo tornar-se numa espécie de subúrbio de Joanesburgo, ou toda a gente que conhecer estiver definitivamente morta ou for encontrada morta no sofá da sala em elevado estado de decomposição. Estou abandonado. Estão todos demasiado ocupados a mandar mensagens instantâneas e a escrever mal, mas ninguém se importa, ninguém é suficientemente audaz para corrigir. “fdx tives te a fzer 1 q c a t dama lol” – é uma espécie de pintura rupestre dos novos tempos. Ninguém sabe se isto é uma pergunta ou uma afirmação. Pode ser uma nota de suicídio, talvez, quem sabe.

24 dezembro 2012

Peter Griffin



Uma pessoa vê o Peter Griffin e pensa logo, “ena pá, vem aí um fartote de riso”. Mas não. Este post não vai ser engraçado. Porque eu conheci um Peter Griffin na realidade e a realidade não é sempre engraçada. É verdade. Há sempre um ou outro acidente mortal que envolve gente do mais inocente que possamos pensar, violações e injustiças que tiram o sorriso até ao mais negro dos humoristas, só a título de exemplo. A realidade pode ser uma grande seca e mesmo aquele gajo que pisou a casca de banana pode ficar paraplégico e é afinal teu familiar ou amigo. Este gajo que eu conheci era a figura chapada do Peter Griffin. Mesmo. Eu chamava-lhe “o Family Guy”, só para que as pessoas o pudessem situar melhor. “Aquilo que dá na Fox a seguir ou antes dos Simpsons”, explicava, mas a maioria do pessoal “Aaah… Pois…”, como se os próprios Simpsons fossem para criancinhas ou atrasados mentais. “Os meus filhos é que gostam de ver esses bonecos”, atiravam com o paternalismo próprio de quem já está muito à frente na escala de evolução humana e eu, desarmado, sentia-me um padre a pregar a peixes surdos, mas com muito menos sucesso que o António Vieira. Tudo bem, um gajo habitua-se. Eu evitava chamá-lo de Family Guy directamente, porque o gajo tinha quase dois metros de gordura e brutalidade. Estava lá tudo. Era bem gordo, bastante gordo, com aquela barriga característica do Griffin que lhe tapa os genitais. Eu acho que este gajo já nem sequer via os seus genitais ao espelho, tamanho era o volume daquela pança. É das coisas mais deprimentes que me posso lembrar, se bem que em desenho-animado até tem a sua graça e evita censuras. Tinha a cara papuda, com aquele queixinho dividido em dois como um par de testículos. E esta metáfora não deve ser inocente. Acho que grande parte dos desenhadores trabalha a melhor maneira de colocar formas que não seriam publicáveis em contextos insuspeitos. O cabelo era um pequeno tufo lá no topo, penteado para o lado e até a com a mesma cor do cabelo do Griffin. Também possuía uns óculos fininhos. E para completar o ramalhete, também tinha um riso bastante característico, embora não tão cómico em si mesmo como o riso do Griffin. Não era das pessoas com menos humor que conheci, mas só era engraçado por acaso, não calibrava bem as suas “punch-lines”. Talvez o seu humor se assemelhasse mais ao de um Fernando Rocha sem tanta sexualidade envolvida e sem o sotaque de parolo. Ou seja, era um sentido de humor sem grande grau de refinação e sem os predicados essenciais do humor sem classe, deambulava por ali na terra de ninguém. Se tivesse que definir as suas deixas, diria que eram para o desbragado, boçal e providas de insensibilidade social. A sério, era difícil haver uma versão sem fins humorísticos do Griffin mais notável que aquele gajo. Em si mesmo, ele era uma personagem. Dele se esperavam as perguntas mais inquestionáveis e as tiradas mais socialmente repreensíveis. Mas tudo sem a verve dos bem-humorados. Era mais defeito que feitio. Como do género “viste a preta hoje? Acho que ela já se cansou desta merda e foi curtir os petrodólares lá para a Avenida da Liberdade”, com a preta a passar logo atrás dele. O que não queria dizer que ela não estivesse efectivamente farta daquela merda e preferisse gastar a sua fortuna na Avenida da Liberdade. Era apenas o desbocado da situação que havia a registar. Era assim, propenso a embaraços involuntários, sempre a fumar, o que lhe proporcionava aquela voz característica dos fumadores, tipo Gilberto Madaíl. Uma rouquidão e uma tosse com uma certa dose de gosma claramente mais irritante que sensual, que era adjectivo que nunca se lhe poderia aplicar. A saúde física dele não devia andar lá muito bem. E ele também não parecia preocupar-se muito com isso. Falava em molhos, bifes e bebidas com grande certeza. Dizia que já tinha feito isto e aquilo, tinha planos para qualquer coisa mais e notava-se que não era parvo de todo. Seria intelectualmente mais apto que o Griffin, devo reconhecer, apesar de tudo. Devia provir de boas famílias, pese embora o aspecto e a rudeza. Era desembaraçado, apesar do peso, e metia conversa com qualquer um, desenvolvendo uma proximidade inquietante com alguém que acabara de conhecer. Denotava alguma esperteza. O problema estava todo no estilo. Era difícil alguém levar-lhe muito a sério ao fim de cinco minutos. Ainda para mais os aficionados do Family Guy. Se calhar o Seth MacFarlane travou contacto com ele há alguns anos e surgiu-lhe a ideia do Griffin. Parece-me plausível, embora Griffins devam haver em barda pelos EUA. Dizia que tinha filhos e eu lembrei-me logo de um Chris Griffin com um macaco mau no armário. Imaginei-o a peidar-se na cara da sua Meg. Conjecturei que a sua mulher seria pouco menos que perfeita, uma Lois sempre disposta a manter sexo com ele, por muito mórbido e inestético que parecesse. Nunca aceitei convites dele para aceder às suas redes sociais. Mas isto porque também não sou grande adepto das redes sociais, o que me faz um potencial assassino em série, como já li para aí algures nalguma publicação online – “ah, não estranha que o gajo desatasse a matar tudo o que lhe aparecesse à frente, porque o gajo vivia num sótão, a jogar Call of Duty e sem Facebook, logo, quando saísse de casa iria vingar-se de todos os pedidos de amizade que lhe fizeram e aos quais não acedeu”. De qualquer forma, eu preferia ser amigo do verdadeiro Peter Griffin. Pela graça em si e porque sempre daria para tomar conhecimento em primeira-mão de grandes combates entre ele e uma galinha maligna.
Este Griffin, de galinhas, devia conhecer apenas os ossos que deixava no prato, depois de enfardar uma meia-dúzia de uma só vez. A sério, este gajo foi o sósia mais equivalente e grotesco que alguma vez conheci. Tinha era o grande senão de não ser tão engraçado como podíamos pressupor. Uma pequena diferença que fazia toda a diferença.

21 novembro 2012

Cavalo

Conheço uma tipa que tem uma valente cara de cavalo. Tem mesmo aquela cara alongada de equídeo, com a diferença que os olhos estão a olhar para a frente e não estão posicionados de lado. Há para aí uma meia-dúzia de palmos de distância entre os olhos e a boca. No mínimo. Tem cabelo extremamente liso como crinas a escorrer-lhe pelas costas. Ainda por cima, tem as mandíbulas assim a atirar para o protuberante, com gengivas quilométricas, que lhe conferem um aspecto cavalar quando se ri. E só se riu porque lhe meteram uns torrões de açúcar junto ao nariz.
Do pouco que a ouvi, deve comer palha, porque é tudo o que sai daquela boca. E eu aposto que ela relincha. Não a conheço muito bem, talvez porque hipismo não é bem a minha onda. Quem a conhece diz que ela é teimosa que nem uma burra. Neste caso, devia ser “que nem um cavalo”. Ou égua. Ou mula. Mas não, ela não é mula nenhuma. Não é, por sombras, uma cavalona. Mas esta cara de cavalo também fornica e permite-se ufanar do “meu marido” e dos “meus filhos” e etc. e tal, mesmo à laia de gaja de meia-idade. O marido dela é um jóquei, que diz “ei!,ei!” enquanto a pica com as esporas e lhe puxa as rédeas quando ela está assim para o rezingona e não quer fazer as provas de obstáculos. E ela lá põe os bofes de fora e manda uma pôia das grandes na carpete. A empregada, que lhe costuma pôr as ferraduras compradas na Foreva e pentear-lhe a trunfa, limpa tudo sem reclamar. O filho mais velho é um pónei com um pénis gigantesco que roça o chão a dar voltas no circo com criancinhas ao colo e o mais novo é um alazão de pau. Ou talvez não, mas o fixe disto é poder conjecturar à vontade.
E pronto, é isto. Sobre a cara de cavalo estamos conversados. Depois havia “o cavalão”. O cavalão foi a alcunha que o Johnny Petromax inventou para um gajo da minha turma no 10º ano. Foram tempos conturbados. Todas as 6ªs feiras havia rambóia no café a 100 metros da escola. Vínhamos do almoço e lá nos juntávamos todos, tipo uma da tarde, uma e meia, coisa e tal, e aguardávamos pelas aulas que só começavam às três e tal. Era um festival de fumo e bebida. Aquilo estragava o pessoal todo. Era aos litros e aos maços. Era a competição de penalties e das maiores passas. Era isso tudo. Vi gente a vomitar nos locais mais improváveis, com frequências totalmente imprevisíveis, em condições atmosféricas das mais diversas. E depois ainda íamos para as aulas, continuar o forrobodó. Quer dizer, a maior parte das vezes íamos, mas nem sempre isto era líquido, especialmente quando ainda estávamos com algumas faltas injustificadas para dar (sim, dantes chumbava-se por faltas). Fazia-se de tudo que não era suposto fazer-se numa sala de aula, inclusive fumar, juro que só não houve relações sexuais naquela aula porque as gajas não queriam. Até demonstrações de armas brancas houve naquela sala. Houve mais episódios deveras curiosos, que poderei desenvolver noutra altura e noutro fórum. A professora era uma espécie de mãezinha simpática à laia de uma Julie Andrews, só que míope; nunca deu por nada de especial, ou nunca quis dar, mas eu acho que ela via mesmo mal. Resumindo, aquilo era o deboche juvenil na sua plenitude, anos antes de virem com os telemóveis meter isso no YouTube e anos antes de o pessoal começar a ser violento em termos físicos com os professores. Pois bem, o cavalão era um tipo reservado, muito “estou-na-minha-e-tu-estás-na-tua”, com um olhar blasé, um estilo cool, mas não era propriamente um armário nem um gigante; julgo que o Johnny Petromax apenas estava a considerar a bruta aptidão futebolística e o aspecto robusto, mas não propriamente intimidador, d’ o cavalão. “Cavalão” foi alcunha que pegou e o Johnny Petromax até se afeiçoou ao cavalão mais que qualquer um de nós, até porque o cavalão vinha de outra terra, ele não se esforçava muito para fazer amigos, nós também já nos tínhamos e estávamos bem assim e só o Johnny Petromax, um tipo que cultivava o espírito de grupo, é que puxou por ele. E um dia o Johnny Petromax fez anos.
O aniversário do pessoal nessa altura era motivo para elevar as diatribes alcoólicas a patamares mais inusitados. Combinámos juntarmo-nos todos logo a seguir ao almoço no café do costume. O cavalão, que nem sequer era um habitué da tertúlia, também. E todos nós, especialmente o Johnny Petromax, estávamos ansiosos para ver a prestação copística d’ o cavalão, que, sendo forte fisicamente, devia aguentar estoicamente com a espuma e o gás de alguns litros de cerveja. E começou então a copofonia. Eu, como quase sempre, raramente testava os limites e era uma espécie de observador. Dá sempre jeito haver alguém mais sóbrio no meio das bezanas – para controlar comportamentos mais perigosos (tipo gente a querer mandar-se do 3º andar) e para saber algumas verdades (porque os genuinamente bêbados são incapazes de contar mentiras). E o cavalão ia com um ritmo devastador, sempre calmo, sempre a emborcar, mas já com vários copos no buxo. O Johnny Petromax lá disse, “pessoal, vamos para a aula”, e lá fomos nós, acabando o resto da cerveja pelos 100 metros que distava um sítio do outro. A aula corria normal, apenas um ou outro estore rebentado, um ou outro palavrão, nem se deve ter fumado muito na aula nem nada, talvez mais gente sorridente do que o costume. Mas o cavalão estava perfeitamente normal, muito na dele. Toca para o intervalo. O pessoal levanta-se, aos risos, bafo a álcool por todo o lado. E o cavalão? O cavalão acabara de passar por nós a correr, tapando a boca, descendo as escadas para ir ao WC. O Johnny Petromax, “eish, o cavalão vai ao gregues!”, com o espanto a inundar-lhe a cara e uma gargalhada etílica a sufixar-lhe a expressão que soltara. Para azar d’ o cavalão, a porta estava fechada e ele teve de ir junto à contínua buscar a chave e assinar um papel. Tudo isto connosco a assistir e ele sempre com a mão na boca a conter o vómito. E depois a chave não entrou à primeira. Era contrariedade a mais. Resultado: vomitou logo ali, à porta do WC, no átrio do pavilhão, com toda a gente a ver. Até a contínua, que rejeitou limpar aquilo, enojada. Era o pessoal a gargalhar nas escadas, “ó cavalão, já foste!”, e ele, com fair-play, já mais aliviado, sorriu para nós, na boa. A última imagem que conservo dele é ele com um balde de água a limpar o vómito. Mesmo “à cavalão”, pegou no balde e jorrou a água para cima do vomitado, formando ali uma pequena corrente de água suja que se foi esparramar contra o vidro da porta. Foi assim que ele limpou aquilo e acredito que aqueles pequenos bagos de arroz que se encontram nos vomitados se alaparam àquele vidro até aos dias de hoje. Ninguém se importava com minudências dessas naquela escola. Nesse dia, depois da aula, julgo que alguns foram continuar a beber copos. O cavalão é que foi para casa.
Sobre cavalos, era basicamente isto que tinha para escrever.

18 outubro 2012

O Menino Chorão

Em bom rigor, o menino que chora não é da minha terra. Isto é, se entendermos a “minha terra” apenas como o meu local de nascimento ou zona de residência. E também não é bem um menino. No fundo, “o menino que chora” é todo um conceito transversal bem arreigado na morfologia psico-social desta nação. O que quer que isso signifique – os sociólogos e psicólogos saberão dar bom uso a esta expressão e louvá-la como uma verdade quase dogmática.
O menino que chora merece toda a nossa atenção. A nossa compaixão. A nossa empatia. Soltaremos um suspirante e comovido “coitado…” sempre que nos referirmos a ele. Será um exemplo, uma metáfora perfeita da vida, a imagem que valerá por ene palavras. Se algum dia sofrermos, que soframos com a dignidade humana do menino que chora. Se algum dia nos revoltarmos, que nos revoltemos com a placidez pacífica do menino que chora. Se algum dia o nosso próprio menino chorar, que chore tão fotogenicamente e num contexto tão apropriado como o menino original que chora.
O menino que chora faz parte do nosso imaginário kitsch. Refiro-me ao quadro que está ali no canto superior esquerdo deste post. De autor desconhecido, é bem provável que um nosso familiar mais velho o tenha em estima semelhante a uma tapeçaria da última ceia de Jesus lá numa parede da sua casa. É, quiçá, o maior exemplo da usurpação da propriedade intelectual – nunca ninguém reconheceu o seu autor, assim como ninguém sabe quem cantarolou o “quem atirou o pau ao gato” pela primeira vez, e nunca ninguém se importou com isso, contrafazendo-o aos montes durante décadas e décadas. Há apenas rumores quanto à proveniência do autor; há quem diga que era um nórdico, há quem diga que era italiano, mas, apesar da apropriação massiva que os lusitanos fizeram da sua obra-prima, não será português. E bem que poderia ter sido. Para fechar este parágrafo, na minha opinião, esse autor – ou a sua família – estará como o próprio menino: a chorar pelos eventuais copyrights perdidos.
Mas os meninos que choram são mais que muitos e, três-meia-volta, lá aparece um e nós enternecemo-nos e usamos essas lágrimas como cimento de uma união passageira entre sentimentalões afectados pela desgraça que se lhes, ou se nos, impendeu. Sim, porque acabamos por tornar aquela tristeza como nossa, como verdadeiros invejosos que não podem ver ninguém a chorar sem que arranjemos em nós mesmos um motivo para chorarmos também. Não há cá reguladores nem entidades governamentais para a liberalização da amargura, mas nós sabemos bem como acabar com o monopólio da angústia.
Vou só elencar situações desportivas a título de exemplo, deixando para o lado as lágrimas dos fados da Amália ou as do Jorge Sampaio, verdadeiros chorões da alma lusitana, bem como todos os programas do Daniel Oliveira.
Comecemos pelo Eusébio: em 1966, foi vê-lo num pranto no Mundial de Inglaterra após a eliminação nas meias-finais. Ele já era um grande jogador, segundo consta; após o choro, tornou-se num ídolo mundial – sim, porque os portugueses também não podem ter a veleidade de possuírem a exclusividade da lamechice, por muito que tentem. E oh se tentam. Depois vieram os anos 70, alguma euforia e rebeldia, a seguir os anos 80, com a felicidade estúpida que os caracterizou, a Europa e os sintetizadores e mais não sei o quê, até que chegámos aos anos 90, da geração rasca e do nascimento de uma certa insatisfação generalizada, bem propícia a cenas trágicas.
Rui Costa lacrimejou quando saiu do Benfica, chorou quando lhes marcou um golo, derramou baba e ranho que nem um perdido quando Marc Batta o expulsou na Alemanha e todos esses choros foram plenamente justificados, todas essas explosões inequívocas de sentimento içaram o Rui Costa a um patamar de humanismo sem precedentes na bola lusa, a qual o facto de ele estar umbilicalmente ligado à mega instituição lusa que é o Benfica ajudou de sobremaneira. Por isso, que ninguém ouse criticar a estatura moral desse Senhor, assim mesmo, com maiúscula, por mais oleoso que esteja o seu cabelo ou por mais difusas que sejam as suas funções actuais no seu clube de sempre. É um anjo na Terra, um Michael Landon mais jovem e atlético, um candidato à canonização.
O novo século chegou e com ele o peso da desilusão por anos de conformismo. Chorar, como quase tudo na era global, massificou-se e banalizou-se. É fácil chorar por tudo e por nada nos dias que correm, mas tudo passa, tudo se esquece em momentos. Vimos o Sá Pinto a chorar quando marcou um golo e apercebemo-nos que estava ali um ser emocional para além do agressor raivoso do seleccionador. Logo os sportinguistas, já inebriados pelo vigor com que Sá corria dentro de campo, o alcandoraram a ícone, sedentos que estavam de um ídolo ruicostiano no seu próprio clube. Mas já não estávamos na era da autenticidade, que foi um valor que perdeu valor; e Sá Pinto continuou a oscilar entre choros, acessos de fúria e momentos de dormência com a volatilidade de uma montanha-russa; quem chorou a seguir foram os próprios sportinguistas, alguns deles com francas debilidades afectivas e com bastante receio de ver cair o seu mais-que-tudo em desgraça, terrificados perante a possibilidade de ficarem órfãos de uma referência que eles próprios construíram apressadamente com uma certa leviandade, levando a que defendessem o Sá quando todos os sinais apontavam no sentido de deixá-lo cair. Um pouco como o amante traído que não consegue esquecer o fogo da paixão que o arrebatou durante breves momentos no passado e que se quer esquecer da porrada que levou de forma a manter a sua sanidade sentimental.
A selecção de rugby, essa, juntou ao choro de copiosas derrotas aos pés de neozelandeses em ritmo de treino uns dotes vocais para arranhar o hino. Apareceram todos agarrados entre si numa cenografia homoerótica que fez as delícias do povo. Pareciam os batalhões portugueses na 1ª Guerra Mundial, autêntica carne para canhão. Tornaram-se heróis. Bebemos todos daquelas lágrimas como se a derrota nos pesasse de facto, como se o rugby fosse coisa que interessasse ao comum português. Porque se eles fossem para lá calmos e serenos e perdessem na mesma queríamos lá saber. Não. Há que perder de forma trágica, há que saber ser mártir. O público valorizará assim uma causa perdida à nascença.
O último exemplo é o de Eduardo. Não o mãos de tesoura, mas o mãos de manteiga. O guarda-redes chorão do Mundial patético da África do Sul. O grau de patetice deste certame para as cores nacionais esteve inversamente correlacionado com as exibições dele – se ele foi o melhor da selecção, é porque pouco se aproveitou. Ou melhor, aproveitou-se, mas não no plano puramente futebolístico: deu para ver que Queiroz foi tramado com uma cabala a valer, daquelas que nós podemos verdadeiramente dizer “isto é uma cabala!” a plenos pulmões e nós aprendemos que o choro ainda pode trazer dividendos e guindar personagens de segundo plano a píncaros pouco expectáveis à partida. Foi o caso do Eduardo, um bom rapaz, humilde e que dispensava cebolas para largar o seu corrimento ocular. Foi logo a correr para o Benfica, o berço do sentimentalismo espúrio nacional, pois claro. Contudo, eu volto a frisar: estamos numa era incaracterística. E por isso, ao fim de pouco tempo, já as lágrimas do Eduardo tinham caído no esquecimento… e o próprio Eduardo também. O Queiroz, por outro lado, preferiu abespinhar-se em vez de chorar, ou pelo menos chorou mas sem recurso a lágrimas, retirando o lado físico da coisa, o que, parecendo que não, conta muito. Resultado: foi expatriado.

29 setembro 2012

Phil Collins

 
“O gajo é o Phil Collins”, observei. “Estás maluco?”, respondeu-me.

É normal. Poucas vezes as minhas comparações fazem sentido para a gente à minha volta. O que para mim é evidente, para os outros é um absurdo. Inimaginável. Intragável. Tão frio como Alasca no pico do inverno. Muito ao lado como um remate do Ribas. Quem é o Ribas? Nem ele sabe bem e nós não nos queremos lembrar. Isto é, partindo do pressuposto que o Ribas alguma vez rematou; para muita gente, isto é apenas mais um paradoxo. E eu compreendo-os. Mas muita gente não me compreende e a sua incompreensão é-me incompreensível. Cada vez menos, é certo, porque a habituação vai deixando-me anestesiado e indiferente.

Só a custo alguém me diz “eh pá, sim senhor, é isso mesmo”. É muito raro. Acontece quando o rei faz anos e, como todos sabemos, nós não temos rei – aquele tipo de bigode que casou com uma tipa ao saber que ela estava encalhada, provinha de boas famílias e era fértil não conta. Eu já só me contentava que me dissessem, entre algumas dúvidas e algum esforço em estabelecer uma relação, “hmm, de facto, há algumas parecenças…”. Mesmo isso não é comum. Por isso, vou denegrindo de certa forma a minha imagem. “O gajo é maluco”, devem comentar em surdina. O “gajo”, neste caso, sou eu.

O problema poderá residir no facto de eu não estar rodeado de gente que pense e sinta no mesmo comprimento de onda que o meu. "Take a look on me now": tenho manifestas dificuldades de relacionamento. Pelo feitio e pelas escolhas que fiz. Acho que estou inserido em grupos por um carácter meramente utilitário e que estou intelectual e espiritualmente desconectado desses mesmos grupos. Uso-os para satisfazer certas necessidades, mas muitas outras ficam por preencher. Por isso, sinto-me incompleto. Movi-me inconscientemente para grupos com cujos membros estabeleci ligações e com os quais até não me dou mal de todo, mas não estou emocionalmente ligado com nenhum deles. Bem feito, devia ter procurado a primazia do espiritual sobre o material, a realização exclusivamente pessoal à realização sócio-profissional, o que implicava mais riscos, mas não o fiz. Sempre tive medo de ser um “outcast, because I want to fit in; and I fitted, but I am just not in. Not in my view”.

Agora? Ou faço “reset”, que é de certa forma difícil e demasiado aventureiro para um gajo como eu, que não quer chatices, ou deixo-me ir indo, a ver o que as coisas dão, alguém alguma vez me irá compreender a valer, a cara-metade pode estar aí ao virar da esquina, quem sabe?, e se nada acontecer, então eu serei o mais esquisito do bando, dos bandos, só plenamente realizado sozinho, no quarto, com as suas cenas. Se calhar, é para ser mesmo assim. Provavelmente, serei anti-social. Não é perfeito. Mas sobrevive-se. Há coisas piores. Como consolação, tenho Galileu e gajos assim, que estavam certos quando todos à volta estavam errados. Nem sequer penso que eles eram apenas uma excepção, génios únicos, para não me desmoralizar muito.

Na verdade, o gajo não era muito parecido com o Phil Collins. Era somente careca e baixinho. Mas uma vez fizemos uma viagem toda a ouvir Phil Collins. E aquilo marcou-me. Quilómetros e quilómetros de conversa de chacha e de Phil Collins. Felizmente, não vomitei. Quer dizer, até aprecio algumas coisas do Phil Collins, por me fazerem lembrar da infância quando tudo era belo e desconhecido, mas não exageremos. E depois fizemos a viagem de volta. Ainda começou por meter Police. Porreiro. Talvez começássemos a estabelecer uma conexão logo ali, talvez ainda lhe perguntasse, "ó Phil, tu foste ver os Police alguma vez ao vivo?". Mas ele logo se fartou, talvez pensando que as batidas do Stewart Copeland fossem demasiado agressivas para a audiência. Para mal dos nossos pecados, que são tantos que nem dá para enumerar (falo por mim). A colecção dele no carro era muito limitada. E, desta forma, o que acabámos por ouvir? Phil Collins, evidentemente. O mesmo CD em loop. O carro era dele, ninguém ousou dizer “MUDA ESSA MERDA!”, mas lá que deve ter passado essa ideia na cabeça de todos, lá isso devia, se é que ainda existia alguma réstia de bom gosto no mundo. Que é duvidoso, mas assumamos que sim.

E então, um gajo baixinho e careca que ouve Phil Collins, bom, é o gajo mais philcollinsiano que eu conheço. Mesmo baixinho, tão baixinho que uma vez uma colega meu disse “a culpa foi daquele baixinho de merda”, ou qualquer coisa assim, e ele estava mesmo a passar por detrás do biombo onde ninguém o viu. E depois o biombo acabou; ele olhou para o meu colega e o meu colega olhou para ele, engoliu em seco, gerando-se um silêncio gelado. É desta que vamos ver o lado vingativo do Phil Collins. Mas, "against all odds", o Phil Collins até era boa onda, não levou a mal e nós demos uma grande risada enquanto o meu colega ruboresceu. Pelo sim, pelo não, começámos a ser nós a tratar dos casos do Phil Collins, para ele não pensar que estava a receber más notícias só por causa de alguma questiúncula pessoal. Ficámos todos bem, pelo menos que eu me tenha apercebido.

Mas eu percebo pouco de coisas que tenham a ver com relações e químicas interpessoais. Assim no geral. Tal como ninguém me compreende. Também assim no geral.

Depois, no Natal, aquelas festas em que há troca de presentes-mistério. A mim calhou-me um tipo do Sporting. Até tive sorte. De sportinguista para sportinguista, dei-lhe um cachecol do Nosso. Deve ter-lhe feito bom proveito. A mim ofereceram-me um suporte para duas garrafas. Uma merda de um suporte para duas garrafas. Uma coisa que ninguém percebeu ao certo o que era à primeira vista. Nem eu mesmo. Foda-se, c’um caralho, uma merda de tal ordem que nem a minha mãe quis ficar com aquilo. Mas eu tenho cara de bêbado? Não há merdas que fossem mais jeitosas e que custassem até 10 euros? Oh, foda-se… No fim, toda a gente acabou por saber de alguma forma quem tinha sido o seu “presenteador”, mas eu preferi continuar no desconhecimento. Devo ter sido o único. Mas foi por uma questão de bom senso. Porque eu não iria suportar trabalhar com essa pessoa, olhar-lhe na cara todos os dias e pensar, “que gosto de merda que tu tens” ou “tu desprezas-me de uma forma tão silenciosa que até me mete impressão”. E depois podiam dizer-me, “ah, mas o que conta é o gesto”, e eu respondo, “p’ó caralho mais o gesto, aquilo foi tudo forçado, fomos obrigado a dar e não se notou nenhum esforço para saber do que poderia gostar”. Se aquilo foi um “fuck you!” da parte dessa pessoa, então eu fiz de Cristo e dei a outra face. Se foi alguma coisa realmente de boa vontade, foi um tiro na água. Vamos acreditar que essa pessoa não estava a passar por um bom momento. Mas o que realmente importa para este efeito é que a pessoa que devia dar uma prenda ao Phil Collins estava na dúvida do que lhe dar. Nem de propósito, tinha acabado de sair uma colectânea de êxitos do Phil. Deve ter sido para aí a 14ª. E eu sugeri-lhe, “eh pá, o Phil Collins gosta do Phil Collins. “A sério?”. Foda-se, a sério, tu estiveste lá comigo a passar aquele tormento na viagem e estás a dizer-me que já não te lembras? “Ah, mas então ele já tem o CD!”, e eu disse-lhe “mas este tem a «Sussudio» e «Dancing Into The Light» e o outro era mais o «…But Seriously» com o «In The Air Tonight» e o «Can’t Hurry Love», ou lá como se chama, e mais umas cenas dos Genesis metidas ao barulho; era um CD customizado; este é que é mesmo oficial”, e essa pessoa “achas mesmo?”, e eu, “claro, não te vais arrepender”. E ela lá lhe comprou o CD.

Fiquei particularmente expectante no momento em que o Phil Collins foi abrir o embrulho. Ele parecia mesmo uma criancinha. Não tanto pela indisfarçável agitação de rasgar papel colorido e acabar com a tensão da surpresa, mas porque era mesmo muito baixinho. Mal o abriu, ele disse “Phil Collins! Como é que vocês sabiam que eu gostava de Phil Collins?”. Meu, tu és o Phil Collins; se não gostasses de ti, quem mais poderia gostar?

E eu estive naquela viagem, Phil. Nós estivemos. Sofremos. Mas quero acreditar que tudo faz parte de um plano maior, que passamos secas e desilusões e tormentos porque assim sobrevivemos. Acho que percebo desta matéria. Afinal, a minha vida, no fundo, é isso mesmo – sobreviver, sem nunca verdadeiramente sobre-viver.

26 junho 2012

Goraz (Özil no "Desafio Total")


O Özil parece um peixe. Fora d’água. Tudo por causa dos olhos, claro, como se houvesse mais algum elemento distintivo no Özil. Quer dizer, ele até tem boa técnica e estará no Top 100 dos melhores jogadores mundiais em 2012, possui um “Ö” com trema e tudo, tal como os Spinal Tap, mas quem tem uns olhos daqueles já arranjou instantaneamente um elemento distintivo. Aqueles olhos são mais que esbugalhados. Aqueles olhos fazem o Steve Buscemi parecer japonês. E, para mim, olhos assim lembram-me os olhos dos peixes. Porquê? Se vós não sentis porquê, então também não vou perder tempo a explicar-me.

Se calhar, o mais correcto seria lembrar-me dos olhos do Schwarzenegger no “Desafio Total”, quando parte o capacete ao cair no solo de Marte e começa a inchar. É. Özil pode ter vindo de Marte. Para a Merkel, tão experimentada em geografia, Turquia ou Marte deve ser praticamente a mesma coisa. Mas buscar a referência do Schwarzenegger é capaz de ser apenas perceptível aos Nunos Markls desta vida, sendo peixe uma coisa muito mais acessível para estabelecer uma comparação. Universal ou não, não sei, mas é a minha imagem mental.

O peixe na foto é um goraz. Era o que vinha na descrição. Mas eu de peixes percebo pouco. Podia ser uma tainha, robalo ou pargo. Ou esse espécimen tão vetusto que é o chicharro. Só sei reconhecer polvos, lulas (que nem sequer são peixes na verdadeira acepção do termo), salmonetes, sardinhas, salmões, bacalhau e peixe-espada. Porém, os três últimos só quando cortados, fatiados ou às postas e a sardinha só quando deitada sobre uma cama de sal que realce o brilho da sua epiderme ou esparramada numa fatia de pão untada com a sua própria gordura carbonizada. Escrito assim, até parece que a sardinha é uma vaca – vaca de “rameira” e não vaca “vaca" –, de tão receptiva a deitar-se que é. E, se calhar, até é a mais meretriz de todas as espécies de peixes. Como já disse, percebo pouco de piscicultura. Ah, e também sei quem é o Nemo. Mas esse é um palhaço. Vamos acreditar que o peixe da figura é um goraz. Não sei se é o peixe mais representativo em termos de “olhos esbugalhados”. É com certeza um peixe com um nome assaz bonito, cujos olhos são minimamente ilustrativos do meu ponto. E tem um perfil elegante que, vai lá vai, não sei se poderá ser atingível por um arenque. Ou mesmo pelo próprio Peixe, o Emílio, que foi melhor jogador do Portugal-91 e que possuía um aspecto um bocado desleixado mesmo no pináculo da moda grunge.

Eu não sei se gosto de goraz, não me lembro de ter comido algum (é provável que sim), nem tão pouco conheço o Özil, que nem sequer é da minha terra – como já concluímos atrás, ele provavelmente é um acidente marciano, bem mais infeliz que a mulher com três mamas (outra referência ao “Desafio Total”). Mas conheci um tipo que tinha olhos de peixe. Não tão esbugalhados como os do Özil, mas os maiores que eu conhecia pessoalmente. Era a minha referência pessoal. Até que, num destes dias, tive de refazer as minhas concepções mentais: vi uma tipa que batia o Özil por muito, batia um goraz de goleada. Ainda por cima, temos percursos e horários semelhantes, pelo que já a revi mais um par de vezes para reafirmar a minha certeza: ela é “O” peixe. Ou melhor “A” peixe.

São olhos esbugalhadíssimos, pulando das cavidades, ameaçando sair disparados como uma bala. Parece que está a usar daqueles óculos de comédia, cujos olhos saltam através de molas, mas nela é a sério. Os olhos estão a saltar, como se a atmosfera de Marte estivesse a brotar de dentro dela (segundo o “Desafio Total”). Nota-se o vermelho da carne por baixo, as veias a palpitarem nas partes exteriores dos seus círculos oculares. E depois tem uns óculos de graduação acentuada, que parecem ainda aumentar mais a dimensão dos seus olhos saídos. Um exemplo exagerado do que é ter “os olhos bem abertos”, sem contudo ver nada de especial. Nem se vislumbram pálpebras, nem pestanas, nem nada; aquilo é tudo um par de olhos gigante. Ver aqueles olhos é uma coisa que só visto. Tomara ela ter uns olhos de goraz. Ou até do Özil, vá lá.

Enfim, eu acredito que é possível ela ser feliz. O Özil também pode, e deve, ser feliz. Aliás, deviam entender-se às mil maravilhas. São tipos, como se costuma dizer, “de vistas largas”. Só o goraz, o pobre goraz da foto, é que já não tem oportunidade de fazer mais nada que não conhecer o sistema digestivo de algum tipo qualquer. Se é que aquilo é mesmo um goraz.